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Com milhares de cópias vendidas, romance sombrio da literatura italiana recebe adaptação, na Netflix

Com milhares de cópias vendidas, romance sombrio da literatura italiana recebe adaptação, na Netflix

“Não Me Mate”, dirigido por Andrea De Sica, parte de uma premissa ousada e perturbadora: Mirta (Alice Pagani) e Robin (Rocco Fasano) morrem juntos após uma overdose, mas ela desperta horas depois, sozinha, com o corpo funcionando e uma necessidade brutal que não estava no pacote do luto. O romance juvenil que parecia intenso e autodestrutivo ganha outra dimensão quando Mirta percebe que, para continuar viva, precisa se alimentar de carne humana. A partir daí, o que era paixão vira sobrevivência, e o que era rebeldia vira risco concreto.

Alice Pagani segura o filme com uma mistura convincente de fragilidade e agressividade. Mirta não entende o que aconteceu, mas entende rapidamente o que precisa fazer. Ela tenta voltar para casa, tenta parecer normal, tenta sustentar uma rotina mínima, mas o corpo impõe regras próprias. A fome chega como dor, como urgência, como comando. Ignorar não é opção. Cada saída noturna vira cálculo: onde ir, quem evitar, como não deixar rastros. A cidade, antes cenário de encontros com Robin, se transforma em território hostil, cheio de olhares e possíveis testemunhas.

Robin, interpretado por Rocco Fasano, permanece como presença constante na memória dela. O amor entre os dois nunca foi exatamente saudável, e o filme deixa isso claro. Havia dependência, excesso, intensidade demais para dois adolescentes que confundiam limite com prova de afeto. Quando Mirta retorna sem ele, o vazio pesa. Ela não lamenta apenas a perda do namorado; lamenta a perda da versão de si mesma que existia ao lado dele. Essa ausência influencia decisões práticas e emocionais, e cada escolha dela carrega esse eco.

Silvia Calderoni aparece como figura adulta que adiciona tensão ao cotidiano de Mirta. Seu olhar atento, desconfiado, funciona como lembrete constante de que algo está fora do lugar. Mirta precisa mentir, disfarçar, evitar explicações longas. E mentir cansa. O filme trabalha bem essa pressão doméstica: a casa deixa de ser refúgio e vira espaço de vigilância. Cada atraso, cada mudança de humor, cada silêncio fora de hora pode levantar suspeitas. A margem para erro diminui.

O horror aqui não vem de sustos, mas da lógica implacável da condição de Mirta. Ela não é uma heroína tradicional, tampouco uma vilã caricata. É uma jovem que acorda com uma sentença biológica inegociável. A fantasia entra como regra do jogo; o terror aparece nas consequências. Quando Mirta cede à fome, resolve um problema imediato e cria outro maior. O preço é sempre social, físico ou emocional. E o filme insiste nessa matemática cruel.

Há também um traço de ironia amarga em algumas situações. Mirta tenta justificar sua aparência abatida, seus horários estranhos, sua falta de apetite por comida comum. As desculpas soam frágeis, quase absurdas, e isso provoca um riso nervoso. Mas a leveza dura pouco. Logo a narrativa a empurra de volta para a urgência, lembrando que a condição dela não permite pausas longas nem romantizações.

Andrea De Sica conduz a história com ritmo firme e atmosfera sombria, sem transformar a trama em tratado filosófico. O foco está sempre nas decisões práticas de Mirta e nos obstáculos que surgem em resposta. A direção evita explicações excessivas e prefere mostrar a personagem agindo, errando, recalculando. Isso mantém a tensão ativa e impede que o filme escorregue para um discurso abstrato sobre juventude ou marginalidade.

“Não Me Mate” mistura romance, fantasia e horror de maneira desigual, mas interessante. Nem tudo atinge a mesma intensidade, e algumas escolhas dramáticas dividem opiniões. Ainda assim, a jornada de Mirta prende pela coragem de assumir sua premissa até as últimas consequências. O filme acompanha uma jovem que precisa decidir, noite após noite, o que está disposta a perder para continuar respirando. E essa pergunta, incômoda e direta, sustenta a força da história sem precisar revelar mais do que o necessário.

Filme:
Não Me Mate

Diretor:

Andrea De Sica

Ano:
2021

Gênero:
Fantasia/horror/Romance

Avaliação:

7/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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