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28 prêmios: o melhor filme de Viola Davis estreia na Netflix

28 prêmios: o melhor filme de Viola Davis estreia na Netflix

“Filmes com atrizes no papel principal seriam filmes de mulheres?” A pergunta, repetida como senha de pouca imaginação, cai por terra nos primeiros minutos. Gina Prince-Bythewood não oferece uma tese; oferece um mundo. Quando Nanisca (Viola Davis) surge da escuridão e corta o círculo de soldados que descansam ao redor da fogueira, a direção anuncia uma ética: a ação vai nascer da personagem e não o contrário. Não há histeria de câmera, não há exibicionismo coreográfico. O espaço é claro, os movimentos têm lógica, a violência, quando chega, tem consequência. O que se impõe é a disciplina daquelas mulheres — a capacidade de se escutarem, de respirarem juntas, de sustentarem uma linha em meio ao tumulto. Não é espetáculo pelo espetáculo, é ordem moral.

O roteiro, assinado por Dana Stevens a partir de uma história de Maria Bello, ergue-se sobre material histórico sem posar de tratado. O Daomé existe ali como reino que tenta sobreviver em terreno instável, com alianças frágeis, comércio que envenena, fronteiras em constante tensão. Há um risco sempre à espreita de romantização, e o filme o conhece. O tráfico atlântico não vira rodapé; entra em cena como fratura que atravessa a relação entre Nanisca e Ghezo (John Boyega), rei cuja sedução política beira o pragmatismo mais duro. Prince-Bythewood assume o impasse e coloca suas personagens diante dele, sem sair pela porta fácil do absolvido. É o tipo de decisão que desloca a narrativa do conforto.

Nawi (Thuso Mbedu) é o nervo que conduz essa passagem do épico para o íntimo. A jovem entregue ao rei como presente e que escolhe a fileira de Nanisca não é a heroína de manual, e ainda bem. Mbedu molda inquietação sem insolência vazia; sua rebeldia nasce de uma inteligência que rejeita a humilhação como método e procura a dignidade como prática cotidiana. Ao lado dela, Izogie (Lashana Lynch) impõe uma presença que mistura riso, ferocidade e uma ternura discreta — o filme entende que a pedagogia de uma guerreira não cabe em grito. Amenza (Sheila Atim) sustenta a dimensão ritual com sobriedade rara. E Boyega, de quem se esperaria excessos, encontra um registro mais contido, quase dançante, para um rei que calcula o tabuleiro ao mesmo tempo que responde à música do povo.

A força de “A Mulher Rei” está no modo como integra esses corpos. Há luz que respeita pele, há enquadramentos que protegem a dignidade dos rostos, há uma direção de arte que transforma o Planalto de Abomé em personagem — não tanto pela grandiloquência de paisagens, mas pela relação entre arquitetura e ritual, tecido e gesto, arma e canto. A montagem privilegia a legibilidade; em vez de triturar o combate, permite que a coreografia comunique a estratégia, o erro, a dor. O som, cheio de respirações e tambores, recusa o adereço: é argumento. Tudo parece servir a uma ideia que o filme burila com paciência: comunidade não é camaradagem afetuosa, é pacto. Ninguém fica porque sim; fica porque deve e deseja.

É impossível falar da obra sem deter-se na composição de Viola Davis. Há nela uma economia que corrige décadas de estereótipos. Nanisca não grita para provar força; impõe contorno, pede precisão, admite cansaço. Em vários momentos, a câmera demora no olhar que mede a sala e decide a palavra mais curta. Esse modo de organizar o espaço vale mais que proclamação. Quando chega a hora em que o passado a alcança — e o filme insiste que ele sempre alcança —, Davis transforma ferida em motor narrativo, não em espetáculo. A diretora confia nessa contenção e, por isso mesmo, consegue um resultado raro: a catarse não nasce da vingança, nasce do reconhecimento de um limite e de uma responsabilidade.

O romance de Nawi com Malik (Jordan Bolger) poderia parecer desvio. Não é, quando lido no registro em que o filme o posiciona: dois jovens atravessados pela diáspora, cada qual com um mapa quebrado, que tentam negociar um futuro possível dentro de uma máquina histórica que os ultrapassa. Não há floreio; há escuta. Ainda assim, é possível desejar menos tempo para a equação sentimental e mais tempo para as dinâmicas internas das Agojie — o treinamento, por exemplo, guarda momentos de descoberta que mereciam respiro maior. São escolhas, e o saldo pesa a favor.

Prince-Bythewood mantém a coerência de sua filmografia: mulheres em situação-limite que recusam o papel de alegoria, preferem o de pessoa. De “Beyond the Lights” a “The Old Guard”, há um fio de preocupação com a autonomia feminina, sempre tratado pela via da ação concreta e não pela citação de cartilha. Aqui, esse fio se torna corda grossa e puxa o filme para fora do panfleto. O discurso mais forte é sempre o gesto — a mão que toca a cabeça raspada de uma novata, a maneira de distribuir o peso de uma lança, o riso que interrompe a solenidade para lembrar que o corpo que luta é o mesmo que dorme, come, canta, deseja.

Há ainda a opção consciente de não fetichizar a violência. O sangue existe, mas o filme prefere a sugestão a uma anatomia do choque. Não é recuo; é recusa do sadismo como entretenimento. Essa ética se alinha à política que a narrativa propõe: ganhar sem perder o rosto. O clímax ganha em potência justamente porque o espetáculo foi preservado para quando significasse alguma coisa além de fogos de artifício.

O conjunto técnico trabalha a serviço dessa proposta. A fotografia escolhe tons quentes sem cair no exótico; o figurino apresenta beleza sem carnavalizar; a trilha evita o pastiche e arma percussões que acompanham a respiração da cena. Mais do que somar virtudes, o filme acerta na cola. A unidade estética dá a impressão de que nenhum departamento precisou exibir currículo; todos entenderam o que se conta.

Talvez o mérito mais silencioso esteja na maneira como a obra conversa com o presente sem erguer placas. “A Mulher Rei” coloca mulheres negras no centro da imagem, dá a elas agência plena e, ao mesmo tempo, não as blinda da ambiguidade. Reconhece contradições, pergunta o que fazer com elas, deixa a pergunta reverberar. O efeito, para além do entretenimento adulto que entrega, é uma pequena correção na imaginação do público. Não é pouca coisa.

O debate extrafílmico — a exatidão dos eventos, a crítica à suavização de certos aspectos do Daomé — não deve ser descartado; o filme, no entanto, não joga para baixo do tapete. Ele incorpora a tensão à dramaturgia e, com isso, se torna discutível no melhor sentido: obra que aceita fricção de leitura, não peça de propaganda. Se a pergunta inicial sobre “filmes de mulher” ainda insistir em aparecer, a resposta, aqui, é simples e ampla. É cinema que interessa a quem se interessa por cinema. E por poder, responsabilidade, comunidade, amor — palavras desgastadas que, sob essa luz, reencontram precisão.

No fim, quando a poeira baixa e o tambor recua, fica a memória de um respiradouro. O épico, afinal, não mora na escala; mora na precisão do gesto. Viola Davis guarda essa precisão na mão; Gina Prince-Bythewood a desenha no quadro; o elenco inteiro a sustenta. “A Mulher Rei” não inventa um novo cinema, mas dá ao cinema um velho direito: o de ferir e cuidar na mesma cena. Sente-se o golpe; sente-se a mão que o trata. É nesse intervalo que o filme se faz necessário.

Filme:
A Mulher Rei

Diretor:

Gina Prince-Bythewood

Ano:
2022

Gênero:
Ação/Aventura

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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