Quando o poder treme, não são apenas presidentes que caem: casamentos, amizades e carreiras entram na linha de tiro. É exatamente desse ponto delicado que parte “1976: Entre o Amor e a Revolução”, drama dirigido por Izu Ojukwu que acompanha dias decisivos na vida do capitão Joseph Dewa, interpretado por Ramsey Nouah, enquanto a Nigéria enfrenta a tentativa de golpe militar após o assassinato do presidente. Logo no início, Dewa aparece sendo interrogado por oficiais que conseguiram conter o levante. Ele está fardado, mas vulnerável. Cada resposta pode preservar sua patente ou enterrá-lo de vez dentro da própria instituição que jurou servir.
A narrativa então volta alguns dias no tempo e mostra como ele chegou até aquela sala fechada. Em casa, Dewa tenta manter a rotina ao lado da esposa, Suzy, vivida por Rita Dominic, mas a tensão política já circula no ar. Na véspera do golpe, o casal tenta dormir enquanto o vizinho, o major Noel, personagem de Chidi Mokeme, insiste em manter uma festa barulhenta para celebrar o aniversário da jovem esposa. O detalhe parece banal, quase doméstico demais para um thriller político, mas é justamente aí que o filme ganha força: pequenos gestos revelam hierarquias, rivalidades e silêncios que depois pesam como prova.
Dewa precisa decidir quando falar, para quem falar e o que é prudente guardar. Ele é um oficial do Exército, treinado para obedecer, mas também é marido, homem comum tentando proteger a própria casa. Ramsey Nouah constrói esse conflito com contenção. Seu Dewa não é expansivo; ele calcula. Rita Dominic, por sua vez, dá a Suzy uma firmeza silenciosa. Ela percebe antes do marido que a crise institucional vai atravessar a porta da sala e sentar à mesa do jantar. O relacionamento dos dois vira uma espécie de campo minado emocional, em que cada omissão tem custo.
O filme funciona como drama político, mas também como romance em estado de alerta. Izu Ojukwu opta por mostrar como decisões aparentemente pequenas se acumulam até se tornarem suspeitas formais. O interrogatório que abre a história paira sobre todas as cenas seguintes. Mesmo quando acompanhamos momentos íntimos, sabemos que aquelas conversas poderão ser revisitadas sob outra luz. Essa estrutura mantém a tensão sem recorrer a exageros. Não há espetáculo gratuito, e sim pressão constante.
Chidi Mokeme compõe um major Noel carismático e inquietante ao mesmo tempo. Ele pode ser apenas um vizinho inconveniente ou alguém no centro de algo maior. O filme nunca simplifica essa ambiguidade. E isso é um mérito: em vez de oferecer respostas fáceis, a trama nos coloca ao lado de Dewa, compartilhando dúvidas, receios e cálculos estratégicos.
“1976: Entre o Amor e a Revolução” não transforma seus personagens em símbolos abstratos. Eles são pessoas presas entre lealdade institucional e sobrevivência pessoal. O golpe é pano de fundo e motor da ação, mas o que realmente importa são as escolhas feitas quando ninguém tem todas as informações. Ojukwu conduz a história com sobriedade, deixando que o peso das decisões fale mais alto que discursos inflamados. Sem revelar mais do que deve, o filme constrói um retrato íntimo de um país em convulsão visto a partir de um casamento que tenta resistir. E essa perspectiva humana é o que torna tudo mais tenso, e mais dolorosamente real.
Filme:
1976: Entre o Amor e a Revolução
Diretor:
Izu Ojukwu
Ano:
2016
Gênero:
Drama/Romance
Avaliação:
8/10
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Helena Oliveira
★★★★★★★★★★

