Revisitar o passado pode render lições. Traiçoeira, a memória transforma erros em fantasmas que sempre voltam, queiramos ou não. A culpa pode tornar-se um fardo tão incômodo que há quem acabe vítima das suas péssimas lembranças, condenando-se a um injusto martírio. Às vezes, o acaso decide mais do que gostaríamos. A sorte favorece alguns e ignora outros, lembrando-nos da linha tênue que separa vitória e derrota, sucesso e fracasso. Essa é a premissa empregada pelo taiwanês Hung Tzu-Hsuan em “96 Minutos”, um thriller sobre o poder das decisões naqueles momentos cruciais. Hung prefere concentrar-se nos conflitos internos de seu protagonista a enfileirar cenas pirotécnicas, revestindo a trama de uma permanente sensação de claustrofobia.
Herói atormentado
Song Kang-Ren tem um esqueleto no armário. Passados três anos, ele não esquece o maior deslize de sua carreira como especialista em desarmamento de bombas, e nem poderia. Ainda que estivesse diante de um artefato construído com uma tecnologia nova, um shopping inteiro foi pelos ares, o que levou à morte de centenas de pessoas. Ironicamente, Kang-Ren é a única esperança quando se fica sabendo de um petardo escondido num trem, programado para detonar ao final do tempo a que o título faz alusão ou caso a composição pare. Hung e os corroteiristas Yang Wan-Ju e Chen Yi-Fang inspiram-se em sucessos do cinema pipoca dos anos 1990 a exemplo de “Velocidade Máxima” (1994), dirigido por Jan de Bont, e chegam perto de “O Trem-Bala” (1975), de Junya Sato (1932-2019), deixando margem para um Kang-Ren presa de um rol de elucubrações autodestrutivas.
O amor chega a tempo
Para dar conta da missão em prazo exíguo, Kang-Ren deve primeiro ter a certeza de que não há riscos de mais um malogro, cenário que o lança numa espiral de paranoia e crise. O diretor explora sua instabilidade emocional — e o que ele faz para domá-la — detalhando a relação com a noiva, Xin Huang, em lances que subvertem a lógica da narrativa levada somente pelo fio da tensão, e numa parceria azeitada, Lin Po-Hung e Vivian Sung tiram o filme do piloto automático, mesmo que vilões com o rosto marcado por cicatrizes ganhem algum destaque.
Filme:
96 Minutos
Diretor:
Hung Tzu-Hsuan
Ano:
2025
Gênero:
Ação/Crime/Thriller
Avaliação:
8/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

