O Carnaval de 2026 entrou para a história nas duas maiores passarelas do samba do país com desfiles marcados por emoção, disputa acirrada e celebração de trajetórias. No Rio de Janeiro, a Unidos do Viradouro conquistou seu quarto título com uma homenagem em vida ao Mestre Ciça. Já em São Paulo, a Mocidade Alegre sagrou-se campeã ao reverenciar a atriz Léa Garcia, vencendo por apenas um décimo de diferença.
No Rio, emoção e protagonismo para Mestre Ciça
Com o enredo “Pra cima, Ciça!”, a Viradouro celebrou neste Carnaval a trajetória de Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, de 69 anos, comandante da bateria e um dos nomes mais respeitados do ritmo no Carnaval carioca. O título marca o quarto campeonato da escola de Niterói, que retorna ao topo dois anos após a conquista de 2024.
Terceira a desfilar na segunda-feira (16), a Vermelha e Branca apresentou um espetáculo de forte apelo emocional, conduzindo o público por momentos decisivos da vida do homenageado. Ritmistas cruzaram a Avenida visivelmente comovidos em um desfile que destacou desde a infância até a consagração do mestre.
A comissão de frente encenou a entrada de Ciça no universo do samba. O menino Vitor Gabriel interpretou o pequeno Moacyr, cercado por malandros e visitado por um leão que simbolizava a Estácio de Sá, primeira escola pela qual passou. No auge da apresentação, o próprio Mestre Ciça surgiu entre os integrantes, inicialmente misturado ao corpo de baile. Ao retirar o paletó, revelou-se ao público e, ao lado de sua versão mirim, dançou na pista em referência aos tempos de passista.
Na sequência, subiu em um tripé em formato de apito estilizado, que se transformou nos arcos da Apoteose. Um elevador o ergueu ao alto da estrutura, encerrando a encenação. Ao final do percurso, uma cadeira de rodas o aguardava, em uma simulação de mal-estar que fazia parte da coreografia. Conduzido para fora do Sambódromo, ele retornou de motocicleta, escoltado por batedores, para reassumir o comando da bateria na concentração.
O desfile também reuniu nomes de diferentes agremiações. Uma alegoria trouxe mestres de bateria do Grupo Especial e da Série Ouro, além do casal Claudinho e Selminha, que havia acabado de se apresentar pela Beija-Flor de Nilópolis. O carnavalesco Paulo Barros desfilou emocionado, reforçando o clima de celebração coletiva.
Outro momento de destaque foi o retorno da atriz Juliana Paes como rainha de bateria, 18 anos após sua última participação pela escola. Nos minutos finais, ela e Ciça lideraram os ritmistas na recriação de uma imagem histórica de 2007, quando a bateria se apresentou sobre um carro alegórico.
Em São Paulo, vitória definida nos décimos
Se no Rio o título veio embalado pela emoção, em São Paulo a tensão tomou conta da apuração. A Mocidade Alegre confirmou a vitória apenas no último quesito, fantasia, após alternar posições com a Gaviões da Fiel durante a leitura das notas. A campeã somou 269,8 pontos, apenas 0,1 à frente da rival. Foi o 13º título da escola, que havia vencido pela última vez em 2024.

O samba-enredo “Malunga Léa, Rapsódia de uma Deusa Negra” homenageou a atriz Léa Garcia, morta em 2023. O desfile revisitou momentos marcantes de sua carreira e celebrou sua importância para a representação da mulher negra na dramaturgia brasileira.
Entre as referências estiveram a novela A Escrava Isaura, cujo famoso “lerê, lerê” foi incorporado ao samba em releitura festiva, além dos filmes Orfeu Negro e Xica da Silva. Uma das alas celebrou as atrizes negras “que vieram antes e virão depois”, com componentes exibindo fotos de Neusa Borges, Cris Vianna, Jéssica Ellen e Duda Santos.
O último carro trouxe um “Kikito”, estatueta do Festival de Gramado, entregue simbolicamente a Léa Garcia, que morreu no dia em que seria homenageada no evento. A atriz foi representada por Adriana Lessa, dourada como a estatueta. Também participaram do desfile nomes como Thelminha e Fred Nicácio.
À frente da bateria há 16 anos, a rainha Aline Oliveira empolgou a arquibancada ao balançar o bandeirão da escola na entrada do recuo. A agremiação ainda precisou acelerar o passo nos minutos finais para não ultrapassar o tempo máximo. Os portões foram fechados com 1h05min05s de desfile, restando poucos segundos para o limite regulamentar.
Entre lágrimas na Sapucaí e disputa voto a voto no Anhembi, o Carnaval 2026 reafirmou a força das homenagens e da memória como fios condutores dos desfiles campeões.

