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O tipo de história que suja sua consciência em 10 minutos — tá na Netflix

O tipo de história que suja sua consciência em 10 minutos — tá na Netflix

“Abutres”, de Pablo Trapero, põe Héctor Sosa (Ricardo Darín) para procurar clientes onde a cidade ainda está em estado de emergência: corredor de hospital, delegacia, cena de acidente. Ele vive de contratos de indenização colhidos no instante em que a vítima mal consegue organizar a própria história, e essa escolha cobra um preço logístico: a atividade depende de uma estrutura que administra casos, toma a frente do dinheiro e recolhe sua parte. O cotidiano de Sosa nasce dessa dependência e do ritmo de reaparecer, noite após noite, nos mesmos lugares.

“Abutres” fixa esse trabalho num gesto que volta sempre: Sosa se aproxima de feridos e familiares, recolhe assinaturas e encaminha o caso para uma “fundação/empresa” que se apresenta como pró-vítima, mas fica com o grosso do dinheiro. A barreira prática aparece no comando dos pagamentos e no funil de intermediação que não se desmonta com boa vontade. Cada assinatura resolve o curto prazo — o caso entra na fila — e, ao mesmo tempo, amarra Sosa com mais força a quem controla a circulação do dinheiro.

A ambulância joga Luján (Martina Gusmán) na mesma rota por outra via, com plantões em hospital público e ocorrências noturnas que despejam vítimas de trânsito na porta da emergência. A carga é física e contínua: o trabalho se acumula entre rua e hospital, e o contato com o desastre não dá trégua. É desse choque de rotinas que nasce o encontro com Sosa — ela trabalha com corpos e prontuários, ele chega com papelada e promessa de solução rápida — e a aproximação se constrói dentro do mesmo fluxo que os dois não conseguem evitar.

A relação cresce sem oferecer abrigo automático porque Sosa traz junto o que não se apaga: passado comprometido e vínculos com um grupo que vive desse mercado. Ele decide “limpar” a vida para ficar com Luján e tenta sair do trabalho sujo, mas encontra resistência direta de colegas e superiores, que não aceitam uma saída simples. O efeito imediato é o casal passar a conviver com um risco grudado ao cotidiano: a permanência de Sosa interessa a quem manda no balcão, e o conhecimento dele sobre o esquema vira um problema que precisa ser contido.

A resposta a essa tentativa de recuo não fica no terreno do aviso abstrato. A retaliação aparece como violência e como recado de que ele “sabe demais”, condição que impede um desligamento limpo. O vínculo com Luján amplia a exposição: a vida íntima passa a dividir espaço com intimidação e com a percepção de que o entorno de Sosa alcança quem está perto. A cada passo para fora, surge um lembrete de que o grupo tem meios para puxá-lo de volta.

A decisão de sair também não interrompe os deslocamentos que aproximaram os dois. Sosa continua circulando por emergências e cenas de acidente, e Luján segue entre ambulância e hospital; os pontos de contato se repetem — ocorrência, corredor, delegacia — e essa repetição facilita o cerco de colegas e superiores. Em vez de uma conversa longa, o dia a dia vira um conjunto de respostas rápidas: onde ir, com quem falar, o que assinar, como atravessar a noite sem dar margem ao próximo golpe.

Sosa tenta recuperar algum chão profissional enquanto a estrutura que o emprega mantém a mão no seu pescoço, usando o que ele já fez e o que ele sabe como instrumento de controle. Luján permanece nos plantões e no atendimento, mas o vínculo com ele traz para perto a mesma lógica de contrato, dinheiro retido e retaliação. O impasse se fecha no básico e no imediato: ele tenta romper, eles não deixam, e o casal precisa continuar se movendo dentro da mesma engrenagem que ele prometeu abandonar.

Filme:
Abutres

Diretor:

Pablo Trapero

Ano:
2010

Gênero:
Crime/Drama/Romance/Thriller

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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