*Por Marina Figueiredo, presidente executiva da Braztoa
Quando o clima aperta, o turismo precisa respirar futuro. E não, você não leu errado, é futuro mesmo. Porque, diante da crise climática, o nosso setor não pode se limitar a “respirar fundo”, precisamos buscar novos caminhos, novas perspectivas, inovação e ação concreta.
E é nessa direção que trago, neste texto, algumas reflexões pós-COP30. Afinal, por que a conferência importa para o nosso setor? O que o turismo leva (ou deveria levar) de Belém? O que ficou nas expectativas, o que virou entrega, e o que simplesmente passou sem avançar? Minha proposta aqui é conversar com vocês sobre uma agenda climática que o turismo não pode mais ignorar e adiar.
Nos últimos anos, falar de clima deixou de ser um assunto distante para se tornar parte do nosso dia a dia no turismo. Afinal, os impactos da crise climática também têm se tornado parte da rotina e dos desafios constantes do nosso setor, basta olhar para os eventos extremos mais recentes e para a forma como destinos, comunidades e operações têm sido afetados. E, se fizermos um exercício honesto de olhar para cenários futuros, fica claro que este é um tema contínuo, urgente e indispensável para garantir o futuro da nossa atividade.
Diante disso, a COP30, realizada em Belém, tem muito a ver com o turismo. E isso vai muito além das discussões paralelas que acabaram capturando o debate público e desviando o foco do que também precisava estar presente nas conversas. Mas, antes de falar da experiência em Belém, vale um passo atrás: o que é, afinal, uma COP? E por que ela importa para o nosso setor?
A COP, sigla para “Conferência das Partes”, é o principal encontro global sobre clima. É o órgão máximo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) e reúne, anualmente, os países signatários para debater e negociar medidas para enfrentar a crise climática e seus efeitos. Foi nas COPs que nasceram acordos como o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris, documentos que “moldam” políticas climáticas nacionais, o financiamento internacional e as prioridades globais de adaptação e mitigação.
E é fundamental destacar que o turismo está diretamente conectado a esse debate. Ao mesmo tempo que somos um dos setores mais vulneráveis aos impactos da crise climática — calor extremo, erosão costeira, perda de biodiversidade, eventos extremos, escassez hídrica, impactos à infraestrutura — desafios que já fazem parte do nosso dia a dia e impactam nossa atividade de forma direta, somos também parte do problema, porque a emissão é inerente à nossa atividade, especialmente quando falamos de deslocamento. Nosso setor responde por aproximadamente 8,8% das emissões globais de gases de efeito estufa. Mas existe um terceiro ponto que precisa ser destacado: o turismo tem enorme potencial de ser parte da solução. Somos um setor transversal, capilar e profundamente conectado a territórios, comunidades, natureza e cultura, e por isso temos condições reais de influenciar cadeias, apoiar transições, fortalecer resiliência, estimular modelos de desenvolvimento mais equilibrados e REGENERAR!
E como chegamos à COP30?
Estive em Belém de 17 a 21 de novembro e pude acompanhar de perto a dinâmica da conferência. O mais significativo, porém, não foi apenas marcar presença, mas perceber que ainda há um longo caminho para que o turismo seja visto, oficialmente, como parte estruturante das negociações climáticas.
Vale, antes, destacar que a COP29, realizada no ano passado em Baku, foi simbólica. Pela primeira vez, o turismo ganhou um dia inteiro na programação oficial da conferência, e mais de 50 países assinaram a Declaração de Baku para o Fortalecimento das Ações Climáticas em Turismo. Esse compromisso reforça a necessidade de integrar o turismo às NDCs (os planos climáticos nacionais) e fomentar ações concretas de descarbonização, adaptação e responsabilidade socioambiental. O Brasil está entre os signatários, o que coloca o tema no horizonte das nossas políticas e prioridades.
Assim, chegamos a esta edição da COP30 em Belém, com o turismo oficialmente inserido na agenda climática global, com alguns compromissos já firmados em diferentes edições das Conferências (de Paris, Glasgow, a Baku) e com uma urgência que nunca foi tão evidente e gritante. Os impactos climáticos se intensificaram, a pressão por respostas concretas aumentou e o papel do turismo nessa equação se tornou impossível de ignorar.
Também chegamos com uma janela única para o Brasil, com a oportunidade singular de protagonismo ao sediar uma COP em plena Amazônia, uma região que concentra não apenas desafios ambientais imensos, mas também oportunidades extraordinárias de inovação, regeneração e novos modelos de desenvolvimento.
É verdade que, ao longo dessa trajetória, perdemos (muitas) oportunidades. Não aproveitamos, nem de longe, todo o potencial estratégico de sediar o evento, não avançamos no ritmo que poderíamos, e muitas vezes ficamos mais na borda do debate do que no centro dele. Mas, ainda assim, chegamos a Belém com algo muito valioso: a chance real de reposicionar o turismo, de assumir compromisso, de dialogar como outros setores já fazem e de transformar intenções em caminhos concretos.
A COP30 nos coloca diante de um momento que não pode ser desperdiçado, além do que já foi. Temos ainda um momento de alinhar discursos, práticas e ambições para que o turismo deixe de ser espectador e assuma, de fato, seu lugar como parte da solução. E, para isso, é fundamental que tudo não termine junto com a COP que se encerrou na semana passada.
Grandes conferências inspiram, provocam e abrem caminhos, mas não transformam a realidade sozinhas. O impacto real acontece depois, no “dia seguinte”, quando governos, empresas, destinos e pessoas precisam voltar para seus territórios e colocar em prática aquilo que foi falado e discutido. É aí que mora o nosso maior desafio — e também a grande oportunidade — de não deixar que a energia da COP se dissolva, não permitir que o tema volte para a gaveta, não cair na armadilha de achar que a realização ou participação em si, ou a assinatura de algum compromisso, já seja suficiente.
Embora o turismo não tenha sido mencionado como tópico formal nas decisões oficiais da COP30 até esse momento, o setor esteve presente. Houve o estande “Conheça o Brasil”, do Ministério do Turismo, na Green Zone, que recebeu uma programação diversa de painéis. Tivemos também dois dias dedicados ao turismo na agenda liderada pela ONU Turismo Brasil (embora o segundo, no dia 21, não tenha ocorrido devido ao incêndio que interrompeu as atividades na Blue Zone).
Sim, “ocupamos espaço”, mas agora precisamos transformar essa presença em influência, articulação e propostas concretas.
Porque, no fim das contas, o desafio é justamente este: como sair das declarações, compromissos amplos e discursos inspiradores para aproximar essa agenda de quem faz turismo no dia a dia? Como transformar pactos internacionais em práticas reais nos destinos, nas empresas, nas comunidades e nos ecossistemas que sustentam a nossa atividade? Como posicionar o turismo como parte da solução?
É isso que vai definir se o turismo será parte da solução ou uma vítima do próprio atraso e da inércia diante da crise e dos modelos atuais desalinhados às necessidades do momento atual e do futuro.
Nosso setor sempre foi uma força extraordinária de conexão entre pessoas e lugares, e um motor econômico poderoso. Agora, precisa ser também um elo de reconexão com o planeta e de regeneração dos territórios que o sustentam.
A COP30 reforçou que o turismo brasileiro tem uma oportunidade enorme de protagonismo. Mas nenhuma COP, nenhuma declaração e nenhuma assinatura substitui aquilo que realmente importa: agir.
Agir com responsabilidade, com coerência, com pragmatismo.
Agir indo além do “pensar” e do “falar”.
Agir de maneira capaz de gerar impactos reais, e não apenas narrativas.
Esse é o olhar prático, honesto e orientado para soluções que precisamos, juntos, exercitar. Porque o futuro do turismo depende, cada vez mais, da nossa capacidade de transformar intenções em ações.

