Em outubro de 1976 Nara Roesler organizou sua primeira exposição como galerista no Recife. Cinquenta anos depois, a cidade onde iniciou sua trajetória profissional volta a ocupar um lugar especial em sua história.
Com sedes em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York, a galeria Nara Roesler participa da quinta edição da Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco,Art.PE, iniciada na última quarta-feira (14) e que segue até domingo (18), no Recife Expo Center, com obras de artistas de diferentes gerações e publicações sobre arte contemporânea.
A formação cultural vivida no Recife e em Olinda, marcada pela convivência com artistas, intelectuais e diversas manifestações artísticas, ajudou a construir o olhar que acompanha Nara há cinco décadas.
“Meu lugar no mundo é o Recife, independentemente de estar ou não aqui fisicamente. Passo muito tempo fora, no Rio, em Nova York ou pelo mundo acompanhando as exposições dos nossos artistas, mas aqui é meu lugar”, afirma a galerista.
Pesquisas e linguagens
A ligação com Pernambuco orienta a seleção da galeria apresentada na feira. No estande G32, trabalhos de Abraham Palatnik, Jonathas de Andrade e Cristina Canale, aproximam diferentes pesquisas e linguagens.
E a experimentação cinética de Palatnik dialoga com as investigações sociais e culturais de Jonathas, enquanto a pintura de Canale acrescenta outra perspectiva à mostra.
Entre os destaques estão Conchavo velejante em três tons, de Jonathas de Andrade, e Blue eyes, de Cristina Canale, ambas de 2026.
A participação inclui a Nara Roesler Books, editora criada em 2011 com mais de 30 títulos publicados sobre arte contemporânea.
Na Art.PE são apresentados livros dedicados a artistas pernambucanos como José Patrício, Paulo Bruscky e Marcelo Silveira, reforçando a importância das publicações para documentar pesquisas e estimular a reflexão crítica sobre a produção artística.
Desde sempre
A valorização da arte pernambucana está na origem da trajetória da galerista. Sua primeira exposição, “O desenho em Pernambuco”, realizada na Gatsby Arte, reuniu nomes como José Cláudio, Aloísio Magalhães, Francisco Brennand, Guíta Charifker e Lula Cardoso Ayres.
Na época, o mercado de arte contemporânea ainda era pequeno, e conquistar público exigia aproximação e persistência. “Era preciso conversar, mostrar as obras, criar confiança”, recorda.
Em 1986, Nara mudou-se para São Paulo e passou a integrar a Montesanti Galleria. O espaço adotou o nome Montesanti Roesler em 1989 e, em 1993, tornou-se Galeria Nara Roesler.
A expansão para o Rio de Janeiro e Nova York consolidou sua atuação em diferentes circuitos artísticos.
Artistas brasileiros como Tomie Ohtake, Amelia Toledo, Artur Lescher, Daniel Senise, Lucia Koch e Vik Muniz integram essa história, ao lado de nomes internacionais como Julio Le Parc, Daniel Buren e Isaac Julien.
O trabalho de representação institucional também ampliou a circulação da arte brasileira. Nos últimos anos, obras de Tomie Ohtake chegaram a instituições como o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), o Metropolitan Museum of Art, o Guggenheim e o Centro Pompidou.
Trocas culturais
A galeria também investiu em iniciativas de experimentação e intercâmbio cultural. Criado em 2002, o Roesler Hotel promoveu encontros entre artistas e curadores, enquanto a editora ampliou o debate sobre arte contemporânea.
Desde 2019, a direção artística está a cargo de Luis Pérez-Oramas, curador venezuelano que trabalhou no MoMA e foi responsável pela curadoria da 30ª Bienal de São Paulo, em 2012.
As comemorações dos 50 anos da sua trajetória como galerista incluem exposições nas três sedes da galeria, organizadas por curadores como Moacir dos Anjos, Agnaldo Farias, Bernardo Mosqueira, Magali Arriola, Vik Muniz e Ariel Jimenez.
As mostras abordam temas como a produção artística nordestina, as vertentes construtivas e abstratas e a presença da arte brasileira no exterior. Uma publicação comemorativa reunirá relatos e registros dessa trajetória a partir das relações construídas com artistas, críticos, jornalistas, amigos e colecionadores.
Na quinta edição, a Art.PE reúne 75 expositores em cerca de 5 mil metros quadrados no Recife Expo Center, aproximando galerias, artistas, colecionadores e instituições. A presença de espaços com atuação nacional e internacional contribui para fortalecer o mercado regional e criar oportunidades de intercâmbio.
Para Nara, Pernambuco reúne artistas capazes de dialogar com diferentes públicos sem perder a identidade cultural que marca sua produção.
“Pernambuco é um celeiro de ótimos artistas. Não é em vão que Cícero Dias pintou ‘Eu vi o mundo… ele começava no Recife’”, afirma.
Serviço
5ª Art.PE (Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco)
Quando: até este domingo (18)
Onde: Recife Expo Center – Cais Santa Rita, 446, São José, Recife
Horários: sexta-feira (16) e sábado (17), das 13h às 21h; domingo (18), das 12h às 19h
A partir de R$ 25 viaSympla
Informações: @art_pe
