O Eu Acho é Pouco aprendeu a fazer do Carnaval muito mais do que uma festa. Desde 1977, quando surgiu durante a ditadura militar, o bloco leva às ruas de Olinda suas cores, irreverência e posicionamento político. Para celebrar os 50 anos, em 2027, a agremiação prepara uma programação que reúne memória, formação e celebração, com exposição, documentário, oficinas de música, debates e restauro de alegorias.
As comemorações começam neste sábado (7), com a festa “50 É Pouco!”, a partir das 16h, no Mirante do Paço, no Bairro do Recife. A programação reúne a cantora baiana Sarajane, o compositor carioca João Cavalcanti e o maestro pernambucano Spok, em uma apresentação especial. Também participam a Orquestra Vinagrete e os DJs Lala K, Galamba e Orly. Já no dia 15 de novembro, o bloco volta às ruas de Olinda em cortejo com a Pitombeira dos Quatro Cantos, a partir das 9h.
Além das celebrações, o ciclo “50 Carnavais” prevê a criação de um espaço expositivo permanente na sede do bloco e uma mostra itinerante pelo Sítio Histórico de Olinda. A programação inclui ainda um documentário com depoimentos de fundadores e personagens importantes da agremiação, relacionando sua trajetória aos acontecimentos políticos do Brasil e à luta pela democracia.
Para a jornalista Luciana Veras, uma das organizadoras do Eu Acho é Pouco, chegar aos 50 anos traz a responsabilidade de preservar e compartilhar essa história. O trabalho dar continuidade a uma iniciativa que resultou, há sete anos, no livro “Eu Acho é Pouco: Carnaval Vermelho e Amarelo”, produzido a partir de pesquisa contemplada pelo Funcultura.
“Um dos nossos pilares como agremiação é justamente a salvaguarda da memória. A gente entende que chegar aos 50 anos não é só uma alegria, é também uma responsabilidade de como a gente pode contar a nossa história até agora e de que forma a gente vislumbra construir essa história a partir de agora”, afirma Luciana.
A preocupação com a memória também está ligada à identidade política do bloco. Criado por um grupo de amigos com ideais de esquerda, em um período de repressão, o Eu Acho é Pouco manteve ao longo das décadas seu posicionamento em defesa da democracia, atualizando suas pautas sem abandonar as origens.
“Carnaval e política estão tão imbricados no DNA do Eu Acho é Pouco como o frevo, como o samba da batucada, como as próprias cores, o vermelho e amarelo que nos adornam e nos destacam desde sempre”, diz Luciana.
Tradição em movimento
Se a memória ajuda a compreender o caminho percorrido, a formação é uma aposta na continuidade dessa história. O ciclo prevê oficinas e intercâmbio musical entre a Orquestra de Frevo do maestro Risonaldo Verçosa, de Pombos; a Orquestra de Mulheres da maestrina Lourdinha Nóbrega, do Recife; e a tradicional batucada do Eu Acho é Pouco, ligada à comunidade do Guadalupe, em Olinda.
A proposta é estimular a troca de experiências e a renovação dos grupos, aproximando músicos de diferentes gerações. Esse movimento já acontece na própria batucada, que conta com integrantes mais jovens aprendendo com os veteranos. “Para uma agremiação chegar aos 50 anos de existência, ela já por si só carrega dentro dela a ideia de renovação do frevo”, observa Luciana.
A formação se soma a outras ações de preservação, como o restauro de estandartes do Eu Acho é Pouco e do Eu Acho é Pouquinho, além dos mascotes Dragão e Dragãozinho. O trabalho será conduzido pelo artista Claudionor Filgueira. Também estão previstos debates sobre memória, política, patrimônio, ocupação da cidade, liberdade e democracia, com participação de pesquisadores e transmissão pela internet.
A rua como destino
Todas essas iniciativas têm como ponto de partida uma ideia que acompanha o bloco desde sua criação: o Carnaval é uma construção coletiva e tem na rua seu principal espaço. Mais de 200 pessoas participam da produção do cortejo, entre integrantes e trabalhadores de diferentes áreas. Para Luciana, reconhecer e remunerar quem faz a festa acontecer também é parte do legado que a agremiação deseja fortalecer.
“O que a gente pretende deixar para essas próximas gerações é uma ideia de que Carnaval é política, que a memória é importante, é resistência, e que a vida se agiganta na partilha”, resume.
É justamente nessa ocupação coletiva que a agremiação encontra o sentido de sua trajetória. Cinquenta anos depois do primeiro desfile, o bloco segue defendendo que a memória não é peça de museu, a tradição não é estática e o Carnaval continua sendo um espaço de encontro, expressão e disputa. O dragão vermelho e amarelo está pronto para mais uma história. E ainda há muito a querer.
Serviço
50 É Pouco! – A Festa
Com Sarajane, João Cavalcanti, Maestro Spok, entre outros
Quando: sábado (7), às 16h
Onde: Mirante do Paço – Travessa do Amorim, 75 (4º andar), Bairro do Recife, Recife
Ingressos: a partir de R$ 110, na Sympla
Cortejo Eu Acho é Pouco e Pitombeira dos Quatro Cantos
Quando:domingo (15), a partir das 9h
Onde: nas ladeiras de Olinda
Acesso gratuito
Informações: @euachoepouco
