O recorde mundial de público em um show de DJ, registrado por Calvin Harris durante um bloco de pré-Carnaval em São Paulo, no dia 8 de fevereiro, não foi apenas um feito numérico. Ao reunir mais de 1 milhão de pessoas na Rua da Consolação e transformar a capital paulista em um mar humano, o evento tornou-se símbolo de um movimento mais amplo: o reposicionamento do Brasil como palco central de grandes experiências culturais no cenário global.
Se o Carnaval historicamente funcionou como vitrine turística internacional, o que se observa agora é a ampliação dessa exposição. A sucessão de megashows, a consolidação de eventos esportivos de alcance mundial e o reconhecimento crescente do audiovisual brasileiro indicam que a projeção externa do país deixou de estar concentrada em um único período do ano e passou a integrar uma estratégia mais contínua de presença global.
Cultura como ativo estratégico
Para o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, esse movimento está diretamente ligado ao que ele define como o maior diferencial competitivo do Brasil: o soft power.
“O valor mais genuíno do brasileiro é o nosso soft power. Cada visitante que chega se torna embaixador dessa energia que inspira, gera oportunidades e fortalece comunidades”, afirma.
Mais do que entretenimento, os megashows e festivais funcionam como plataformas de contato direto com a cultura brasileira. “Esses eventos globais são polos de geração de negócios e projetam um Brasil contemporâneo, criativo, diverso e capaz de receber grandes produções internacionais com excelência”, diz.
Os números ajudam a dimensionar essa expansão. Em 2024, o país sediou mais de 360 festivais de música, um crescimento de 20% em relação ao ano anterior. O Brasil tornou-se o único país do mundo com festivais realizados em todos os meses do ano, consolidando um calendário contínuo de experiências ao vivo.
Recordes que também revelam limites
A magnitude do evento em São Paulo, no entanto, também expôs desafios estruturais. Relatos de superlotação, dificuldades de acesso, gargalos logísticos e atendimentos a pessoas que passaram mal em meio ao calor intenso evidenciaram a complexidade de organizar eventos dessa escala em ambientes urbanos densos.
O contraste é evidente: ao mesmo tempo em que o Brasil demonstra capacidade de mobilização e apelo internacional, precisa avançar em gestão de multidões, planejamento urbano e protocolos de segurança para sustentar esse protagonismo.

Para Freixo, o saldo reforça uma mensagem de confiança externa. “Quando vemos uma multidão dessas num bloco de pré-Carnaval, é a prova de que o Brasil recuperou o seu brilho e a sua confiança. Mostramos que reunimos escala, energia cultural e capacidade operacional para sediar eventos globais de grande magnitude.”
Ele ressalta ainda uma mudança no perfil do visitante internacional. “O turista estrangeiro não quer apenas contemplar uma paisagem, ele quer viver o Brasil. E essa energia cultural é o nosso grande diferencial competitivo.”
O Brasil no circuito permanente de grandes eventos
O fortalecimento do calendário cultural se soma à presença consistente de eventos esportivos internacionais. O Grande Prêmio do Brasil, em São Paulo, reúne mais de 300 mil espectadores e movimenta cerca de R$ 2,3 bilhões na economia local. Já a National Football League escolheu o Brasil para expandir sua atuação internacional, gerando aproximadamente R$ 330 milhões na economia paulista, com participação expressiva de turistas estrangeiros.
“O sucesso de grandes eventos consolida o Brasil como destino preparado e competitivo, ao comprovar sua capacidade de receber operações globais complexas com excelência em infraestrutura, segurança e experiência turística”, afirma o presidente da Embratur.
Segundo ele, esses eventos funcionam também como catalisadores de investimentos em conectividade aérea, hotelaria, mobilidade e tecnologia, ativos que permanecem como legado para o turismo e para a economia local.
O audiovisual como narrativa global
Se os grandes eventos trazem o mundo ao Brasil, o cinema brasileiro faz o caminho inverso: leva o país para as telas globais, projetando histórias, paisagens e identidades culturais que despertam curiosidade e ampliam fronteiras.
Nos últimos meses, produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto passaram a ganhar espaço no debate internacional ao lado de títulos já consagrados, como Bacurau, Cidade de Deus e Central do Brasil. Seja por novas estreias, retrospectivas em grandes festivais, premiações ou redescobertas impulsionadas pelo streaming, o cinema brasileiro voltou a ocupar vitrines globais. A presença do país em palcos como o Festival de Cannes, o Festival de Veneza e o Oscar reforça o peso do audiovisual como instrumento estratégico de projeção cultural.

“Nosso cinema vive um momento espetacular de reconhecimento mundial, e isso é uma das melhores propagandas que o Brasil pode ter”, afirma Freixo.
Nesse contexto, a Embratur tem intensificado a aposta na internacionalização do audiovisual. Um dos exemplos é o edital “Brasil com S”, voltado à produção de curtas-metragens que valorizem a identidade cultural brasileira como ativo estratégico de promoção internacional. Mais do que financiar projetos, a iniciativa incorpora os conteúdos selecionados às ações de divulgação em mercados prioritários, transformando-os em peças de branding territorial.
“Muitas pessoas decidem seus destinos incentivadas por algum filme ou série que assistiram. Quando uma produção brasileira circula no mundo, ela desperta curiosidade sobre nossas paisagens, nossa gastronomia, nossas cidades e nossa diversidade cultural”, destaca Freixo.
A vitrine digital
Paralelamente, a construção da imagem internacional do Brasil passa cada vez mais pelas redes sociais. Plataformas como o TikTok estão repletas de conteúdos produzidos por estrangeiros mostrando experiências no país, de praias a feiras populares, da gastronomia aos grandes eventos.
“As redes sociais refletem um novo patamar do Brasil no mercado turístico global. Esse movimento espontâneo reforça o resultado das nossas estratégias de promoção”, afirma Freixo.
Além da divulgação orgânica, a Embratur firmou parcerias com big techs para capacitar empresas e criadores de conteúdo, ampliando o alcance internacional da promoção digital do destino Brasil.

Entre visibilidade e permanência
O conjunto desses movimentos aponta para algo maior do que eventos isolados ou picos sazonais. O Brasil atravessa um momento de reconfiguração de sua imagem externa, combinando cultura, entretenimento, esporte e audiovisual como ativos estratégicos de promoção.
O desafio agora é transformar recordes em recorrência, visibilidade em fluxo turístico contínuo e exposição em desenvolvimento sustentável.
O país voltou ao centro do palco. A questão é como sustentar esse protagonismo no longo prazo.

