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Remake de Akira Kurosawa com Bill Nighy entrega uma das histórias mais tocantes disponíveis na Netflix

Remake de Akira Kurosawa com Bill Nighy entrega uma das histórias mais tocantes disponíveis na Netflix

O primeiro impacto de “Viver” não vem de sua ambientação precisa ou da elegância das imagens, mas da maneira como o silêncio parece vigiar os personagens, como se cada gesto estivesse sendo avaliado por uma consciência coletiva que atravessa a Londres do pós-guerra. Desde a primeira aparição de Williams, interpretado por Bill Nighy, percebe-se que ele já vive num estado de suspensão, cumprindo cada dia como extensão do anterior, sem qualquer urgência que não a da etiqueta social. É um homem que se adapta tão perfeitamente às regras que deixa de perceber quando elas passaram a substituí-lo. O escritório onde chefia uma pequena equipe de funcionários exemplifica essa inércia: papéis circulam, solicitações se acumulam e nada realmente avança, como se todos estivessem hipnotizados por uma burocracia que se alimenta de si mesma.

A irrupção do diagnóstico de doença terminal funciona menos como revelação e mais como fricção. Não há súbito despertar espiritual, apenas a constatação de que o tempo, antes ignorado, agora o observa de perto. A tentativa inicial de aproveitar a vida em bares e locais turísticos, ao lado de Sutherland, vivido por Tom Burke, soa quase cômica, e talvez por isso mais dolorosa. Williams tenta imitar uma liberdade que nunca aprendeu a experimentar. A troca de seu tradicional chapéu-coco por um fedora sintetiza essa dissonância: um objeto banal transformado em símbolo involuntário de um homem que busca um caminho sem saber sequer nomeá-lo.

O encontro com Miss Harris, interpretada por Aimee Lou Wood, reorganiza essa busca. Não há romance possível ali, mas existe algo mais difícil de explicar: o fascínio pela vitalidade corriqueira da jovem, seu modo direto de existir, sua energia que não pede licença a ninguém. Ao segui-la por cafés, ruas e almoços discretos, Williams observa o que nunca permitiu a si mesmo. Ele percebe que sempre viveu dentro de uma redoma de autocontrole, confundindo compostura com substância. A curiosidade dele por Miss Harris não envolve desejo; envolve reconhecimento tardio de que a vida poderia ter sido outra.

Quando ela aceita outro emprego, desfaz-se a ilusão de que Williams poderia recuperar o tempo perdido repetindo a juventude de alguém. É nesse momento que ele, finalmente, percebe onde ainda pode atuar: na transformação de algo concreto. O projeto das mães que pedem um parque para seus filhos, arrastado por anos em mesas e carimbos, ganha novo contorno. Williams decide movimentar engrenagens que sempre tratou como imutáveis. O modo como ele insiste, persuade, incomoda e insiste de novo revela um tipo de coragem que nunca teve espaço para se manifestar. Não é um heroísmo grandioso, mas uma rebeldia tardia, silenciosa, que reorganiza a lógica interna do departamento inteiro.

A beleza do filme está justamente em não dramatizar excessos. A proximidade da morte não o transforma num sábio iluminado. Ele continua contido, delicado, metódico. A mudança ocorre nas frestas, conversas curtas, gestos cuidadosos, pequenas decisões que interrompem a rotina da máquina burocrática. A equipe, incluindo o jovem Mr. Wakeling, vivido por Alex Sharp, passa a enxergá-lo sob outra luz, como alguém que finalmente escolhe agir em vez de administrar procedimentos.

A narrativa ganha força ao evitar sentimentalismos e julgamentos fáceis. A música, a paleta e o ritmo constroem um clima de contemplação inquieta, como se a própria cidade tentasse compreender aquele homem que sempre esteve presente, mas nunca realmente vivo. Quando o parque fica pronto, o filme não trata isso como um final glorioso, e sim como a concretização de um gesto que só existe porque Williams descobriu, tarde demais, que a vida podia ser mais espessa do que a polidez permanente. Em sua simplicidade, esse ato ressoa como pergunta: diante da inevitável finitude, o que fazemos com os dias que ainda nos pertencem?

Filme:
Viver

Diretor:

Oliver Hermanus

Ano:
2022

Gênero:
Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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