“Viagem a Darjeeling” parte de um dado seco: Francis, Peter e Jack são irmãos e não se falam há um ano. Ao embarcarem juntos, o afastamento deixa de ser distância e vira convivência contínua, sem um intervalo natural entre um e outro. Francis, vivido por Owen Wilson, empurra o grupo a continuar se movendo mesmo quando o contato ainda sai truncado.
Eles escolhem uma viagem de trem pela Índia para acabar com a barreira entre si e buscar auto-conhecimento. Em “Viagem a Darjeeling”, a proposta cobra proximidade prolongada, porque o trajeto mantém os três lado a lado por tempo demais para que o desconforto seja adiado. O acordo é frágil e pede ajustes pequenos o tempo todo, com pouca chance de cada um sumir por algumas horas para aliviar a situação.
No mesmo vagão do trem
Peter, interpretado por Adrien Brody, entra nesse reencontro com a necessidade prática de dividir espaço e ritmo com os outros dois. Estar no mesmo trem obriga o trio a negociar o básico para seguir adiante e não cair de volta no silêncio. Quando o encaixe falha, a viagem anda, mas os três andam separados dentro do mesmo lugar.
A primeira mudança de rumo vem de incidentes ligados à compra de analgésicos sem prescrição médica. O que era trajeto combinado passa a carregar um problema imediato, que não se resolve com um acerto de contas entre irmãos. A partir daí, a viagem depende do que eles fizeram e do que conseguem contornar na sequência.
Depois entram o uso de um xarope para tosse indiano e um spray de pimenta. Cada item acrescenta um novo motivo para reagir na hora e altera o andamento do deslocamento. O plano de atravessar a Índia de trem perde a linha reta e começa a ser empurrado por esses episódios.
Perdidos no meio do deserto
O acúmulo desses incidentes desemboca numa virada prática: os três acabam perdidos no meio do deserto. Sem o trem como referência e sem o caminho previsto, a questão passa a ser encontrar um próximo passo viável e manter o grupo junto o bastante para executá-lo. A condição de “perdidos” não elimina a barreira entre eles; só torna impossível fingir que cada um está seguindo sozinho.
A bagagem fecha ainda mais as opções: são 11 malas, uma impressora e uma máquina plastificadora. O volume entra na conta de qualquer tentativa de avançar, porque tudo precisa caber no que eles conseguem carregar e administrar. Com esse peso, cada movimento cobra coordenação, e qualquer desacerto vira atraso.
A reaproximação que começou no trem passa a disputar espaço com tarefas simples e ingratas: lidar com remédio sem receita, xarope para tosse e spray de pimenta sem perder o rumo. Cada episódio exige um acordo mínimo ali, na hora, e esse acordo já nasce comprometido pelo ano de silêncio. Quando a viagem muda de vez para o deserto, sobra pouca folga para hesitar: 11 malas e dois aparelhos acompanham o trio, e o que eles carregam define até onde conseguem ir.
Jack, vivido por Jason Schwartzman, completa o trio numa etapa em que a convivência vira exigência operacional. Perdidos, eles precisam combinar o que fazer e como seguir mesmo com a distância ainda ativa entre eles. A cada tentativa de organizar o próximo movimento, a relação volta a ser testada em ações simples: quem propõe, quem aceita, quem segura o acordo por tempo suficiente.
Os contratempos mexem com quem assume a próxima decisão dentro do grupo. Se o objetivo inicial era cumprir a viagem e usar o percurso como reencontro, os incidentes com analgésicos, xarope para tosse e spray de pimenta impõem urgências que atropelam esse ritmo. No deserto, isso vira tarefa concreta: escolher rumo e execução enquanto lidam com a bagagem, uma impressora e uma máquina plastificadora, peso que limita qualquer margem.
Três irmãos ficam no deserto com 11 malas e dois aparelhos que não ajudam a atravessar nada, e o próximo passo depende do que conseguem executar carregando tudo isso.
Filme:
Viagem a Darjeeling
Diretor:
Wes Anderson
Ano:
2007
Gênero:
Aventura/Comédia/Drama
Avaliação:
9/10
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Marcelo Costa
★★★★★★★★★★

