Companhia conclui processo de reestruturação financeira nos EUA (Divulgação/Azul)

Após cerca de um ano e meio sob proteção do Chapter 11 nos Estados Unidos, a Azul anunciou oficialmente sua saída do processo de reestruturação financeira. A companhia ingressou na Justiça americana em maio de 2025 com um plano pré-negociado com credores, no modelo conhecido como pre-packaged, e atravessou meses de ajustes operacionais, negociações estruturadas e captações bilionárias até concluir a etapa final.

Ao contrário de reestruturações emergenciais marcadas por estrangulamento de caixa, suspensão de pagamentos e disputas judiciais prolongadas, a Azul iniciou o processo com a engenharia financeira já estruturada. Entrou com financiamento assegurado, apoio formal de parceiros estratégicos internacionais e consenso relevante entre credores, combinação que reduziu incertezas, garantiu a continuidade das operações e conferiu previsibilidade à reorganização desde o início.

“Em menos de nove meses, concluímos uma reestruturação abrangente que fortaleceu significativamente nosso balanço e posicionou a Azul para a estabilidade de longo prazo. Estamos saindo do Chapter 11 com o apoio de alguns dos mais respeitados parceiros financeiros e estratégicos da aviação global”, destacou John Rodgerson, CEO da Azul, em comunicado enviado à imprensa nesta sexta-feira (20).

A decisão estratégica em meio à pressão financeira

Em maio de 2025, a Azul enfrentava a combinação de pressões que vinha se acumulando desde o pós-pandemia. A forte desvalorização do real elevava despesas dolarizadas, atrasos globais na cadeia de suprimentos comprometiam a disponibilidade de aeronaves e componentes, e as ações da companhia recuavam à mínima histórica de R$ 1,48, refletindo a deterioração da confiança do mercado.

A empresa tentou reforçar o caixa com uma captação de R$ 4 bilhões, mas conseguiu levantar apenas R$ 1,6 bilhão. Paralelamente, as negociações para acesso a linhas governamentais via FNAC e FGE avançavam de forma mais lenta do que o necessário. Com vencimentos relevantes no curto prazo e risco de compressão de liquidez, a administração decidiu protocolar o pedido de Chapter 11 em Nova York, entre 27 e 28 de maio.

O diferencial esteve na engenharia da entrada. A Azul já havia estruturado previamente um financiamento DIP (Debtor-in-Possession) de US$ 1,6 bilhão e assegurado compromissos de aporte de até US$ 150 milhões da American Airlines e US$ 100 milhões da United Airlines. O arranjo incluiu ainda acordos com arrendadores e detentores de títulos, reduzindo incertezas e afastando o risco de descontinuidade operacional.

Ajustes operacionais e preservação da malha

Logo no inicio do plano, a prioridade da Azul foi preservar a confiança do mercado e assegurar a continuidade das operações, enquanto a reestruturação avançava no âmbito judicial. A estratégia combinou comunicação ativa com medidas operacionais pontuais para proteger o caixa e ajustar a capacidade à realidade da frota disponível.

Executivos intensificaram o diálogo com o trade de turismo para reforçar que o Chapter 11, por se tratar de um mecanismo da legislação americana, não significava paralisação das atividades no Brasil. Ainda assim, a persistente escassez global de peças e restrições na disponibilidade de aeronaves exigiram revisões na malha internacional.

Foram suspensas rotas como Manaus–Fort Lauderdale, Curaçao–Fort Lauderdale e Campinas (Viracopos)–Assunção, dentro de um movimento de racionalização de capacidade. Para mitigar impactos na conectividade e reduzir a perda de oferta, a companhia recorreu a contratos de ACMI (Aircraft, Crew, Maintenance and Insurance) com empresas como EuroAtlantic e Hi Fly, garantindo aeronaves e tripulações de forma temporária.

Mesmo sob proteção judicial, os indicadores operacionais sinalizaram resiliência. Em julho, a Azul registrou receita líquida de R$ 2,016 bilhões e Ebitda ajustado de R$ 708,9 milhões, evidenciando geração operacional positiva. No mesmo período, os acionistas aprovaram o aumento do capital social de R$ 2,3 bilhões para R$ 7,1 bilhões, reforçando a base patrimonial em meio ao processo de reestruturação.

A virada: acordo com credores e redução de US$ 2 bilhões

Entre setembro e novembro de 2025, a Azul entrou na fase mais decisiva da reestruturação, voltada à recomposição estrutural do balanço. O plano de negócios atualizado estabelecia a eliminação de cerca de US$ 2 bilhões em passivos e a redução da alavancagem líquida para aproximadamente 2,5 vezes, patamar considerado mais sustentável para o setor.

Ao apresentar o plano revisado, o CEO John Rodgerson destacou o caráter estratégico da reorganização. “Este plano de negócios reflete a paixão dos nossos tripulantes e nosso desejo de reconstruir a Azul como uma companhia aérea muito mais forte. Durante este processo, conseguimos chegar a acordos com nossos principais stakeholders, reduzindo significativamente nossa dívida e alavancagem, aumentando nossa geração de fluxo de caixa livre e estabelecendo relacionamentos estratégicos de longo prazo.”

O ponto de inflexão ocorreu em 1º de novembro, com a formalização de um Acordo Global com os credores quirografários. Ao assegurar o apoio desse grupo, a companhia reduziu significativamente o risco de contestações e litígios que poderiam estender o processo, cenário observado em outras recuperações judiciais de companhias aéreas na região.

Na sequência, o Tribunal de Nova York aprovou o Disclosure Statement e o Backstop Commitment Agreement, instrumento que garantiu até US$ 650 milhões para a capitalização e viabilizou a abertura formal da votação do plano de reorganização. A aprovação judicial consolidou o alinhamento entre empresa e credores e conferiu segurança jurídica à etapa final.

Com o consenso construído e as bases financeiras redefinidas, a saída do Chapter 11 deixou de ser uma incógnita e passou a depender essencialmente do cumprimento do cronograma estabelecido.

O financiamento de saída e a validação do mercado

Em janeiro de 2026, a Azul acelerou as etapas finais para deixar o Chapter 11. No dia 21, a companhia anunciou uma nova oferta de ações de até US$ 950 milhões, acompanhada de um aporte adicional de US$ 100 milhões por credores e partes interessadas. A operação, que previa diluição adicional de cerca de 80% da base acionária então existente, tinha como objetivo reforçar o capital e antecipar a conclusão do processo.

Uma semana depois, em 28 de janeiro, a empresa lançou oficialmente uma oferta privada internacional de títulos seniores com vencimento em 2031, estruturada por sua subsidiária Azul Secured Finance LLP. A captação tinha como finalidade principal quitar o saldo remanescente do financiamento DIP, mecanismo utilizado durante a recuperação judicial, e consolidar o financiamento de saída.

No dia 30, a companhia informou que a emissão foi precificada em US$ 1,375 bilhão, com remuneração de 9,875% ao ano. A demanda atingiu cerca de 7,5 vezes o volume ofertado, sinalizando forte apetite dos investidores e funcionando como uma validação de mercado para o plano de reestruturação. A conclusão da operação ficou prevista para 6 de fevereiro, condicionada às etapas formais de fechamento.

Paralelamente, as agências Moody’s e Fitch atribuíram ratings B2 e B-, respectivamente, ambos com perspectiva estável, refletindo a nova estrutura de capital e o avanço das etapas previstas no plano aprovado no Chapter 11.

Azul
O CEO da Azul, John Rodgerson (Acervo M&E)

O impasse regulatório no Brasil

Na reta final da reestruturação, surgiu um obstáculo regulatório no Brasil envolvendo o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). O órgão passou a analisar a ampliação da participação da United Airlines na Azul, de 2% para 8%, operação que prevê um aporte de US$ 100 milhões por meio de oferta pública de ações e integra o pacote financeiro vinculado ao plano de saída.

A companhia sinalizou que eventuais atrasos na aprovação poderiam desencadear efeitos contratuais no plano homologado pela Justiça norte-americana, com risco de descumprimento de prazos e impactos sobre a conclusão do processo dentro do cronograma projetado para fevereiro de 2026. O alerta incluía custos adicionais e eventual questionamento por parte de credores caso a operação não fosse validada dentro do prazo.

A incerteza regulatória foi superada no dia 11 de fevereiro, com a aprovação unânime do Cade ao aporte de US$ 100 milhões da United Airlines, elevando a participação da companhia americana de 2% para cerca de 8% no capital da Azul. A transação recebeu aval sem restrições estruturais, mas com condicionantes que preveem o monitoramento de eventuais ampliações futuras de participação e mudanças na governança.

Azul aprova emissão de bônus bilionários de subscrição

Antes do anúncio oficial da saída, a Azul Linhas Aéreas divulgou, na manhã desta sexta-feira, 20 de fevereiro, uma atualização relevante em seu processo de reestruturação sob o Chapter 11, com a aprovação, pelo Conselho de Administração, da emissão de bônus de subscrição como parte do plano conduzido nos Estados Unidos. A medida contempla a destinação inicial de bônus à American Airlines, além de instrumentos voltados a credores quirografários e à United Airlines, podendo resultar na subscrição de trilhões de ações ordinárias, com direito de preferência assegurado aos acionistas posicionados até 20 de fevereiro de 2026. No mesmo movimento, a companhia aprovou a formação de um Comitê Estratégico, cuja efetivação está condicionada à conclusão da reestruturação, reforçando os ajustes de governança e capital em curso no âmbito do plano.

Um novo ciclo

Com a saída do Chapter 11, a Azul passa a operar com uma estrutura de capital reconfigurada, menor nível de alavancagem e horizonte financeiro mais previsível. O processo, iniciado em meio à pressão cambial, à escassez global de peças e às restrições de acesso a crédito, se encerra com financiamento de longo prazo contratado, base acionária reorganizada e alinhamento formal com credores e investidores estratégicos.

“Com a conclusão do Chapter 11, esperamos sair mais forte, como sempre falamos durante todo esse processo, e com a certeza de estarmos muito mais preparados para atender a demanda dos brasileiros”, afirmou Ricardo Bezerra, gerente geral da área comercial da Azul, ao M&E.

Mais do que superar os efeitos da crise pós-pandemia, a companhia conclui a reestruturação como um dos processos mais coordenados e tecnicamente estruturados do setor aéreo na América Latina, criando condições para retomar investimentos, recompor capacidade e buscar crescimento de forma mais sustentável.