“Os Excêntricos Tenenbaums”, de Wes Anderson, começa com um gesto que não pede licença: Royal, expulso do hotel onde vivia, volta à antiga casa dizendo ter câncer. A alegação força Etheline a chamar os filhos e dá ao pai um caminho imediato para se reinstalar. Royal ocupa o quarto de Richie e o enche de equipamentos, transformando um espaço íntimo em enfermaria improvisada. A rotina passa a girar em torno dessa encenação, e a desconfiança entra na casa junto com os aparelhos.
Royal também mexe com o ponto mais sensível de Chas: a segurança das crianças. Ben Stiller faz desse adulto um operador de protocolos, alguém que treina os filhos para desastres e tenta controlar o ambiente pelo detalhe. A briga estoura quando o avô leva as crianças para uma aventura com shoplifting e dog fighting, tirando o pai do domínio que ele construiu. A discussão acontece dentro da casa, e Royal ainda devolve o golpe ao chamar o filho de “colapso nervoso”, ampliando um ressentimento que já estava armado.
O noivado de Etheline com Henry Sherman altera o terreno por simples presença, como um anúncio que muda quem tem direito de ocupar aquele endereço. Danny Glover entra como Henry com uma energia de verificação: ele não discute a doença no campo da impressão e vai atrás de hospital, de médico, de remédio, até encontrar inconsistências. A checagem termina numa reunião em família em que a mentira é exposta e devolvida como expulsão de Royal e de Pagoda. Com o patriarca fora, o convívio deixa de ser retorno e vira remendo imediato de estragos recentes.
O casamento de Margot segue por uma linha de suspeita que vira ação concreta. Raleigh, o neurologista vivido por Bill Murray, desconfia de traição e decide agir com Richie: os dois contratam um detetive para seguir Margot. A escolha cria um objeto que passa a mandar no ambiente — o relatório — e o papel chega como peça que troca conversa por dossiê. A leitura provoca reações rápidas: Raleigh confronta Margot e vai embora, e Richie desaba a ponto de terminar no hospital. A cadeia é direta e áspera, porque nasce de vigiar, registrar e entregar um documento.
A carta que Richie escreve para Eli Cash entra no mesmo circuito de papéis que empurram decisões sem retorno fácil. Ao revelar que ama Margot, Richie solta uma informação que ele não controla mais, e Eli leva o conteúdo até ela, ampliando a exposição. O hospital não interrompe essa corrente: Richie sai por conta própria e procura Margot na tenda da infância. A confissão é dita sem rodeios, termina em beijo e muda a posição dos dois dentro da casa que já estava saturada de segredos escritos.
Gwyneth Paltrow sustenta Margot como alguém que opera por camadas, e isso aparece em gestos práticos que acabam cobrados em escala maior. Ela esconde cigarro do marido, mantém segredos e vê o passado aparecer filtrado por terceiros, em forma de documento. A disputa deixa de ser boato e vira logística de informação: quem segue, quem entrega, quem lê, quem confronta. Cada troca de papel desmonta uma tentativa de normalidade, e o cotidiano passa a depender de intermediação — detetive, carta, relatório — em vez de conversa direta.
O acidente provocado por Eli sob mescalina empurra o drama para o risco físico e atinge a casa de maneira literal. Ele bate o carro na fachada, coloca as crianças em perigo e, no mesmo evento, o cachorro morre. Royal entra em ação para resgatar as crianças, gesto que o retira por instantes do papel de fraude e o coloca na linha de resposta emergencial, sem apagar a mentira já desmascarada. Chas persegue Eli pela casa, o joga no quintal do vizinho, e os dois admitem que precisam de ajuda. A família segue reunida num endereço ferido, com a expulsão ainda recente, o relatório já entregue e a casa atingida, sem um modo claro de convivência que não produza novo dano.
Filme:
Os Excêntricos Tenenbaums
Diretor:
Wes Anderson
Ano:
2001
Gênero:
Comédia/Drama
Avaliação:
9/10
1
1
Amanda Silva
★★★★★★★★★★

