O rapper Don L vai trocar, pela primeira vez, os palcos pela Marquês de Sapucaí. Indicado ao Grammy Latino 2026, o artista foi convidado pela Mocidade Independente de Padre Miguel para integrar um dos carros alegóricos da escola no Carnaval de 2027.
Nesta sexta-feira (16), ele visitou o barracão da agremiação, no Rio de Janeiro (RJ), para conhecer os bastidores da preparação do desfile, que terá como tema “Latinamente Independente – Nosso Norte é o Sul em Remanifesto”.
A participação aproxima duas expressões artísticas que encontram na cultura um caminho para rever perspectivas históricas e contestar padrões estabelecidos.
Na música de Don L, a identidade latino-americana, a herança cultural brasileira e o enfrentamento ao colonialismo são elementos recorrentes. A proposta da Mocidade segue uma direção semelhante ao colocar em evidência as referências, os conhecimentos e a força dos povos do Sul Global.
Para Bryan Clem, diretor da escola, a presença do rapper representa uma oportunidade de aprofundar esse diálogo antes mesmo de sua chegada à Avenida.
“O nosso enredo fala sobre reconhecer a potência da América Latina, valorizar nossas raízes e olhar para a nossa história a partir das nossas próprias referências. A obra do Don L dialoga com muitas dessas questões, por isso queremos aproximá-lo desse movimento e mostrar de perto o que estamos construindo para 2027. Mais do que um convite para desfilar, queremos que ele conheça o projeto e se sinta parte dessa reflexão que a Mocidade pretende levar à Avenida”, afirma.
A proposta do desfile parte da necessidade de deslocar o olhar predominante sobre a história e o conhecimento, frequentemente organizado a partir de referências do Norte Global.
Nesse contexto, a ideia de “sulear” o pensamento funciona como princípio para valorizar experiências latino-americanas e reconhecer o protagonismo de povos cujas contribuições foram historicamente marginalizadas.
O rap como investigação cultural
Don L consolidou seu nome no rap brasileiro ao desenvolver uma trajetória marcada pela combinação entre elaboração poética, pesquisa musical e posicionamento político.
Sua produção percorre temas como desejo, poder, comportamento e memória, articulando referências da música nacional a sonoridades e discursos contemporâneos.
A relação com a tradição brasileira atravessa sua discografia. Por meio de samples, citações e releituras, o rapper estabelece conexões com artistas como Belchior, Itamar Assumpção, Dorival Caymmi e Ederaldo Gentil, incorporando diferentes heranças musicais a uma linguagem própria.
Sua caminhada começou em Fortaleza (CE), com o grupo Costa a Costa e a mixtape “Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa”, trabalho que se tornou uma referência no rap nacional.
Na carreira solo, lançou “Caro Vapor – Vida e Veneno de Don L” (2013) e desenvolveu a trilogia reversa “Roteiro pra Aïnouz”, ampliando os limites temáticos e sonoros do gênero.
Em 2025, o artista lançou “CARO Vapor II – qual a forma de pagamento?”, álbum que aprofunda suas reflexões sobre a cultura brasileira, as relações latino-americanas e a influência colonial na construção das referências culturais.
O trabalho concorre ao Grammy Latino 2026 na categoria “Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa” e venceu o Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira 2026, na categoria “Melhor Lançamento de Rap/Trap”, além de receber o prêmio de “Melhor Disco de Rap” do Tenho Mais Discos Que Amigos!.
Em 2021, Don L também foi eleito Artista do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). O reconhecimento reforça a relevância de uma obra que conecta música e reflexão social – uma afinidade que ganha nova dimensão na estreia do rapper no desfile da Mocidade, em um Carnaval que pretende colocar a América Latina no centro de sua própria narrativa.
