Para ouvir mirando a paisagem da janela do ônibus, na praia, na hora do almoço, as músicas pungentes de Adriana Calcanhotto emocionam a quem assistir ao episódio do Tiny Desk Brasil esta terça-feira (27), que conta com a presença da cantora e compositora gaúcha.
De uma delicadeza que parece um murro no estômago, suas letras, por vezes, são uma ameaça para quem está passando por uma “dor de cotovelo”. No episódio, disponível no YouTube, as músicas da artistas foram envoltas por um instrumental sensível e potente.
A cantora, compositora e escritora apresenta no projeto uma versão ainda mais intimista de sua obra, com arranjos sofisticados. Música como “Mentiras” e “Devolva-me”, são interpretadas pela banda que foi formada especialmente para o formato.
“Eu montei essa banda especialmente para cá, pra esse cafofinho adorado da gente”, conta a cantora durante o episódio.
No “escritório”, Adriana (voz e violões) apresenta-se na companhia de Guto Wirtti (contrabaixo), Jorge Continentino (clarinete, flauta em sol e pífano), Leonardo Reis (percussão), Pupillo (bateria) e Vitor Araújo (piano).
Ainda no repertório, estão as marcantes “Esquadros”, “Inverno” e “Vambora”.
Música e história
Todos os sucessos foram bem contemplados pelo formato do Tiny Desk. “Inverno”, por exemplo, conseguiu ter seus sentidos ainda mais potencializados e faz sentir todos os pelos do corpo.
“Essa música (‘Inverno’) eu fiz nesse violão que toquei aqui, com essa harmonia e tal. Mas eu não tinha a letra. O Cícero não tinha mandado a letra. Aí, quando chegou a letra, a gente gravou um piano. E essa música ficou com essa cara de piano, que aqui, o Vitor Araújo – um arraso que ele é – tocou. Falei: ‘vai dar muito certo’”, revela, após a apresentação.
Para a cantora, a música é como uma linguagem que tem a intenção de capturar o tempo.
“A música é arte que tenta essa captura, essa apreensão do tempo. Então, você faz um refrão e depois, quando escuta de novo aquele refrão, você está vivendo aquilo de novo ou não está vivendo aquilo de novo. Enquanto você ouve o refrão você está abrindo mão de ouvir o tempo presente, o silêncio presente”, reflete.
“A música tem essas questões que acho que são fantásticas assim de pensar a respeito, de explorar. Assim como os livros, né? Os clássicos que são pra ser relidos. São pra ser relidos por isso. Porque quando você lê de novo ele não é mais o mesmo livro, nem você é mais a mesma pessoa e nem o mundo é mais o mundo que era quando você leu a primeira vez ” conclui a artista, com a mesma intersecção entre arte e filosofia que marca suas criações.
Trajetória
Adriana Calcanhotto é uma das principais compositoras, cantoras, escritoras e intérpretes da música brasileira contemporânea. Com uma trajetória de mais de quatro décadas, construiu uma obra marcada pelo diálogo entre a canção popular, a literatura e a arte contemporânea, transitando por diferentes linguagens e estilos, da MPB à bossa nova.
Professora e embaixadora da Universidade de Coimbra desde 2015, tem canções gravadas por intérpretes como Gal Costa, Ney Matogrosso e Marisa Monte, além de parcerias com grandes nomes da poesia, como Augusto de Campos, Antonio Cicero, Waly Salomão e Arnaldo Antunes.
Ao longo da carreira, lançou álbuns de estúdio, registros ao vivo e projetos audiovisuais que circularam por diversos países.
Com o heterônimo Adriana Partimpim, desenvolveu uma celebrada obra voltada ao público infantil e venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum Infantil, em 2006, com “Adriana Partimpim – O Show”.
Entre seus trabalhos mais recentes estão “Errante” (2023) e o álbum visual que celebra os 20 anos de Partimpim, lançado em 2024 e acompanhado por uma turnê nacional.
Em 2026, Adriana Calcanhotto lança seu primeiro álbum colaborativo com Arnaldo Antunes, “Vice-Versa”, que será acompanhado por uma turnê nacional a partir de março de 2027.
Tiny Desk?
O Tiny Desk é um famoso projeto de apresentações musicais intimistas e acústicas criado em 2008 pela rádio pública norte-americana NPR, gravado originalmente em um pequeno escritório em Washington, D.C.
De acordo com informações da assessoria de imprensa, com curadoria assinada pelos times de Anonymous Content e Amabis, sob o crivo da própria NPR, o Tiny Desk Brasil segue a tradição do formato original: as atrações são surpresa até o dia em que vão ao ar.
O anúncio de cada artista que se apresenta no escritório nacional é feito às 9h do dia da estreia, com a publicação de uma foto e um texto, ambos de autoria da jornalista e pesquisadora musical Lorena Calábria, nas redes sociais do projeto. Os episódios são lançados sempre às terças-feiras.
Com 24 episódios no ar, o objetivo do Tiny Desk Brasil é capturar a energia real de uma performance ao vivo, com suas nuances e imperfeições. A diferença de simplesmente ouvir uma faixa e assistir seu audiovisual é que a organicidade de volumes de vozes e instrumentos, semblantes e ritmos podem ser percebidos durante a apresentação.
Por fim, as atrações compartilham ideias e emoções no Tiny Talks com Sarah Oliveira, que recebe os artistas da mesinha para bate-papos descontraídos e leves, às quintas-feiras, às 11h.
