Nordeste Magazine
Cultura

Na HBO Max, Dakota Johnson transforma solidão em autodescoberta — e você vai se reconhecer demais

Na HBO Max, Dakota Johnson transforma solidão em autodescoberta — e você vai se reconhecer demais

O ponto de partida de “Está Tudo Bem Comigo?” é simples e reconhecível: duas amigas adultas que dividem rotina, confidências e um acordo tácito de permanência. Lucy e Jane atravessam dias comuns com a segurança de quem já sabe onde a outra estará ao fim da noite, quem liga quando algo dá errado e quem ocupa o espaço vazio na mesa do bar. Essa estabilidade não vira assunto entre elas. Ela se mantém porque resolve o dia. As diretoras entram nesse terreno sem pressa, seguindo encontros, deslocamentos curtos pela cidade e conversas pequenas que seguram uma convivência longa.

A primeira ruptura não vem de uma briga, mas de um anúncio prático. Jane recebe uma promoção que exige mudança para Londres. A notícia chega como informação objetiva, sem preparação. Na mesma hora, o cotidiano pede ajuste: horários precisam ser revistos, planos conjuntos deixam de caber na agenda e a proximidade física, antes garantida, passa a depender de datas futuras. Sonoya Mizuno interpreta Jane com economia de gestos, concentrada nas tarefas que se acumulam e no esforço de manter tudo em pé enquanto organiza a própria saída.

Mesa do bar e Londres

Lucy reage de outro jeito. Em vez de discutir calendário e viagem, ela enfrenta algo que vinha empurrando. A decisão de falar sobre sua orientação sexual e sobre o sentimento que nutre pela amiga aparece quando o tempo começa a apertar, com Londres já marcado no roteiro da outra. Dakota Johnson segura essa passagem sem explosão, apoiando-se em pausas, hesitações e frases que não saem completas. A confissão não reorganiza o vínculo como Lucy imagina. Ela acrescenta um problema novo à distância que já estava anunciada.

Dali em diante, a convivência entra numa fase de ajuste contínuo. Conversas antes automáticas passam a exigir preparo. Encontros ganham peso porque viram raridade. As cenas param cedo, cortadas antes de uma conclusão confortável. Não aparece uma discussão longa que resolva tudo de uma vez. O que se repete são tentativas de manter o contato enquanto cada uma precisa dar conta do próprio dia.

A amizade, que parecia um dado fixo, passa a ser atravessada por escolhas diretas. Jane precisa decidir onde põe energia entre trabalho e mudança de cidade. Lucy tenta se sustentar com menos certeza de acolhimento e com menos chão compartilhado. As duas quase não levantam a voz. O atrito entra pelo acúmulo: mensagens não respondidas, convites recusados e silêncios que duram mais do que o esperado depois de uma conversa.

Jermaine Fowler aparece ao redor desse núcleo como presença que reage às mudanças e empurra Lucy para fora da rotina a dois. Esses trechos levam a personagem a outros ambientes e cobram coordenação: estar com gente nova, sustentar conversa, voltar para casa sem a amiga por perto. As cenas são curtas e funcionais, marcando o esforço de Lucy para ocupar espaço sem saber exatamente como se mover.

A condução de Tig Notaro e Stephanie Allynne insiste nas consequências práticas. Quando Jane se prepara para partir, a narrativa volta a detalhes logísticos: malas, despedidas rápidas, compromissos que não podem ser adiados. Quando Lucy fica, o tempo parece mais solto, preenchido por tentativas de reorganizar a rotina sem o ponto fixo de sempre. A diferença aparece sem discurso, pela maneira como as cenas encostam na agenda de uma e se alongam na espera da outra.

Mensagens não respondidas e convites recusados

Ao longo do caminho, “Está Tudo Bem Comigo?” não transforma a história numa lição sobre identidade ou amizade. As cenas se sucedem como episódios de adaptação, alguns mais leves, outros travados por constrangimento. O humor entra em situações específicas, quase sempre quando um encontro não encaixa ou quando uma expectativa cai no chão. A piada não resolve nada; ela só registra o mal-estar de quem ainda procura a frase certa.

A narrativa também recusa atalhos sentimentais. Não há um discurso final que organize sentimentos e dê instrução de uso para o vínculo. O que aparece são decisões tomadas com a informação disponível naquele momento, e elas pedem energia: dizer, recuar, insistir, cancelar. Algumas aproximações duram pouco; alguns afastamentos acontecem em silêncio. O tempo segue em frente, sem correr para um fechamento confortável.

Isso muda a forma de assistir. Em vez de esperar um grande momento de virada, o espectador acompanha alterações pequenas e percebe como elas se somam. A amizade entre Lucy e Jane não some de uma vez. Ela perde centralidade, espaço e frequência. O cotidiano vai ficando mais difícil de coordenar, e cada tentativa frustrada cobra mais do corpo e do relógio.

Com o passar dos dias, Lucy e Jane, que se conhecem profundamente, precisam lidar com o fato de que seus caminhos deixam de coincidir. A câmera continua perto de conversas interrompidas, de idas e vindas curtas e das tarefas que ocupam a semana. E, quando um convite não volta, o silêncio faz o resto do trabalho.

Filme:
Está Tudo Bem Comigo?

Diretor:

Stephanie Allynne e Tig Notaro

Ano:
2022

Gênero:
Comédia/Drama/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Veja também

Pode ser o melhor suspense da Netflix — e você ainda não assistiu

Redação

A HBO Max recebeu um dos suspenses mais elogiados deste século — e quase ninguém notou

Redação

Kubrick e o retrato de elites intocáveis que o caso Epstein tornaria público anos depois, no Telecine

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.