Por muito tempo, a representatividade no cinema percorreu um longo caminho de silenciamentos, estereótipos e inclusão superficial conduzindo a narrativa para um lugar de tragédia. Logo, assistir a um filme com um protagonista LGBTQIA+ já dá aquela sensação de “qual a desgraça que vai acontecer?”.
“Feito Pipa”, filme que estreia nesta quinta-feira (5) nos cinemas brasileiros, extrapola o que seria uma espécie de cumprimento de cotas e dá um abraço verdadeiro na comunidade, mas também em tantos outros públicos visto que aborda ainda temáticas como paternidade, amizade, performatividade, geracionais e Alzheimer de forma descontraída.
São tantas as questões que fica impossível não se relacionar com as temáticas da obra em determinado momento. As gravações do novo trabalho do cineasta Allan Deberton (“Pacarrete”, 2019) ocorreram na cidade de Quixadá, no interior do Ceará. Além disso, o longa-metragem é o escolhido para representar o Brasil na categoria Melhor Filme Internacional no Oscar 2027.
Minha criança
O filme deve emocionar principalmente adultos que, por “x” motivos, não puderam exercer sua infância essencialmente, seja por não saber como, não ter espaço, por ter vergonha e tantas outras questões que restringem e despotencializam a infância.
Em entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco, o roteirista de “Feito Pipa” André Araújo, que trabalhou com o Deberton em “Pacarrete”, falou da construção do protagonista. “Gugu de certa maneira é uma carta de amor à minha criança. Ele é justamente a criança que eu não consegui ser. Não é uma história pessoal, mas eu consigo me espelhar nele justamente na nossa diferença”, conta.
É axiomático afirmar que o mundo poda e, não caber nele, é muito angustiante. Gugu é o que quer ser, o que pode ser, quando e onde quiser ser. Essa é uma lição valiosa para geração nova e também para a que passou. É sobre viver sua infância em toda sua potencialidade.
Sinopse
Dirigido por Allan Deberton e estrelado por Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos, “Feito Pipa” acompanha a história de Gugu, um menino de quase 12 anos que vive com a avó no sertão cearense. O menino exerce da sua personalidade onde for, seja no futebol ou na dança.
A relação entre Gugu e a avó é pura e repleta de acolhimento e brincadeira, até que é interrompida pelo avanço da doença de Alzheimer na matriarca. Gugu encara com a cabeça pra cima e, enquanto a vó é cuidada, o protagonista vai morar com o pai, um homem preconceituoso de temperamento difícil. A partir disso, a trama desenvolve o personagem e suas atitudes diante de pautas difíceis, principalmente para uma criança.
Novato exemplar
Apesar do nome mais conhecido do elenco ser Lázaro Ramos, Yuri Gomes, de apenas 10 anos de idade, além de traçar toda a narrativa e marcar presença em todas as cenas, envolve quem assiste com trejeitos, humor e também emoção.
“A gente tem o Yuri em todas as cenas, a gente tem ele sempre muito inteiro em tela e eu sou muito agradecido assim, isso foi possível também por conta da gentileza, né?, e da acolhida do elenco veterano”, conta o diretor Allan Deberton.
Com temas complexos e diversas camadas, o ator mirim conduz o protagonismo de “Feito Pipa”.
Oscar?
“Feito Pipa” é o escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma indicação na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Apesar da complexidade, o filme preocupa no que se refere a profundidade emocional e dramática.
O filme é fofo, bonito, respeitoso, e trata com cautela as diversas camadas abordadas no longa-metragem. A sensação é que essa cautela suaviza e amolece a própria realidade – o que pode aumentar a repercussão para públicos diversos.
O longa que representará o Oscar segue uma linha mais educacional, com público mais diverso e semelhante ao da sessão da tarde, o que pode facilitar espalhar a mensagem de representatividade e perseverança.
