Nem todo crescimento aparece nos números oficiais. Em 2025, a Flórida vive um momento de tensão silenciosa. Políticas migratórias mais duras, mudanças na percepção internacional do destino e um turista mais cauteloso ajudam a explicar um cenário em transformação. O visitante continua viajando, mas viaja diferente. Ainda assim, ou justamente por isso, há uma engrenagem que não pode falhar. Quando o inesperado acontece, é ela que também sustenta o destino. A saúde.
Pensando nisso, conversei com Amanda Maggard, CEO do AdventHealth Celebration, hospital que se prepara para a maior expansão de sua história com a construção de uma nova torre, prevista para abrir em 2027. A expansão revela como a saúde deixou de ser bastidor e passou a ocupar papel estratégico no ecossistema turístico da Flórida.
Amanda tem quase 20 anos de carreira no sistema AdventHealth. É formada em jornalismo e marketing, tem MBA, é Fellow do American College of Healthcare Executives e foi reconhecida como uma das “Rising Stars Under 40” pela Becker’s Healthcare. Não assumiu Celebration por acaso. Traz um histórico sólido de gestão, foco em cultura organizacional e experiência do paciente.
“Quando abrirmos a nova torre, teremos capacidade para ampliar especialidades como cirurgia cardíaca e neurocirurgia, garantindo que residentes e visitantes tenham acesso a cuidados avançados”, explicou. Em outras palavras, a expansão não responde apenas ao crescimento demográfico. Ela responde também ao turismo.
Celebration, aquela cidadezinha que nasceu do universo Disney, está hoje no centro de um dos corredores turísticos mais intensos do mundo. Hotéis, parques, condomínios e centros de convenções concentram um fluxo contínuo de visitantes, muitos deles brasileiros. O AdventHealth conhece esse movimento de perto e estruturou sua rede justamente para responder com rapidez.
Para dar conta desse fluxo, a rede médica posicionou unidades estratégicas como Millenia, Palm Parkway, Flamingo Crossings Town Center e, em breve, Sand Lake ER, que será o pronto-atendimento mais próximo do mais novo parque da Universal, o Epic Universe. Além disso, criou o Care Concierge, que virou praticamente um “Waze da saúde” para turistas. O serviço orienta onde buscar atendimento, oferece consultas virtuais 24 horas, tem suporte em português e ajuda na navegação do seguro.
Um dado chama atenção. Segundo Amanda, mais de 1.500 brasileiros passaram pelas emergências do AdventHealth do ano passado para cá. Não é apenas um número estatístico. Ele revela uma realidade que o trade ainda trata de forma tímida. Segurança em saúde é, sim, argumento de venda.
Há um ponto que raramente entra na conversa, mas define a experiência do viajante. O custo real da saúde nos Estados Unidos, país que tem o sistema mais caro do mundo. Uma ida ao pronto-socorro pode custar milhares de dólares. Um único dia de internação hospitalar ultrapassa facilmente os US$ 8 mil. Em casos mais complexos, cirurgias de emergência chegam a valores de seis dígitos.
Acompanhei de perto casos de famílias brasileiras que vieram à Flórida para férias e acabaram passando meses em hospitais americanos, com despesas médicas superiores a US$ 50 mil. Não foram exceções. Foram situações absolutamente compatíveis com o funcionamento do sistema.
O problema, quase sempre, não é a falta de atendimento. Emergências são atendidas. O ponto crítico está no subseguro, em coberturas insuficientes, limites irreais e na crença de que “qualquer coisa a gente resolve depois”. Resolve, sim. Mas a conta chega. Rápida, alta e em dólar.
Hospitais como o AdventHealth Celebration veem, com frequência, famílias que precisam prolongar a estadia nos Estados Unidos por impossibilidade de repatriação médica, entram em negociações complexas com seguradoras e enfrentam um estresse que poderia ser evitado com informação adequada antes da viagem. Para o trade, o recado é claro. Seguro-saúde não é acessório. É parte da experiência.
E se para quem está na Flórida a lazer a saúde já é um fator decisivo, imagine para quem vem ao estado exatamente por conta dela. Quando perguntei a Amanda se ela enxerga Orlando como um polo de turismo médico, a resposta veio direta. “Absolutamente.” A AdventHealth reúne especialidades avançadas, recebe pacientes internacionais e realiza mais de cinco milhões de atendimentos por ano, incluindo cirurgia robótica, oncologia de ponta e programas executivos de saúde com avaliações completas em apenas um dia. Somado ao apelo turístico da região, esse volume de expertise coloca Orlando em um patamar semelhante a destinos tradicionais de turismo médico, como Houston e Cleveland, com uma diferença essencial. Aqui, o paciente já está no destino.
Desde 2021, o AdventHealth é o provedor oficial de saúde do Walt Disney World Resort. Essa parceria não é apenas simbólica. Ela traduz, na prática, o que o turista valoriza. Acesso rápido a atendimento, suporte no idioma, consultas virtuais, transporte e entrega de medicamentos no próprio resort. Saúde integrada à experiência, não apenas acionada na emergência.
Amanda foi objetiva ao falar sobre o papel do trade. Orlando tem uma das redes hospitalares mais modernas dos Estados Unidos. Há pronto-atendimento próximo a todos os parques. O AdventHealth aceita seguros viagem e orienta quem chega sem cobertura adequada. Tradução é padrão. E o turista não fica desamparado. Isso precisa estar na conversa de venda. Não apenas no momento da crise.
Mesmo sem jogos em Orlando, a Copa do Mundo de 2026 vai pressionar infraestrutura e serviços, inclusive de saúde, com a circulação de seleções, equipes técnicas, imprensa e visitantes. O AdventHealth já se prepara para esse cenário, ampliando sua cobertura nos principais corredores turísticos. Megaeventos movimentam hotelaria, aéreo, parques e também saúde. Quando essa engrenagem funciona, ela vira vantagem competitiva.
A Flórida vive um momento de ajuste. E à medida que o estado se prepara para receber novos parques, novos resorts, mais brasileiros e mais eventos globais, a saúde se consolida como um dos pilares da confiança no destino.
No fim da entrevista, fiz uma pergunta simples. “Amanda, você conhece o Brasil? Pretende visitar algum dia?” Ela respondeu que sim. Que o Brasil está nos planos da família. Que os filhos estão na idade perfeita para criar memórias. E que queria dicas para montar o dream itinerary.
Se tem algo que o trade brasileiro sabe fazer, é montar itinerário dos sonhos. A CEO de um dos principais hospitais da Flórida, que atende milhares de brasileiros todos os anos, está pedindo sugestões de viagem para o Brasil. É quase simbólico.
Enquanto brasileiros vêm à Flórida em busca de diversão, saúde e segurança, líderes como Amanda Maggard demonstram curiosidade genuína pelo Brasil e pelo nosso potencial turístico. A gente não vende só destino. A gente vende confiança.
E confiança, hoje, começa e termina na saúde.

