A roseira no pátio de Porto Alegre continua exigente. É a metade dos anos 1990, quando o Brasil ainda tenta dizer AIDS sem baixar os olhos, antes de os coquetéis mudarem destinos, enquanto um rádio de pilha na cozinha anuncia frente fria e a chaleira suspira no fogão. Há um homem magro, os dedos manchados de terracota, inclinando-se para aparar um espinho, medir o sol e adiar a chuva; o plástico dos laudos estala, a etiqueta com o seu nome brilha por um instante no bolso do casaco, e o vento minuano roça a vidraça pedindo licença. Entre consultas e telefonemas, de médicos, amigos e editores, ele dita ternura e passa um pano macio no metal frio. O seu timbre percorre os cômodos com a paciência da água que encontra a boca da planta. A cidade sustenta um zumbido contínuo. No jardim, ele repete pequenas liturgias, colhe uma palavra, recusa outra, decide ficar quando tudo aconselha partir. O rosto se vê cansado, o humor vigia de perto, e o caderno fica ao alcance, sobre a mesa, pronto para guardar a lembrança que arde e a esperança que insiste. Pela janela entra um sopro de rua. Do canteiro sobe a tarefa de sempre, fazer desabrochar alguma coisa quando quase tudo parece murchar. Nessa tarde de vidro, Caio Fernando Abreu, autor de “Morangos Mofados”, se inclina sobre a terra e protege, com o próprio corpo, a última chama de um lar.
A vida começa em Santiago, no interior do Rio Grande do Sul, em 12 de setembro de 1948, numa tarde em que o silêncio aprendia a ouvir passos. A família se muda para Porto Alegre durante a adolescência, e a cidade grande abre as cortinas: salas de aula com cheiro de giz, cineclubes cheios de sussurros, redações que acordam cedo. O primeiro conto, “O príncipe sapo”, sai na revista “Cláudia” em 1966; e o romance “Limite Branco” chega às livrarias em 1970. Desde então, uma teimosia mansa sustenta páginas escritas entre empregos, viagens e quartos alugados, com o som das teclas marcando o compasso do fôlego. Nenhuma lenda dá conta de explicar tudo, mas alguns traços persistem: o gosto pela frase que leva mais do que exibe; a paciência do jardineiro que reescreve até que a música fique certa; a confiança de que o detalhe salva. O Brasil entra cedo na sua literatura como pressão, vigilância e febre, longe do cartão-postal.
É 1968, e o regime militar aperta o cerco. Em 13 de dezembro, o Ato Institucional nº 5 desliga luzes de palco, fecha portas de redação e aperta o peito das cidades; o nome de Caio aparece em fichas, e o DOPS, Departamento de Ordem Política e Social, troca o sussurro pelo carimbo com data e pasta parda. Ele encontra abrigo na Casa do Sol, em Campinas, onde Hilda Hilst oferece mais do que um teto, oferece uma mesa acesa. Há café forte, cadernos abertos, cachorros na varanda, a luz paulista atravessando as vidraças e uma conversa que pede verdade. A correspondência, que a crítica mapeou aos poucos, torna-se oficina prolongada: rascunhos vivos, confissões que tremem, dúvidas que viram degrau. No fim do dia, o papel guarda o que a boca não conseguiu dizer. Chegam os anos 1970 e o autoexílio europeu: Espanha, Suécia, Holanda, Inglaterra, França. São trabalhos de sobrevivência, quartos emprestados, filas de consulado, moedas frias na palma, um passaporte aquecido no bolso, talismã discreto. Nas noites longas, ele observa e anota o idioma novo, os casacos fechados, os dedos escondidos nos bolsos, o riso contido, e dessa travessia nascem contos que trocam a geografia sem perder a temperatura do coração, entre eles “London, London…” e “Paris não é uma festa”. Londres e Paris saem do mapa de papel e viram nomes próprios de uma solidão que aprende a manter o pulso. Ainda assim, a gentileza insiste: a chave que gira sem barulho, a sopa quente na cozinha alugada, a carta que atravessa o Atlântico e chega inteira.
O jornalismo foi sustento e também um laboratório de escuta. Ele atravessou as redações de “Pop”, “Gallery Around” e “Nova”; escreveu para “IstoÉ”, “Manchete” e “Pais & Filhos”; e, nos diários, assinou textos no “Correio do Povo” e na “Zero Hora”, além da “Folha de S.Paulo” e de “O Estado de S. Paulo”. Eram salas frias de ar-condicionado e luz fluorescente, cinzeiros cheios, laudas grampeadas, telefone de fio enrolado, o cheiro de gráfica e café passado. Havia o pauteiro apressado, o copidesque atento e o fechamento que mordia o relógio. Ele cumpria o expediente com competência e, quando a noite descia, levava para o quarto o murmúrio das conversas e os gestos dos anônimos que não caberam na matéria. Fica o registro do esforço de quem pagava as contas e, ao mesmo tempo, afiava a própria voz. A urgência do noticiário passava por um olhar que se demorava nos detalhes do cotidiano, a mão que acende um cigarro para o outro, a xícara esquecida no peitoril, e daí nascia a intimidade semanal que, entre 5 de abril de 1986 e dezembro de 1995, ele praticou no “Estadão”, na coluna “Pequenas epifanias”. Depois, viria a reunião póstuma “Pequenas Epifanias”, publicada pela Sulina em 1996. Era um lugar de confidências nítidas, sem exibicionismo. Ali, os leitores reconheciam a vida quando ela falava baixo.
Nos anos 1980, a sintonia fina encontra a sua frequência e o país puxa as cortinas e encara a claridade com as mãos trêmulas. Em 1982, “Morangos Mofados” capta a febre e a ressaca; em 1983, “Triângulo das Águas” aparece e, no ano seguinte, recebe o Jabuti de 1984; em 1988, “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso” chega às prateleiras e rende o Jabuti de 1989; em 1990, “Onde Andará Dulce Veiga?” conquista o prêmio da APCA em Ficção. Ao mesmo tempo, nas páginas de “O Estado de S. Paulo”, a coluna “Pequenas epifanias” afina, semana após semana, um timbre que não prega nem aponta o dedo, apenas se aproxima. As ruas mudam de humor, os comícios explodem em cartazes e vozes, e a literatura brasileira se alarga para caber mais vida. Caio ocupa o ponto onde a intimidade toca a cidade com delicadeza e precisão. Suas páginas se inscrevem na tradição queer do continente como prática de olhar e dizer que reconhece e acolhe.
Em 1994, quando a desinformação ainda pesava e a palavra AIDS cruzava salas em silêncio espesso, ele encurta a distância entre autor e leitor. Torna pública a sua sorologia em três textos, “Cartas para além dos muros”, publicados no “O Estado de S. Paulo”. Há firmeza, sem pose de heroísmo, e uma escolha nítida de cuidado. Ao escrever sobre o próprio corpo, ele lança uma ponte e oferece a quem o lia um respiro. Chegam telefonemas, cartas, bilhetes com cheiro de gaveta; o endereço se torna refúgio compartilhado. Pouco depois, ele volta de vez a Porto Alegre, cuida das plantas, escreve o que consegue, fala longamente com amigos e responde cada envelope segurando o outro do lado de lá da mesa.
É domingo, 25 de fevereiro de 1996, e a tarde de Porto Alegre desacelera. Ele está internado desde o começo do mês no Hospital Moinhos de Vento, em luta contra uma pneumonia teimosa. Aos 47 anos, o corpo enfrenta infecções que chegam em ondas, tal qual mar de inverno avançando sobre a areia. No quarto claro, há o som contínuo dos aparelhos, o cheiro limpo do desinfetante, a janela recorta um pedaço de céu. Os amigos telefonam, os pais aguardam no corredor, e a cidade para a qual ele voltara, com as suas roseiras, acompanha em silêncio. No início da tarde, o fim se aproxima sem discurso: complicações relacionadas à AIDS apagam o fôlego e deixam acesa a memória das páginas. No dia seguinte, as notas saem nos jornais, as redações recordam histórias e, em muitas casas, as “Cartas para além dos muros” voltam à mesa, lamparina para quem atravessa a noite. No velório, flores simples e abraços demorados. Nas semanas seguintes, universidades organizam mesas, leitores copiam trechos, e o país tenta nomear a falta.
Em 2025, a presença de Caio se reconhece no uso diário. Reimpressões chegam às prateleiras; clubes de leitura ocupam noites de quarta; o nome segue nos planos de curso; no arquivo da universidade, a consulta com luvas põe em circulação cartas, cadernos e datiloscritos, o grafite ainda ardendo no papel. A tradução inglesa de 2022 continua a trazer visitantes de fora, enquanto as edições brasileiras mantêm os volumes ao alcance da mão, sem peregrinação por sebos. O que legitima este agora é o gesto de leitura: sublinhar, partilhar, pensar junto prevenção, desejo e cuidado. Ele volta assim, na temperatura das conversas. Nas redes, estudantes, tradutores e artistas compartilham, recortam e sublinham trechos; em salas de aula e consultórios, os livros amparam conversas difíceis. Ali, pesquisadores e leitores por afeto encontram vestígios que acendem uma sala. O movimento é contínuo, silencioso e firme; a cada marca de lápis, um retorno.
Falar de amores e amizades pede um acordo: nada de violar o que foi dito ao pé do ouvido. Na Casa do Sol, as cartas para Hilda Hilst correm sobre uma mesa marcada de uso, xícara fumegante ao lado, cães passando pela varanda, a luz de Campinas atravessando as persianas. A confiança tem cheiro de papel seco e café. Ele arrisca quedas, celebra pequenas vitórias, pede ajuda sem pedir. “Numa Hora Assim Escura”, organizada por Paula Dip, devolve esse fio de respiração à luz pública e nos permite ouvir o que a página sussurra entre linhas. Entre os interlocutores íntimos, está o poeta e jornalista Nei Duclós: nos anos 1970, envelopes cruzam o país com vocativos que abrem guarda e mostram um Caio desalinhando a própria armadura, confessando dívidas, prazos, rascunhos, e encontrando, no mesmo gesto, o ânimo para continuar. Essas páginas revelam o ateliê da prosa, a tesoura no excesso, o adjetivo poupado, a esperança presa por um clipe. Na rotina fora do papel, uma engenharia de cuidado se sustenta sem alarde: editor que segura o prazo, colega que atende na madrugada, leitor jovem que chega com caldo e xerox, e depois volta para casa com o livro molhado de sublinhos. Quando frases apócrifas voltam a circular, a casa se recompõe e oferece o antídoto: a edição de “Cartas”, organizada por Ítalo Moriconi, e o volume de Paula Dip recolocam na mão do leitor a voz exata, com seus silêncios e respirações. É ali que a ternura adquire aresta, e se entende como uma lealdade sem verniz.
O que a sua prosa faz, com superfície clara e fundo profundo, é confiar que o detalhe guarda o abismo. Mesmo quando o texto fala baixo, existe um impulso lírico que dispensa holofote; a emoção chega inteira, com a testa encostada no vidro da janela para ver a chuva cair por dentro. Medo, desejo, espiritualidade terrena e humor que ri de si chegam como fôlego, sem se travestirem de tese. Em tantos contos, o homoerotismo atravessa o mundo narrado; a epidemia de HIV acontece no tempo vivido; a ditadura e o exílio pesam como ar denso sobre a pele dos personagens. Ele escreve recolhendo objetos depois de uma ventania e, ao arrumar a mesa, encontra a forma de continuar. Por isso a leitura consola sem adormecer, porque a beleza chega junto da ferida.
Há música atravessando essas páginas. O conto-título de “Morangos Mofados” pisca para os Beatles. Em outros trechos, Janis Joplin, Rolling Stones e Caetano surgem como fósforos acesos. Vira pulso. O pop e a balada afinam a dicção dos contos e das crônicas e ajudam a explicar por que tantos leitores recentes, alguns vindos por atalhos digitais, permanecem pelo desenho minucioso da frase. Em Caio, a referência recorta a cena no ponto exato, abre o vão de luz e deixa entrar o ar que faltava.
O rastro material dos livros, manuscritos, folhas datilografadas, objetos, fitas e fotografias volta à luz, em caixas e vitrines, e devolve um Caio de mesa: correções à mão, recados no canto da folha, papéis com tinta ainda viva. Nas livrarias, as reimpressões mantêm o conjunto ao alcance; e a tradução inglesa “Moldy Strawberries”, de “Morangos Mofados”, continua a irradiar leitura crítica em outras latitudes. Quando uma edição chega com cuidado, perguntas se acendem. Quando um arquivo se organiza, o passado recupera a temperatura do presente.
É tentador empacotá-lo em frases de efeito. Seria um erro. O que a sua obra oferece, com elegância sem verniz, é atenção radical a corpos ameaçados e a desejos sem armadura, inteligência do afeto que não disfarça precariedades, humor que não vira o rosto diante da dor. Entre a notícia urgente e a música que o português pode fazer, Caio ergueu um refúgio de linguagem, capaz de acolher quem chega e de manter acesa a luz de quem permanece.