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Fernanda Rodrigues vive uma esposa vítima de gaslighting em novela vertical do Globoplay

Fernanda Rodrigues vive uma esposa vítima de gaslighting em novela vertical do Globoplay


Aos poucos, uma mulher perde a capacidade de confiar naquilo que vê, lembra e sente. Em “Eu Não Era Louca, Era Casada”, novelinha vertical do Globoplay, é essa a realidade da galerista interpretada por Fernanda Rodrigues, que tem uma carreira bem-sucedida, uma vida confortável e um casamento aparentemente estável com Vítor, papel de Ricardo Pereira.


O que ela desconhece é que o próprio marido, interessado em tomar sua fortuna, conspira com a amante, a ambiciosa Lúcia, vivida por Barbára Reis, para fazê-la acreditar que está perdendo a sanidade. A estratégia envolve situações cuidadosamente manipuladas, isolamento e sucessivos ataques à autoconfiança da protagonista, uma prática conhecida como gaslighting.


“Mesmo sendo uma novela vertical, com uma linguagem mais acelerada, episódios muito curtos e uma dramaturgia que precisa capturar rapidamente a atenção, esse tema continua sendo muito sério. Se essa história fizer alguém reconhecer um comportamento, conversar com uma pessoa de confiança ou simplesmente perceber que determinadas atitudes não devem ser naturalizadas, acho que a ficção já cumpriu um papel muito importante”, avalia Fernanda.


O gaslighting destrói a autoconfiança de Beatriz, até que ela já não sabe se aquilo que vê, sente ou lembra é verdadeiro. Como foi construir esse processo de desintegração aos poucos, sem antecipar para o público um estado ao qual a personagem ainda não chegou, gravando uma novela com 50 episódios de apenas dois a três minutos cada?


Esse foi um dos grandes desafios da Beatriz: eu não podia começar a história já mostrando uma mulher fragilizada. Pelo contrário! Era muito importante que o público conhecesse primeiro quem ela é: uma mulher segura, competente, que trabalha, toma decisões e sabe o que quer. É justamente por isso que o processo que ela vive depois é tão impactante.


O gaslighting não acontece de uma hora para outra, é um processo de pequenas desconstruções. Tentei trabalhar muito nessas nuances. Primeiro vem uma dúvida, depois outra, até o momento em que ela começa a desconfiar da própria percepção. E fazer isso em episódios tão curtos exige uma precisão enorme.


Não dá para antecipar uma emoção que ainda não pertence àquele momento da personagem. Eu precisava saber exatamente em que ponto daquela trajetória a Beatriz estava a cada cena.


O que a história fez você pensar sobre as ferramentas de controle em uma relação amorosa? De que forma essa reflexão mexeu com você?


Mexeu bastante comigo porque, muitas vezes, a gente imagina uma relação abusiva a partir de situações muito evidentes, quando existem formas de violência que começam de maneira muito mais silenciosa. Uma frase, uma desqualificação disfarçada de preocupação, alguém que constantemente coloca em dúvida aquilo que você sentiu ou entendeu… Isoladamente, determinadas atitudes podem até parecer pequenas.


O problema é quando você percebe o conjunto e a repetição. Essa história me fez olhar com mais atenção para isso. Principalmente pela maneira como alguém pode ir perdendo a confiança em si mesmo, sem perceber exatamente quando esse processo começou. Acho que esse é um aspecto muito forte da trama: mostrar que o controle nem sempre se apresenta como controle desde o primeiro momento.




A história parte de uma mulher bem-sucedida, preparada para os negócios, aparentemente segura de si. Ainda assim, Beatriz é levada a duvidar da própria sanidade. Você acredita que possam ter pessoas que julguem uma vítima como Beatriz por não ter percebido antes o que estava acontecendo?


Acho que existe, sim, um julgamento muito cruel que aparece naquela pergunta: “mas como ela não percebeu?”. E uma das coisas importantes de “Eu Não Era Louca, Era Casada” talvez seja justamente mostrar que não é tão simples assim. Beatriz não é ingênua, frágil ou despreparada.


Ela é inteligente, independente, bem-sucedida. Só que uma relação abusiva não começa necessariamente mostrando aquilo que ela vai se tornar. Existe afeto, confiança, envolvimento emocional. E, quando determinados comportamentos começam a aparecer, muitas vezes, eles vêm misturados a tudo isso.


Espero que a trajetória dela ajude a diminuir esse olhar de julgamento sobre quem vive uma situação assim. Em vez de perguntar por que uma mulher não percebeu antes ou por que não saiu antes, talvez seja mais importante tentar entender o processo que fez com que ela deixasse de confiar na própria percepção. Força e independência não são uma espécie de vacina contra manipulação.


Você acredita que, mesmo com o tom exagerado característico das novelas verticais e dos episódios tão curtos, uma obra de ficção como essa possa ajudar alguém a reconhecer mecanismos de manipulação psicológica que estejam acontecendo em sua própria vida?


Eu acredito muito na capacidade da ficção de provocar identificação. Não acho que uma novela tenha a função de diagnosticar uma relação ou dizer para alguém o que deve fazer. Mas ela pode, sim, acender uma luz. Às vezes, você assiste a uma situação vivida por uma personagem e pensa: “Espera, isso acontece comigo”. E essa identificação pode ser o começo de uma reflexão.


O enquadramento vertical mudou alguma coisa concretamente na sua atuação, na sua movimentação ou mesmo na sua própria relação com a câmera?


Muda, sim. Existe uma proximidade muito maior e o enquadramento é mais fechado. Então, tudo ganha outra projeção. Uma troca de olhares, uma pausa, uma pequena reação podem ter um impacto enorme. Você começa a perceber que determinados movimentos que funcionam perfeitamente em uma novela tradicional talvez precisem ser repensados naquele formato.


Ao mesmo tempo, eu não queria transformar isso em uma atuação para o celular. A emoção precisava continuar verdadeira. Então, foi muito interessante encontrar esse equilíbrio: entender tecnicamente a linguagem, respeitar o enquadramento e a velocidade da narrativa, mas sem perder a organicidade da cena. Para mim, foi um exercício novo e muito estimulante como atriz.


“Eu Não Era Louca, Era Casada” – Globoplay.

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