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Da mitologia de Alan Moore ao cinema, novo clássico do terror com Keanu Reeves está na HBO Max

Da mitologia de Alan Moore ao cinema, novo clássico do terror com Keanu Reeves está na HBO Max

“Constantine” parte de uma premissa simples e incômoda: o mundo é um território em disputa permanente entre forças que pouco se importam com o destino humano. Essa ideia, longe de ser apenas decorativa, organiza toda a narrativa do filme dirigido por Francis Lawrence e define o tom desencantado que o atravessa do início ao fim. Não há promessa de redenção fácil nem conforto espiritual. O que se vê é um universo regido por regras rígidas, quase burocráticas, onde o livre-arbítrio existe, mas cobra um preço alto de quem ousa exercê-lo.

O protagonista John Constantine, interpretado por Keanu Reeves, é apresentado como um exorcista que transita entre o mundo dos vivos e o inferno após uma experiência de quase morte na juventude. Marcado por um câncer terminal e pela certeza de uma condenação iminente, ele não age por altruísmo, mas por cálculo moral: salvar almas como tentativa tardia de negociar seu próprio destino. Reeves constrói um personagem contido, de gestos econômicos e fala seca, que se alinha a essa lógica pragmática. A aparente monotonia vocal não compromete a função dramática do personagem, que depende mais da postura corporal e do olhar cansado do que de explosões emocionais.

Investigação, culpa e racionalidade

A entrada de Angela Dodson, vivida por Rachel Weisz, introduz o eixo investigativo do enredo. A policial busca respostas para o suicídio da irmã gêmea Isabel, também interpretada por Weisz, e se recusa a aceitar explicações sobrenaturais. Essa resistência inicial não serve apenas como contraste narrativo, mas como ponto de ancoragem racional para o espectador. A trajetória de Angela é menos sobre fé e mais sobre coerência: compreender um sistema que opera à margem das leis humanas. A relação com Constantine se estabelece por necessidade mútua, não por afinidade, e essa dinâmica evita romantizações desnecessárias.

Anjos, demônios e hierarquia

À medida que a investigação avança, o filme explicita sua visão hierárquica do bem e do mal. Gabriel, interpretado por Tilda Swinton, surge como uma figura ambígua, distante da imagem tradicional do anjo benevolente. Sua atuação aposta na frieza e na ausência de empatia, sugerindo que a crueldade pode coexistir com a ideia de ordem divina. Em oposição, Balthazar, vivido por Gavin Rossdale, representa o caos violento e direto, funcionando como executor de interesses maiores. O confronto entre essas entidades revela que a disputa central não é moral, mas estratégica.

Lúcifer e o sentido do conflito

O ponto de inflexão ocorre com a aparição de Lúcifer, interpretado por Peter Stormare. Em poucos minutos, o personagem redefine o tom do desfecho. Sua presença não se apoia na grandiloquência, mas em um sarcasmo controlado e em uma compreensão absoluta das regras do jogo. Lúcifer não precisa ameaçar; ele observa, negocia e interfere apenas quando lhe convém. Esse encontro final esclarece o tema central do filme: a salvação, quando existe, nasce menos da fé do que da escolha consciente diante da própria ruína.

Estrutura, ritmo e legado

Narrativamente, “Constantine” sofre com um ritmo irregular e demora a explicitar seus objetivos centrais. Ainda assim, mantém coesão ao articular investigação policial, mitologia religiosa e drama existencial em um mesmo eixo. O uso de efeitos práticos e digitais sustenta o universo proposto sem transformar o espetáculo em distração vazia. O resultado é um filme que não busca agradar amplamente, mas sustentar uma visão de mundo consistente, na qual o ser humano é responsável por suas decisões, mesmo quando cercado por forças que operam muito acima dele.

Filme:
Constantine

Diretor:

Francis Lawrence

Ano:
2005

Gênero:
Ação/Fantasia/Mistério/Suspense/Terror

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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