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Épico de Steven Spielberg na HBO Max, com Christian Bale, é tesouro esquecido que merece ser desenterrado

Épico de Steven Spielberg na HBO Max, com Christian Bale, é tesouro esquecido que merece ser desenterrado

Quando abordado sobre levar seu livro autobiográfico “O Império do Sol“ para as telas, J.G. Ballard se negou a trabalhar junto aos roteiristas. Segundo ele, era preciso confiar no trabalho dos profissionais do cinema: sua habilidade se limitava à literatura, e ele compreendia que o cinema operava em outra lógica, com exigências próprias. Adolescente em Xangai durante a Segunda Guerra Mundial, Ballard viu a ocupação japonesa transformar sua vida, e a de sua família, de forma radical. Essa experiência, filtrada pela memória e pela percepção juvenil, deu origem a um romance que mistura observação, estranhamento e adaptação, mais do que um relato tradicional de trauma. Adaptado por Tom Stoppard para as telas, o longa-metragem teve direção de Steven Spielberg e se tornou o primeiro filme em décadas a obter autorização do governo chinês para filmagens locais. Antes que Spielberg assumisse a batuta, o projeto passou pelas mãos de Harold Becker e David Lean, num processo longo e instável que acabou contribuindo para a identidade singular do filme.

“Império do Sol“ marcou a estreia de Christian Bale nos cinemas. Com apenas 13 anos, ele deu vida a Jim Graham, filho de aristocratas britânicos expatriados na China. Executivo de uma multinacional, o pai proporciona à família uma vida de luxo em uma propriedade isolada, cercada por muros e funcionários chineses, símbolo claro da bolha colonial em que Jim é criado. Fascinado por aviões e pelo imaginário militar, o garoto vive alheio às tensões políticas do mundo ao redor. Esse conforto se rompe quando, após o ataque a Pearl Harbor, a cidade de Xangai mergulha no caos da ocupação japonesa. Forçada a abandonar a casa, a família Graham se mistura às ruas abarrotadas de refugiados em busca de uma saída. Em meio à confusão, Jim se perde dos pais. Ao retornar sozinho à mansão, encontra o lugar saqueado, passando a vagar pelas ruas da cidade, agora como um menino faminto, sujo e dormindo em edifícios abandonados.

Durante essa jornada, Jim conhece Basie (John Malkovich), um oportunista que sobrevive explorando brechas do sistema e negociando com quem for conveniente. Inicialmente, Basie decide manter Jim por perto na esperança de obter alguma recompensa futura, numa relação marcada mais pelo interesse do que por afeto genuíno. A dinâmica entre os dois expõe Jim a uma lógica de sobrevivência baseada na negociação, na mentira e na adaptação constante. No entanto, ambos acabam capturados por soldados japoneses, e o garoto é enviado a um campo de internamento civil. Ali, Jim enfrenta fome, doenças, violência cotidiana e o colapso físico e moral dos adultos ao seu redor. Em vez de sucumbir, ele desenvolve uma resistência emocional quase mecânica, aprendendo a funcionar em um ambiente onde regras morais rígidas já não se aplicam.

Essa experiência não transforma Jim em um herói, mas em alguém profundamente adaptado a um mundo distorcido. O amadurecimento que surge não é idealizado: ele aprende a sobreviver, a negociar e a observar, ao custo da perda gradual da inocência e da naturalização da violência. Sua relação com os aviões, antes símbolos de fascínio e aventura, se torna ambígua, misturando admiração, medo e confusão diante da destruição que representam. Spielberg filma Jim frequentemente em planos abertos, destacando sua pequenez diante da vastidão do mundo e de um sistema que não mais o privilegia. Em contraste, a fotografia de Allen Daviau investe em closes precisos, captando microexpressões que revelam o impacto silencioso de cada nova experiência. O uso recorrente de luz natural amplia a sensação de realismo e transforma paisagens e cenários em testemunhas indiferentes da guerra, reforçando a dimensão épica e, ao mesmo tempo, profundamente íntima do filme.

Amplamente elogiado após seu lançamento, “Império do Sol“ recebeu seis indicações ao Oscar e projetou Christian Bale internacionalmente. Ainda assim, o filme permaneceu por muito tempo adormecido na memória do grande público, talvez por ocupar um lugar atípico dentro da filmografia de Spielberg: menos sentimental, mais ambíguo e desconfortável. Redescoberto graças ao streaming, o longa retorna aos holofotes para reivindicar seu valor como uma das representações mais complexas da infância em tempos de guerra.

Filme:
Império do Sol

Diretor:

Steven Spielberg

Ano:
1989

Gênero:
Biografia/Coming-of-age/Drama/Guerra

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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