A pesquisadora pernambucana Maria Paula Maciel transformou uma memória pessoal numa pesquisa premiada em São Paulo. Ela elegeu o Carnaval do Recife e Olinda como fio condutor do estudo, mas o ponto de partida foi uma fotografia dela no colo do pai, aos seis meses de vida, durante a festa popular no ano de 1998.
O trabalho, nomeado de “Pelas ruas, eu vou: o carnaval nas cidades do Recife e Olinda como lieu de mémoire urbano”, consagrou ela com o Prêmio Quati de Melhor Dissertação de Mestrado na área de Humanidades. A cerimônia de entrega da premiação ocorreu em 3 de setembro, no Auditório Azul da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP).
O pontapé
Autointitulada como recifense convicta e pernambucana bairrista, Maria Paula tinha o interesse de explicar o chamado de maior e melhor Carnaval em linha reta da América Latina para quem vive fora de Pernambuco. Desde a iniciação científica na graduação, o cortejo popular tem sido investigado pela bacharela em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).
Em 2023, a mudança para São Paulo despertou uma nova reflexão. Para Maria Paula, explicar toda a intensidade do Carnaval pernambucano fora do estado representava uma dificuldade. A solução para a pesquisadora era simples: desenvolver um trabalho no mestrado em filosofia pelo Programa de Pós Graduação em Estudos Culturais sobre a festa carnavalesca, espaço urbano, identidade e memória coletiva.
Identidade
Em entrevista à Folha de Pernambuco, Maria Paula começou defendendo o tema para o objeto de estudo: “É muito comum escolher a nossa própria cultura”.
“Essa é a foto da sua dissertação”, exclamou a mãe de Maria ao encontrar a imagem dela no colo do pai, aos seis meses de vida, durante o Carnaval. A fotografia é um exemplo da formação identitária da pernambucana.
“A nossa identidade é a forma com que a gente vê o mundo. Então, meus questionamentos sobre a nossa sociedade e minhas preocupações passam, obviamente, pela lente do Carnaval”, ressaltou Maria.
Os foliões
Para a pesquisa desenvolvida, foi preciso um trabalho de campo. A pesquisadora passou seis semanas no Recife realizando entrevistas e analisando as próprias memórias e vivências. Ela entrou nas sedes de agremiações e acompanhou a rotina de quem vive o Carnaval de perto. “A gente começa a ver que na realidade é uma coletividade dentro do que a gente pensa ser a nossa individualidade”, expressou.
Ela interagiu com o Bloco das Flores, a Pitombeira dos Quatro Cantos, a Escola de Frevo do Recife, além de artistas plásticos e criadores de conteúdo, como Léo Cavalcanti, conhecido como “Anfitrião de Pernambuco”.
O Prêmio Quati, promovido pela Comissão de Pós-Graduação da EACH, reconhece as melhores teses e dissertações defendidas na unidade. Na segunda edição da premiação, os trabalhos concluídos em 2025 nas áreas de Humanidades, Ciências da Vida, Ciências Exatas e Tecnológicas e Interdisciplinar foram avaliados.
