Pernambuco deu um passo importante para ampliar a proteção e o reconhecimento da capoeira, expressão cultural que integra o patrimônio imaterial brasileiro.
Na terça-feira (27), foi validado o Plano de Salvaguarda da Capoeira no estado, documento que reúne propostas para aprimorar as políticas públicas destinadas à manifestação e estabelecer novas estratégias para sua continuidade.
A iniciativa contou com a participação de capoeiristas de diferentes regiões pernambucanas.
A capoeira recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em 2014.
Com a aprovação do plano, Pernambuco passa a dispor de um instrumento orientador para articular ações de preservação, fortalecer iniciativas já existentes e atender às necessidades apontadas pelos próprios integrantes dessa tradição.
A validação aconteceu na sede estadual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pela coordenação do processo.
A atividade reuniu representantes da comunidade da capoeira e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), tanto presencialmente quanto virtualmente.
Antes da publicação definitiva, o texto receberá as alterações acordadas durante o encontro. Com a divulgação da versão final, o documento poderá servir de referência para a atuação dos praticantes, dos gestores públicos e de organizações da sociedade civil envolvidas na manutenção dessa expressão cultural.
Participação popular orienta as políticas de preservação
O plano foi concebido como uma ferramenta de planejamento compartilhado, e não como uma legislação de cumprimento obrigatório.
A proposta é estabelecer prioridades, organizar reivindicações e estimular a participação direta dos detentores desse patrimônio nas decisões sobre sua continuidade.
Segundo a superintendente de Patrimônio Imaterial da Fundarpe, Jacira França, o trabalho busca dar maior alcance às iniciativas culturais já desenvolvidas em torno da capoeira, além de abrir caminhos para novas ações.
“Este momento é fundamental para Pernambuco porque, a partir da validação desse Plano pelos capoeiristas, é possível estruturar políticas públicas de cultura. Essa conquista é relevante para o fortalecimento da cultura de Pernambuco”, afirma.
A representante do Iphan em Pernambuco, Lívia Moraes, que conduziu a reunião de validação, também destacou a importância de transformar as propostas construídas coletivamente em medidas concretas.
Para ela, a aprovação representa uma etapa decisiva na articulação entre a comunidade e as diferentes esferas governamentais.
“Com o plano validado pelos capoeiristas, nossa missão agora é primeiramente implementar os ajustes alinhados durante a reunião. Depois disso, vamos publicá-lo e a comunidade vai ter acesso ao documento, vai poder colocá-lo embaixo do braço e cobrar de todos os poderes públicos – municipal, estadual e federal – o seu cumprimento”, explica a historiadora.
Fóruns e consulta pública deram forma ao documento
A elaboração do plano teve como base atividades promovidas durante a atual gestão da Fundarpe, entre elas os Fóruns de Salvaguarda da Capoeira, uma consulta pública e duas edições da Semana Estadual da Capoeira.
As iniciativas abriram espaço para que praticantes e demais interessados apresentassem propostas, compartilhassem experiências e apontassem desafios enfrentados pela manifestação em Pernambuco.
Organizados pela Fundarpe em parceria com o Iphan-PE, os fóruns presenciais ocorreram entre dezembro de 2025 e março de 2026.
Os encontros passaram por Salgueiro, Arcoverde, Caruaru, Palmares, Igarassu e Recife, municípios escolhidos pela relevância da capoeira em suas comunidades e pela capacidade de reunir participantes de localidades vizinhas.
A participação foi ampliada por meio de uma consulta pública pela internet, realizada ao longo de abril de 2026. O mecanismo permitiu que pessoas impossibilitadas de comparecer aos encontros presenciais também contribuíssem para a formulação das diretrizes.
A partir das sugestões recebidas, o documento foi organizado em quatro frentes de atuação: mobilização social e ampliação do alcance das políticas; gestão participativa da salvaguarda; divulgação e reconhecimento cultural; e produção e continuidade das práticas culturais.
Cada área contempla objetivos próprios, acompanhados de medidas propostas para orientar sua execução.
Pernambuco se junta a outros estados brasileiros
A construção de planos específicos para a salvaguarda da capoeira já ocorreu em diferentes partes do país. Acre, Bahia e Maranhão lançaram seus documentos em 2018.
Paraná aderiu à iniciativa em 2019, seguido pelo Pará e por Santa Catarina, em 2020. Rondônia publicou seu plano em 2023, Roraima em 2024 e Rio Grande do Norte em 2025.
A validação pernambucana insere o estado nesse movimento nacional de articulação entre comunidades tradicionais e instituições públicas.
A expectativa é que o documento contribua para ampliar o reconhecimento dos mestres e praticantes, fortalecer a transmissão dos conhecimentos e assegurar condições para que a capoeira continue sendo vivenciada pelas próximas gerações.
