Paul McCartney inventou o rock alternativo, diz o jornalista inglês Peter Doggett numa passagem de “Paul McCartney: Homem em Fuga”. Autor de três dezenas de publicações sobre músicos que, cada qual a seu modo, fizeram a diferença na sempre pasteurizada indústria fonográfica, Doggett lembra ainda que McCartney fez o favor de popularizar o lo-fi, estilo de gravação em que, mais que tolerados, imperfeições, improvisos e mudanças súbitas de cadência são desejáveis, dando ao ouvinte o sentimento de ser o anfitrião de seu ídolo num animado e despretensioso convescote. E não poderia haver alguém mais apropriado para a tarefa de decifrar essa esfinge que Morgan Neville. Laureado com o Oscar por “A Um Passo do Estrelato” (2013), sobre a relação das cantoras de apoio, as backing vocals, e seus patrões famosos e multimilionários, o documentarista extrai do ex-beatle inconfidências e causos com toda a serenidade, atributo que partilha com o octogenário McCartney.
Beatlemania, a nova religião
Neville faz da saída de McCartney da maior banda de todos os tempos, o cisma mais controverso do show business, o gancho para divulgar seu novo filme, mas “Homem em Fuga” é maior que isso. A edição de Alan Lowe propõe uma jornada ao passado remoto do multi-instrumentista, e vai ficando claro que ele pode ter deixado os Beatles, mas o conjunto jamais o abandonou. Muito mais categórica que a de John Lennon (1940-1980), a defecção de McCartney, seu autoexílio em High Park, a humílima fazenda em Kintyre, nas terras altas da Escócia, e a fundação da Wings, a nova empreitada musical, permeiam as boas análises e inferências do biografado acerca da excruciante rotina de supercelebridade, colocadas à mesa por um McCartney que nunca dá as caras e que é tão presente. Apesar de feito em parceria com a Tremolo Entertainment, a produtora de Neville cujo objetivo é impulsionar e enaltecer artistas já consagrados, o longa vira um longo desabafo de um velho talento e de um homem calejado que soube conservar a ternura. Essa sua face surge sem pudores ao falar de Linda Louise Eastman (1941-1998), a fotógrafa com a qual casou-se aos 27 anos, e com quem teve Mary, Stella e James, além de Heather, a enteada que fez questão de registrar. McCartney talvez tenha concordado com Lennon quando este, há exatas seis décadas, afirmou, num arroubo infeliz de vaidade, que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Hoje, sem fugir do embate com a velhice e a finitude — como canta na melodramática e sincerona “When I’m Sixty-Four” (1967) —, Paul McCartney é apenas um sobrevivente. Um bravo sobrevivente.
Filme:
Paul McCartney: Homem em Fuga
Diretor:
Morgan Neville
Ano:
2026
Gênero:
Biografia/Documentário
Avaliação:
9/10
1
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Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

