Nordeste Magazine
Cultura

Paul Thomas Anderson dirige uma das últimas grandes obras-primas do século 20, na Netflix

Paul Thomas Anderson dirige uma das últimas grandes obras-primas do século 20, na Netflix

Poucos filmes entendem tão bem que o tempo é cruel quando pais e filhos resolvem conversar tarde demais. “Magnólia”, dirigido por Paul Thomas Anderson, junta Tom Cruise, Jason Robards e Julianne Moore em uma história sobre culpa, dinheiro e reconciliação atravessada por um programa de televisão ao vivo que não pode parar. Em San Fernando Valley, o quiz “O Que as Crianças Sabem” coloca três crianças contra três adultos, e o pequeno prodígio Stanley Spector, vivido por Jeremy Blackman, carrega o time nas costas enquanto o pai, Rick Spector, interpretado por Michael Bowen, transforma cada resposta certa em cifrões. O estúdio exige desempenho, a audiência cobra recorde e o menino começa a cansar de ser tratado como investimento.

Do outro lado dessa engrenagem está Jimmy Gator, personagem de Philip Baker Hall, apresentador veterano que sustenta o sorriso no palco enquanto lida com um diagnóstico de câncer. Fora das câmeras, ele enfrenta o rompimento com a filha, Claudia Wilson Gator, interpretada por Melora Walters, que o acusa de abuso e vive mergulhada no vício. Quando o policial Jim Kurring, papel de John C. Reilly, atende a uma queixa de som alto no apartamento dela, nasce um romance torto e delicado, cheio de tentativas sinceras e recaídas dolorosas. Jim quer fazer dar certo; Claudia quer acreditar que merece algo melhor, mas a insegurança sempre volta para a mesa.

A doença também ronda Earl Partridge, produtor do programa, vivido por Jason Robards, agora em estado terminal. Ao lado da esposa Linda Partridge, personagem de Julianne Moore, ele percebe que o dinheiro que estruturou o casamento já não resolve o essencial. Linda, que entrou na relação por interesse, descobre que ama o marido quando o perde aos poucos, e isso a desmonta. No quarto do hospital, Earl pede ao enfermeiro Phil Parma, interpretado por Philip Seymour Hoffman, que encontre o filho distante, Frank T.J. Mackey, papel de Tom Cruise. Frank construiu fama dando seminários para homens inseguros, vendendo uma masculinidade agressiva e blindada. Ele transformou a própria dor em negócio. O chamado do hospital ameaça essa armadura.

Há ainda Donnie Smith, vivido por William H. Macy, antigo campeão do mesmo programa infantil, hoje adulto frustrado e desempregado. Ele acredita que um gesto ousado pode devolver a autoestima e conquistar o afeto que nunca conseguiu manter. Donnie é o retrato de quem vive do passado e tenta negociar com um presente que já não o reconhece.

O que mais impressiona em “Magnólia” é como essas histórias se cruzam sem parecer artificiais. Paul Thomas Anderson alterna palco, hospital, delegacia e apartamentos pequenos com naturalidade, mostrando como decisões íntimas têm efeitos imediatos e às vezes irreversíveis. Um telefonema pode abrir a chance de despedida. Uma resposta errada na televisão pode custar um prêmio milionário. Um encontro pode significar salvação ou mais um tropeço.

O filme é longo, intenso e emocionalmente exaustivo, mas nunca gratuito. Ele não julga seus personagens; observa. Tom Cruise entrega talvez uma das performances mais complexas da carreira, oscilando entre arrogância pública e fragilidade privada. Julianne Moore expõe desespero sem pudor. Philip Seymour Hoffman, com gestos contidos, transforma cuidado em ato de resistência. E Jason Robards imprime ao produtor moribundo uma humanidade que desmonta qualquer simplificação.

“Magnólia” aposta no confronto direto entre passado e presente. Pais tentam pedir perdão. Filhos avaliam se ainda vale a pena escutar. Amantes descobrem sentimentos tarde demais. Crianças são pressionadas a crescer antes da hora. Tudo acontece sob luzes de estúdio ou sob a frieza de um hospital, lembrando que o tempo não negocia com ninguém. E é justamente nessa urgência que o filme encontra sua força mais sincera.

Filme:
Magnólia

Diretor:

Paul Thomas Anderson

Ano:
1999

Gênero:
Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Veja também

Sandra Bullock contra Ryan Gosling: o suspense na Netflix que vai fisgar seu fim de semana

Redação

Sally Field encontra seu papel mais delicado em um filme da Netflix que mira direto na solidão moderna

Redação

Um tesouro sonoro do jazz está livre para download e remix

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.