Reconhecer a violência psicológica pode ser ainda mais difícil quando quem deveria identificá-la também está submetido à manipulação. É essa contradição que Danielle Winits explora ao interpretar a psiquiatra Regina de “Eu Não Era Louca, Era Casada”, novelinha vertical do Globoplay.
A médica inicialmente acredita na versão apresentada por Vítor, personagem de Ricardo Pereira, sobre a suposta instabilidade emocional de sua esposa, Beatriz, vivida por Fernanda Rodrigues. Aos poucos, porém, Regina percebe inconsistências e passa a questionar suas próprias decisões.
Para Danielle, a vulnerabilidade da personagem vai além de um possível erro de avaliação profissional: Regina também teria sido influenciada pelo homem responsável pela conspiração.
“Eu pude entender que essa personagem já sofria, de certa forma, algum tipo de gaslighting do personagem do Ricardo”, defende.
A percepção de Regina sobre os acontecimentos se transforma à medida que ela entra em contato com a situação de Beatriz, vítima de uma armação planejada pelo marido e pela amante dele, Lúcia, interpretada por Barbára Reis. O objetivo da dupla é fazer a galerista duvidar da própria sanidade para afastá-la e tomar sua fortuna.
Construção da personagem
Ao construir a psiquiatra, Danielle procurou compreender como uma profissional experiente poderia ser envolvida nesse processo sem perceber imediatamente a violência em curso. A atriz também preferiu preservar certa ambiguidade sobre as intenções da médica, cuja participação na história não se revela por completo desde o início.
“Sem dar spoiler, a personagem tem um viés, digamos, suspeito na história. Mas eu não vou falar a respeito do desfecho”, desconversa.
A interpretação de Regina também exigiu escolhas específicas diante do formato vertical. Vista muitas vezes na pele de personagens mais expansivos, Danielle encontrou na postura profissional da psiquiatra uma oportunidade de trabalhar com gestual mais contidos. Em vez de explorar movimentos corporais, concentrou sua atuação na maneira como a médica observa e escuta as pessoas ao redor.
A opção dialoga com a proximidade da câmera e com a duração reduzida dos episódios, sem que a atriz tenha sentido dificuldades para se adaptar ao enquadramento.
“Pela minha personagem ser uma psiquiatra, busquei estar mais focada no olhar do outro, na escuta ativa e não em estabelecer para a personagem gestuais que pudessem ficar maiores do que meu objetivo, que era simplesmente a escuta”, detalha.
Para a atriz, o tema abordado pela obra é tão importante quanto o desafio artístico. Criada por Ecila Pedroso, a história trata do gaslighting, mecanismo de manipulação psicológica que leva uma pessoa a questionar a própria memória, percepção e capacidade de julgamento.
Danielle acredita que a ficção pode tornar essas práticas mais reconhecíveis, sobretudo para quem não identifica determinados comportamentos como abusivos. E considera que a narrativa direta dos microdramas favorece a compreensão dos conflitos, podendo estimular a busca por ajuda.
“Considero o microdrama ‘Eu Não Era Louca, Era Casada’ um serviço social”, afirma. “A manipulação psicológica que afeta milhões de mulheres é uma epidemia que se alastra secularmente e que precisa ser divulgada constantemente”, acrescenta.
Formato vertical
A possibilidade de alcançar pessoas que não dispõem de tempo para acompanhar uma novela tradicional reforça o entusiasmo de Danielle com a experiência. Com 50 capítulos de aproximadamente dois a três minutos, desenvolvidos para dispositivos móveis, a produção permite que o público acompanhe a história em pequenos intervalos do cotidiano, inclusive durante deslocamentos.
Para a atriz, a rapidez não diminui a relevância de uma narrativa que pode provocar reflexões sobre situações vividas fora da ficção. A relação com o assunto também é pessoal: Danielle já falou publicamente sobre ter sofrido violências e vê na arte uma possibilidade de elaborar essas experiências.
“Como atriz, eu acho um presente poder me curar também através do meu trabalho”, revela. E ressalta que o diminutivo usado para designar o formato, popularmente chamado de “novelinha”, não traduz a importância de seu conteúdo. “A gente fala a respeito de assuntos que são fundamentalmente necessários hoje em dia e, mais que isso, urgentes”, ressalta.
“Eu Não Era Louca, Era Casada” – Globoplay.
