“A Conexão Sueca” acompanha Gösta Engzell, vivido por Henrik Dorsin, um funcionário de baixa prioridade no Ministério das Relações Exteriores da Suécia durante a Segunda Guerra Mundial. Ele não é general, não é diplomata estrela, não ocupa cargo de destaque. É um burocrata que lida com papéis, listas e autorizações em um país que se declara neutro enquanto o continente arde. E é justamente desse lugar aparentemente pequeno que ele começa a empurrar limites, tentando ampliar a proteção a judeus e mulheres ameaçados pelo conflito. A direção de Thérèse Ahlbeck e Marcus Olsson mantém o foco nessa tensão silenciosa: até onde a neutralidade pode servir de escudo, e quando ela vira desculpa para não agir?
Gösta não faz discursos inflamados. Ele revisa documentos, reabre processos que poderiam ser simplesmente arquivados e insiste em interpretações mais generosas das regras. Cada assinatura dele carrega um peso real, porque pode significar a entrada de alguém no país ou a recusa definitiva. O filme mostra como essas decisões passam por reuniões tensas, olhares atravessados e advertências veladas. Há sempre o risco de que superiores considerem suas ações excessivas e resolvam enquadrá-lo. Ainda assim, ele avança um centímetro de cada vez, apostando que a letra fria da norma pode ser dobrada em favor de pessoas concretas.
Sissela Benn interpreta uma colega que acompanha de perto esse movimento. Ela organiza pedidos, controla prazos e alerta Gösta quando algo pode desandar. A relação entre os dois tem uma cumplicidade discreta, feita mais de troca de informações do que de grandes declarações. É ela quem muitas vezes lembra que o relógio corre e que qualquer erro pode colocar todos sob suspeita. Já o personagem de Jonas Karlsson representa o outro lado do corredor: a ala que cobra prudência, teme desgastes diplomáticos e insiste na manutenção da linha oficial. Nos encontros entre eles, o embate nunca explode, mas fica claro que cada concessão tem preço.
O que torna “A Conexão Sueca” interessante é justamente essa escolha de olhar para a guerra a partir de um gabinete. Não há batalhas em campo aberto, e sim discussões sobre vistos, relatórios e autorizações. Pode parecer pouco cinematográfico, mas a direção encontra tensão na rotina administrativa. Um documento que volta para revisão, uma assinatura que demora a sair, uma lista que precisa ser ajustada antes de seguir adiante: tudo isso ganha peso porque afeta vidas fora da tela. Sem transformar Gösta em mártir, o filme sugere que coragem também pode ser insistir quando o mais fácil seria arquivar e esquecer.
Henrik Dorsin entrega um protagonista contido, quase comum demais, o que funciona a favor da história. Ele interpreta Gösta como alguém que sabe que pode perder espaço dentro do ministério, mas decide pagar para ver até onde consegue ir. Não há romantização exagerada, e isso ajuda a manter a narrativa firme. Ao acompanhar seus embates internos e institucionais, o longa constrói a ideia de que decisões administrativas, quando tomadas com responsabilidade e risco pessoal, podem alterar o rumo de muita gente. Sem revelar seus desdobramentos finais, basta dizer que “A Conexão Sueca” faz do silêncio de um escritório um campo de batalha moral, e deixa claro que até um carimbo pode se tornar um ato de resistência.
Filme:
A Conexão Sueca
Diretor:
Thérèse Ahlbeck e Marcus Olsson
Ano:
2026
Gênero:
Biografia/Drama/Guerra/História
Avaliação:
9/10
1
1
Fernando Machado
★★★★★★★★★★

