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Obra-prima desconcertante de Steven Spielberg chegou silenciosamente à Netflix e você não percebeu

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Se há uma data precisa para se definir o uso da palavra “terrorismo”, essa data é 5 de setembro de 1972. Ninguém poderia saber, claro, mas esse era o dia em que o Setembro Negro, um grupo de guerrilheiros árabes pela causa palestina, invadiria o dormitório dos atletas israelenses em pleno curso da vigésima edição dos Jogos Olímpicos modernos, evento que até então ninguém sabia como classificar. A massificação do termo é uma gota d’água no oceano de detalhes tétricos expostos por Steven Spielberg em “Munique”, perfeita reconstituição do fato mais estarrecedor daquele ano, quiçá o mais simbólico no que toca ao ingresso na caótica ordem mundial do século 20, e sem dúvida o mais chocante desde o fim da Segunda Guerra (1939-1945), com seu monstruoso Holocausto. Spielberg, o judeu mais bem-sucedido e engajado da indústria cultural, compra briga com israelenses e palestinos ao denunciar o farisaísmo dos dois grupos, representados por políticos vaidosos e aproveitadores.

Avner Kaufman permanece como o centro do filme por boa parte dos 164 minutos, mas antes o roteiro de Tony Kushner, baseado em “Vingança” (1984), do húngaro-canadense George Jonas (1935-2016), recompõe o imenso mosaico que leva ao sequestro e à execução de onze atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, a capital da Bavária. Os sicários acessaram a vila olímpica e assassinaram David Mark Berger (1944-1972) e Yossef Romano (1940-1972), dois levantadores de peso da delegação de Israel, e mais nove reféns no aeroporto, mas a ABC chegou a noticiar que estavam todos vivos — o episódio lembra o que o brasileiro José Padilha relata em “7 Dias em Entebbe” (2018), sobre paramilitares que mantiveram cativos passageiros judeus, forçando a negociação da liberdade de terroristas palestinos. Como se vê, o terrorismo ia se tornando um método de reivindicação política mais e mais ousado e truculento, movendo-se em torno de homens dispostos a derramar sangue pela causa que creem justa. O assunto é tão sério que a primeira-ministra Golda Meir (1898-1978) convoca um gabinete de crise, manda que seus subordinados esqueçam a paz e nomeia um esquadrão de vingadores. Kaufman, que na verdade chama-se Yuval Aviv, entra aí.

Ao criar uma atmosfera de paranoia constante, Spielberg leva “Munique” para ao andamento de um thriller encorpado, que desdobra-se nos preparativos de Kaufman antes de assumir a missão mais importante de sua carreira e as muitas adversidades que se lhe vão impondo. Ele fora guarda-costas de Meir há dois anos, mas agora é um homem casado, a esposa está prestes a dar à luz e o fato de não saber quase nada acerca da operação e não ser autorizado a reportar-se ao alto comando da Tzahal, as Forças de Defesa de Israel, é um fator a mais de tensão. Seu interlocutor mais frequente é Ephraim, o burocrata que libera o dinheiro com o qual vai se manter na Europa e que aconselha o uso de explosivos, embora nunca seja bom matar velhinhas e crianças em shoppings e parques. Eric Bana e Geoffrey Rush ancoram esses momentos quase engraçados, até que a história mostra os planos para as emboscadas, abrindo-se para a participação de Robert, Carl, Steve e Hans, vividos por Mathieu Kassovitz, Ciaran Hinds, Daniel Craig e Hanns Zischler.

As ações de Kaufman e seus companheiros são quase sempre desleais, sujas, caóticas e falhas também muitas vezes, mas eles não têm outra alternativa. O alerta de Spielberg toca ao despropósito essencial dos embates israelo-palestinos, povos irmãos forçados a se odiar, sem atrever-se a esboçar uma solução para o conflito. O cinema trabalha com fatos históricos, mas não pode arvorar-se em dono da verdade. “Munique” deixa essa impressão.

Filme:
Munique

Diretor:

Steven Spielberg

Ano:
2005

Gênero:
Ação/Thriller

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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