Nordeste Magazine
Cultura

A comédia romântica clichê, na Netflix, que é impossível de não gostar

A comédia romântica clichê, na Netflix, que é impossível de não gostar

“Hitch — O Conselheiro Amoroso” é um exemplo emblemático de comédia romântica que, mesmo sem reinventar o gênero, compreende perfeitamente as regras do jogo. Andy Tennant dirige uma narrativa que se apoia em uma estrutura clássica: o especialista em sedução que domina todas as técnicas, mas fracassa diante da própria vulnerabilidade. O mérito do filme está menos na história em si, um roteiro construído sobre fórmulas seguras, e mais na maneira como lida com a performance carismática de Will Smith, que transforma um arquétipo em figura de humanidade tangível.

Alex “Hitch” Hitchens é o “doutor dos encontros”, um homem que ganha a vida ensinando outros homens a conquistar mulheres. O conceito em si carrega um cinismo evidente, o amor reduzido a método, o afeto transformado em mercadoria, mas o filme evita mergulhar nesse lado mais incômodo. Em vez disso, opta por uma moral ligeiramente otimista: a de que até o manipulador profissional é, em última instância, refém da própria emoção. Essa escolha revela tanto as limitações quanto as virtudes da direção de Tennant. Há uma recusa deliberada do risco; tudo é construído para soar confortável, desde a fotografia ensolarada de Nova York até o ritmo musical do roteiro, que mantém o público num estado de leve e constante satisfação.

Ainda assim, “Hitch” funciona. Funciona porque há ritmo, timing e um equilíbrio raro entre comédia física e afeto genuíno. Kevin James, como o desajeitado Albert, é o contraponto perfeito ao protagonista, seu humor é ingênuo, quase pueril, e expõe o contraste entre a técnica e a autenticidade. O filme ganha força justamente quando abandona a lógica do manual e se permite um breve momento de descontrole emocional. A química entre Smith e Eva Mendes não é incendiária, mas é suficientemente honesta para sustentar a premissa central: o amor não é uma ciência exata, e toda tentativa de domá-lo resulta em comédia.

O problema está no terceiro ato, quando o roteiro, temeroso de se afastar demais da convenção, cede ao velho ciclo de mal-entendidos e reconciliações. Nesse ponto, o filme trai a própria lucidez inicial. O que era uma sátira sobre as máscaras sociais do namoro transforma-se em moralidade previsível, como se o estúdio precisasse garantir que ninguém saísse do cinema sem a lição aprendida. A quebra de coerência não destrói o conjunto, mas o torna menos memorável do que poderia ser.

“Hitch” não é um filme revolucionário, tampouco pretende ser. Sua honestidade é, de certo modo, sua virtude: ele entrega o que promete e o faz com habilidade. No fundo, há algo filosófico em sua simplicidade, a constatação de que o amor, quando racionalizado, se torna ridículo, mas que a tentativa de entendê-lo é, paradoxalmente, o que nos torna humanos. Entre a previsibilidade e o encanto, o filme se mantém num território curioso: o da leveza pensada, onde o entretenimento não ofende a inteligência e o riso não exclui a reflexão.

Filme:
Hitch — O Conselheiro Amoroso

Diretor:

Andy Tennant

Ano:
2005

Gênero:
Comédia/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Veja também

Elton John perde a paciência após pedidos do príncipe Harry por dinheiro: “Não sou caixa eletrônico”

Redação

Mostra “Olhares Afogadenses” leva ao Cinema São Luiz produções do Sertão do Pajeú

Redação

“Dia D” poderá ser assistido em casa ainda este mês

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.