“Thomas Crown: A Arte do Crime” aposta menos na urgência do roubo e mais no prazer do jogo. O desaparecimento de um Monet do Metropolitan, em Nova York, serve como ponto de partida para um duelo elegante entre quem esconde e quem observa, sem pressa de revelar cartas. O centro da história está no controle: quem dita o ritmo, quem provoca o outro a errar e quem sustenta a própria imagem quando tudo começa a parecer calculado demais.
Thomas Crown (Pierce Brosnan) é apresentado como alguém acostumado a vencer sem ser questionado. Bilionário, sofisticado e sempre um passo à frente, ele se move com a tranquilidade de quem domina o ambiente e confia na própria inteligência. Nada nele grita culpa, e isso é parte do problema. Crown não reage, não se explica, não se apressa. Ele apenas mantém a posição, usando charme e dinheiro como escudos eficientes.
Do outro lado está Catherine Banning (Rene Russo), investigadora contratada para recuperar a obra e receber uma porcentagem generosa se tiver sucesso. Catherine não chega armada de provas, mas de convicção. Desde o primeiro contato, ela trata Crown como responsável, mesmo sem poder dizer isso em voz alta. O trabalho dela exige insistência, leitura de comportamento e uma dose de ousadia que a coloca constantemente no limite entre o profissional e o pessoal.
O encontro entre os dois transforma a investigação em algo mais instável. A atração é clara e nunca disfarçada, mas o filme tem inteligência suficiente para não romantizar demais esse conflito. Catherine tenta manter o foco, enquanto Thomas parece se divertir em confundir intenções. Cada conversa vira um teste silencioso, cada aproximação pode ser tanto uma pista quanto uma distração. O jogo deixa de ser apenas sobre a pintura e passa a envolver vaidade, controle e ego.
Há humor no modo como o roteiro observa esse embate. Thomas provoca com segurança excessiva, Catherine responde com ironia e firmeza, e o resultado são cenas em que o charme funciona tanto como arma quanto como risco. John McTiernan dirige com leveza, evitando transformar a trama em um quebra-cabeça frio. A história flui porque os personagens se movem por desejo, curiosidade e teimosia, não apenas por lógica.
Denis Leary entra como contraponto mais pragmático, representando a pressão externa que cobra resultados e questiona métodos. Sua presença lembra que há consequências reais em jogo, mesmo quando tudo parece um flerte sofisticado. Isso ajuda a manter a tensão em níveis humanos, sem exageros, e impede que o filme vire apenas um exercício de estilo.
“Thomas Crown: A Arte do Crime” funciona justamente por não tratar o roubo como o único centro da narrativa. O interesse está no embate entre dois adultos inteligentes, conscientes do próprio poder e das próprias fraquezas. Pierce Brosnan entrega um personagem confiante sem ser caricato, enquanto Rene Russo sustenta uma investigadora forte, mas vulnerável ao jogo que escolhe jogar. É um filme sobre risco calculado, atração mal administrada e o prazer perigoso de acreditar que se tem tudo sob controle.
Filme:
Thomas Crown: A Arte do Crime
Diretor:
John McTiernan
Ano:
1999
Gênero:
Crime/Romance/Suspense
Avaliação:
8/10
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★

