“O Bom Bandido”, de Derek Cianfrance, começa com Jeffrey Manchester abrindo caminho pelo teto de um McDonald’s e usando o freezer como instrumento de controle. A repetição do golpe pelo telhado desenha um padrão reconhecível e puxa a caça das autoridades. A sequência desemboca em prisão e sentença, e a mudança é imediata: o homem que escolhia o horário do assalto passa a ser escolhido pela custódia e perde controle do próprio deslocamento.
A fuga da prisão troca telhado e cofre por uma decisão de sobrevivência: achar um lugar onde a busca não alcance de primeira. Jeffrey se instala dentro de uma Toys “R” Us e passa meses ali sem ser detectado, com circulação mínima e atenção constante ao movimento do lado de fora. O esconderijo exige repetição de dias iguais sem produzir sinal, com passos medidos entre portas e horários que ele não comanda.
A Toys “R” Us impõe uma rotina de detalhe. Jeffrey subsiste com doces e observa funcionários para aprender horários, portas e ritmos, tentando se manter fora de vista com a ajuda de uma estrutura que o proteja. Um gesto fora de hora pode virar pista, e a vida clandestina depende de ficar, calar e esperar.
Leigh entra na história pelo mesmo corredor em que Jeffrey tenta desaparecer. Ele decide aparecer sob um nome falso, “John”, e o romance começa sem que ela saiba do esconderijo na loja nem do histórico criminal do parceiro. O namoro pede presença e repetição; o esconderijo pede silêncio e ausência. A convivência cresce sobre omissões básicas, e cada encontro exige que ele segure a identidade real a poucos centímetros do que diz.
O toy drive ligado à igreja tira Jeffrey do perímetro da loja e o coloca em espaço público. Ele rouba brinquedos e os leva para doação no circuito comunitário de Leigh, ampliando a chance de ser visto e reconhecido. A movimentação também muda o tamanho do romance: deixa de ser um encontro entre dois e passa a incluir deslocamentos cercados por outras pessoas. Sustentar o nome “John” num ambiente que ele não controla vira parte da própria rotina.
As filhas de Leigh empurram Jeffrey ainda mais para uma convivência de família. Ele tenta se aproximar das crianças, e isso exige tempo, repetição e presença — o tipo de marca que um foragido costuma evitar. O nó permanece: manter a identidade falsa e a moradia improvisada fora do alcance de quem convive com Leigh. Cada aproximação aumenta o número de situações em que ele precisa estar visível sem poder explicar de onde vem e para onde volta.
A condição de foragido fecha o cerco no plano mais simples: esconderijo e vida pública não cabem no mesmo horário. Jeffrey depende de permanecer dentro da Toys “R” Us sem ser visto e, ao mesmo tempo, precisa aparecer para Leigh sem que ela conecte o nome “John” ao homem que fugiu da prisão e vive na loja. Seguir no romance empurra o foragido para mais circulação no trabalho, na igreja e perto da família dela; recuar preserva o esconderijo, mas corta o vínculo que ele acabou de construir.
Filme:
O Bom Bandido
Diretor:
Derek Cianfrance
Ano:
2025
Gênero:
Biografia/Crime/Drama/Romance
Avaliação:
9/10
1
1
Amanda Silva
★★★★★★★★★★

