“Fruitvale Station — A Última Parada” começa com imagens captadas por um celular: o tiroteio registrado por inúmeros aparelhos e depois viralizado. A abertura põe a violência diante do espectador sem filtros, como algo que já circula fora da tela. Em seguida, o filme volta para a manhã anterior, com essa informação acompanhando o dia inteiro.
Oscar Grant tem 22 anos e foi demitido por chegar constantemente atrasado, mas omite a notícia de Sophina. Ele acredita que pode recuperar o emprego após conversar com o chefe e se move como se ainda tivesse uma saída ao alcance. Michael B. Jordan dá a Oscar um carisma de homem comum, com um corpo inquieto e um olhar que antecipa reações, como alguém que calcula o que pode dizer em cada conversa.
O primeiro encontro com ele ocorre numa discussão com Sophina, que o suspeita de infidelidade. Eles fazem as pazes, e Oscar a leva para o trabalho sem tocar no assunto do emprego. Depois, ele leva a filha de quatro anos para a pré-escola, e o dia passa a ser marcado por horários e trajetos que não deixam as pendências paradas.
A tentativa de recuperar o emprego muda o rumo das coisas. Oscar conversa com o ex-chefe e recebe um “não”, o que derruba a promessa que ele havia feito a si mesmo. A partir daí, o problema vira duplo: não há renda e a informação segue trancada em casa, pedindo uma explicação que ele evita.
Sem dinheiro, ele cogita vender maconha para um amigo e desiste antes de ir para a casa da mãe. A desistência mantém uma fronteira que ele não cruza, mas não resolve a conta do dia. O plano abandonado vira mais uma falta, porque nada entra no lugar do dinheiro que não veio.
O aniversário da mãe impõe uma obrigação concreta. Oscar vai ao supermercado comprar caranguejos para a festa, tentando cumprir o combinado mesmo com a demissão escondida. Octavia Spencer aparece como esse polo familiar ao qual ele retorna, e a ligação entre os dois se expressa em gestos de cuidado e cobrança cotidiana. A ida à casa da mãe não apaga o resto; só coloca as urgências lado a lado.
Trem para Fruitvale à noite
Com a noite chegando, Oscar decide ir com Sophina ver as festividades de ano novo em San Francisco. A decisão muda a forma do dia, porque reúne os dois no mesmo deslocamento e reduz as brechas em que ele administrava o que escondia por caminhos separados. O trem chega a Fruitvale, e o deslocamento coloca as pendências domésticas dentro de um trajeto que não oferece pausa.
Melonie Diaz mantém Sophina num lugar ingrato: ela suspeita de traição, faz as pazes e segue adiante sem saber que ele perdeu o emprego. Oscar, por sua vez, precisa sustentar a versão incompleta do dia, e isso cobra respostas curtas e imediatas. Jordan segura esse Oscar simpático e falho, que busca afeto e, ao mesmo tempo, empilha pequenas omissões para não encarar a conversa que falta.
Há momentos em que o filme escorrega para o exagero dramático. Um exemplo é a sequência final em que Tatiana expressa, de forma clarividente, seus temores pela segurança do pai, e também o retorno improvável de personagens em momentos coincidentes. Ainda assim, quando essas passagens surgem, elas não mudam o que está em jogo para Oscar naquele dia: seguir sem emprego, sem dinheiro e sem abrir o assunto em casa.
Quando a noite avança, o impasse continua sem solução. O emprego perdido permanece escondido, a conversa com o chefe já terminou, e Oscar segue para as festividades com o que ficou pendente. Ele entra no trem sem ter decidido como vai sustentar o dia seguinte e sem ter encontrado um jeito de desfazer a mentira. A viagem segue, e a pergunta que o persegue continua de pé: o que ele vai dizer quando não der mais para adiar.
Filme:
Fruitvale Station — A Última Parada
Diretor:
Ryan Coogler
Ano:
2013
Gênero:
Biografia/Crime/Drama
Avaliação:
9/10
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Marcelo Costa
★★★★★★★★★★

