A personalidade de Belchior não se esgotava nos versos que marcaram seu cancioneiro. Fora dos holofotes, o compositor cearense podia ser espirituoso e generoso, mas também reservado, rigoroso e atento aos mínimos detalhes.
É esse homem, com suas virtudes e contradições, que emerge das páginas de “Um cearense no meio do meu caminho”, livro em que a escritora e cantora lírica Alzira Umbelino Cardillo compartilha recordações da convivência com o artista.
As experiências, concentradas no período de 2002 a 2007, compõem um testemunho pessoal sobre alguém cuja dimensão humana era tão complexa quanto a obra que deixou. A publicação chega no ano em que Belchior completaria 80 anos.
Começo da amizade
O vínculo entre os dois começou em circunstâncias profissionais, durante as comemorações do centenário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, em Itabira (MG).
Interessada em montar uma mostra com 31 desenhos do poeta feitos por Belchior, Alzira entrou em contato com o músico.
O que deveria ser uma conversa objetiva sobre a exposição acabou se estendendo por mais de uma hora.
A afinidade literária serviu de ponto de partida para uma relação que se aprofundaria em diálogos, visitas e viagens, incluindo a passagem do compositor pela residência da escritora em Milão, na Itália.
Literatura
A literatura ocupava lugar central na vida de Belchior. A admiração por Drummond, Fernando Pessoa e Dante Alighieri alimentava conversas que avançavam da poesia à filosofia e alcançavam questões aparentemente banais, como as particularidades do idioma português.
O livro também recupera situações em que a irreverência do artista se manifestava de maneira inesperada. Quando abordado por admiradores que o reconheciam na rua, ele por vezes sustentava, em tom de brincadeira, que era apenas alguém parecido consigo mesmo.
As recordações, contudo, não se limitam aos momentos divertidos nem transformam o compositor em personagem idealizado.
Alzira também aborda os desacordos e os períodos de afastamento que atravessaram a amizade, preservando as ambiguidades de uma relação real. Para ela, compreender o homem é uma tarefa que não se confunde com a admiração pela obra. “Um artista é muito mais que sua arte, por maior que ela seja”, afirma.
Primeiro lançamento
A convivência ganhou um capítulo particularmente significativo em 2004, com o lançamento de “Alzira Cardillo – Uma Antologia de Belchior”.
Reunindo 13 composições do cearense, o álbum teve o próprio músico à frente da produção e da direção artística, em gravações realizadas em Campinas (SP).
O processo criativo estreitou a relação entre os dois, mas também trouxe à tona exigências, dúvidas e descontentamentos.
Ao reconstituir os bastidores do projeto, a autora revela os desafios de trabalhar com um artista que dedicava atenção minuciosa à interpretação de suas canções e não abria mão de suas convicções.
A última conversa telefônica entre eles ocorreu em 2007, após um encontro em Belo Horizonte (MG). Na ocasião, Belchior convidou Alzira para participar da abertura de apresentações que seriam realizadas no Vale do Jequitinhonha.
Ao procurar a equipe do cantor para obter mais informações, porém, ela descobriu que os compromissos não apareciam na programação que lhe havia sido repassada.
O episódio permaneceu como o derradeiro contato entre os dois, pouco antes de o compositor se retirar do convívio público.
Sem pretender desvendar as razões que levaram Belchior a se afastar, Alzira escolhe outro caminho: reunir fragmentos de uma convivência interrompida e preservar aquilo que o tempo não apagou.
O resultado é um relato sobre a proximidade com um artista de temperamento singular, em que a memória afetiva convive com o reconhecimento de suas zonas obscuras.
O livro registra a experiência de quem conheceu de perto uma figura ao mesmo tempo fascinante e enigmática e encontrou, por trás das canções, alguém que não cabia em uma definição simples.
