Sete anos depois de “Matriz” (2019), a cantora e compositora baiana Pitty lançou, nesta sexta-feira (16), seu sexto álbum de inéditas e o primeiro a levar apenas seu nome.
“Pitty” chega pela Deck, com 13 faixas que trazem o bom e velho rock como espinha dorsal, mas também trazem pitadas de elementos de hip-hop e referências à música de pista de dança.
O trabalho nasce de um período de intensa criação e reflete uma artista interessada em experimentar, rever certezas e transformar experiências pessoais em canções abertas a diferentes interpretações.
Pitty também percorre questões que atravessam a vida adulta: a passagem do tempo, a preservação da liberdade, a urgência de viver e a importância dos vínculos afetivos.
Escrever para entender
A artista não começou com um projeto de disco em mente. Primeiro vieram as canções; só depois ela percebeu o que estava construindo. “Eu comecei a escrever porque eu precisava dizer essas coisas, precisava botar isso pra fora”, conta Pitty em entrevista à Folha de Pernambuco.
O repertório surgiu em menos de dois meses, quase como um diário, sem que revisitasse composições antigas. Em casa, com violão, computador e software de produção, criou riffs, batidas e demos. Para ela, essa autonomia tem um significado próprio num campo ainda muito masculino: produzir as próprias ideias é parte do faça você mesmo que acompanha a história do rock.
O título apareceu quando a cantora percebeu que nenhum outro nome traduzia aquele momento. “Eu nunca tive um álbum homônimo”, diz. “Eu tô tão aberta”, explica a exposição que atravessa as faixas.
Isso não torna o disco necessariamente ou apenas autobiográfico. Pitty acredita que a canção muda quando chega ao público e passa a ser cantada por outras pessoas, com suas histórias e contextos. “Quando isso vai para o coletivo, não é mais meu, é nosso.”
Da roda à pista
A guitarra permanece no centro, mas não determina sozinha o rumo das músicas. “Desobediente” combina hip-hop e rock; “Armadura” procura um formato dançante e faz referência a Clarice Lispector (“Das vantagens de ser bobo”).
“Pileque de Poeta”, “Sobriedade Seletiva” e “Não à Deriva” também aproximam a energia do rock da pista de dança.
Pitty diz que queria experimentar um “rock dançante” e se perguntava se seria possível juntar “a roda de pogo e a pista de dança”. O resultado alterna peso e movimento com passagens mais contemplativas.
“Não à Deriva” trata da urgência de estar viva e aproveitar o tempo; “Nó”, que encerra o álbum, sugere calma e a necessidade de desatar os obstáculos que impedem a vida de seguir.
Todas as nuances
A maturidade aparece sem cancelar a aventura. “Pileque de Poeta” aproxima a experiência adulta da sensação de voltar à adolescência; “Armadura” observa a casca criada ao longo da vida sem perder de vista a humanidade.
O cuidado também tem lugar no repertório. “Caminhada” fala de parceria e sororidade; “Cuidada” aborda a atenção dedicada ao outro.
Para Pitty, é importante preservar a capacidade de brincar, mas também abrir espaço para assuntos sérios. “Por que não abraçar todas as nuances que a gente tem?”, pergunta. “Nós não somos uma coisa só.”
“Pitty” registra uma artista no presente, a partir de suas inquietações atuais e ainda interessada em descobrir caminhos. Como ela resume, a obra continua ganhando significado nas conversas e no encontro com quem escuta.
