Nordeste Magazine
Cultura

Laura Peartree transforma o piseiro em passaporte musical entre Brasil e Nova York

Laura Peartree transforma o piseiro em passaporte musical entre Brasil e Nova York


O piseiro costeou o Atlântico, chegou a Nova York e ganhou sotaque multilíngue. É dessa combinação que nasce “Pisadinha de Nova York”, primeiro single da cantora e compositora belga Laura Peartree.


Com versos em português, espanhol e inglês, a música aproxima o gênero popular do Brasil da experiência de viver no Queens, bairro nova-iorquino conhecido pela convivência entre comunidades de diferentes origens, também perpassando por questões de identidade, imigração e pertencimento.


A música começou a tomar forma quando Laura experimentava ferramentas de produção musical no programa Ableton Live. Morando nos Estados Unidos, ela já tinha o piseiro entre os ritmos que escutava com frequência. A batida acabou entrando em sua própria criação, inicialmente sem a perspectiva de se tornar um lançamento.


O projeto ganhou corpo, ganhou colaborações na produção e chegou ao formato de single, disponível desde 2 de outubro nas plataformas digitais.


“Eu fiz no Ableton, eu tinha feito tudo lá. A batida, os tecladinhos, gravei em casa. Fui mexendo até eu achar: ‘olha, essa música está legal’, conta a artista, em entrevista à Folha de Pernambuco. Antes de apresentar o material ao público, ela mostrou a composição a amigos brasileiros, cujas reações positivas ajudaram a impulsionar a ideia.




Do piseiro ao reggaeton

A escolha do gênero não se limita à familiaridade com a música brasileira. Laura identifica no piseiro uma capacidade de conectar ouvintes com repertórios e histórias diferentes.


A cantora se recorda de ter descoberto “Recairei”, sucesso dos Barões da Pisadinha, ouvindo-a em Nova York. A faixa ficou na cabeça e abriu caminho para uma playlist dedicada ao estilo, que depois passou a incluir nomes como João Gomes.


“Não tem como não ficar feliz escutando piseiro”, diz. Para ela, existe uma comunicação que dispensa o entendimento integral da letra: a música convida à dança e aproxima as pessoas. É uma característica que também reconhece em artistas capazes de levar suas canções a públicos diversos.


Essa abertura permite à belga aproximar o gênero de outras sonoridades latino-americanas. Ela destaca semelhanças do piseiro com o reggaeton e conta que já experimentou combinar o ritmo brasileiro com músicas de outros países.


Em uma apresentação em Nova York, chegou a misturar referências porto-riquenhas e brasileiras, passando de um merengue a Aviões do Forró.


A curiosidade por essas conexões aparece também em sua maneira de ouvir música: Laura gosta de perceber como uma canção pode mudar de sentido quando transportada para outro gênero.


Ela cita como exemplo a música “Tattoo”, que deu a vitória à sueca Loreen no Eurovision 2023, e que acabou virando hit no Brasil sob o nome “Daqui pra Sempre”, gravada por Manu Bahtidão e Simone Mendes. Uma interpolação da melodia da canção original vertida para uma mistura de tecnomelody, forró e piseiro.


“A versão original da música não ouço tanto. Mas gostei muito dela em piseiro”, confessa Laura, que, mesmo em sua “Pisadinha de Nova York”, prefere explorar o que acontece quando referências distintas entram em contato do que repetir (copiar, reproduzir) uma fórmula.



Uma identidade feita de idiomas

Nascida em Bruxelas, Bélgica, filha de mãe belga e pai espanhol, Laura cresceu falando holandês com a família e espanhol com o pai, em uma cidade onde o francês também faz parte da vida cotidiana.


A presença de diferentes idiomas e comunidades acompanhou sua formação e alimentou a vontade de conhecer outros lugares.


A música brasileira entrou cedo nessa história. Na adolescência, ela se aproximou de artistas como Martinho da Vila, Jorge Ben Jor e Gilberto Gil, a partir dos discos que descobrira em casa.


O repertório lusófono incluía ainda o fado e a música cabo-verdiana. Mais do que uma curiosidade passageira, o contato despertou nela o desejo de aprender português para cantar aquelas canções.


“Eu sou também uma nerd de línguas”, resume. O espanhol, que já falava desde criança, ajudou na aproximação com o português.


Aos 18 anos, Laura veio ao Brasil pela primeira vez, em um intercâmbio universitário em Florianópolis. Anos depois, voltou para morar e trabalhar em São Paulo, onde permaneceu por quatro anos.


A mudança para os Estados Unidos veio em seguida, por uma oportunidade profissional. Nova York, que não fazia parte de seus planos iniciais, tornou-se sua casa já há cerca de uma década.


A artista conta que a ligação com o Brasil, porém, vinha de muito antes. “Desde criança que eu falava, quero aprender português, eu quero, um dia, conhecer o Brasil.”


O vínculo também se manifesta no repertório afetivo. Laura cita Jorge Ben Jor entre seus artistas brasileiros favoritos e lembra com entusiasmo de uma viagem a Minas Gerais para assistir a um show de Alceu Valença com a Orquestra Ouro Preto. Também já esteve no Carnaval de Olinda, experiência que gostaria de repetir.


A própria assinatura artística carrega um vestígio dessa história entre idiomas. Laura é neta de um português por parte de pai e herdou o sobrenome Pereira, que acabou ganhando uma versão em inglês: Peartree, literalmente, “pereira”, a árvore que dá peras.


A brincadeira com a tradução transformou uma herança familiar em nome artístico e acrescentou mais uma camada à identidade de uma cantora acostumada a transitar entre línguas e culturas.


No Brasil, onde o sobrenome original costuma despertar curiosidade diante de uma artista belga, a troca também rende boas histórias sobre as muitas formas de pertencer a um lugar.


Em “Pisadinha de Nova York”, Laura Peartree misturou o piseiro a referências latino-americanas, potencializadas por sua vivência no Queens, bairro cosmopolita de NY | Foto: Lívia Sá/Divulgação


Queens, o ponto de encontro

A vida no Queens acrescentou outras referências à formação de Laura. Ela descreve o bairro como um lugar de enorme diversidade, com comunidades latino-americanas e asiáticas, restaurantes de diferentes países e idiomas que mudam de uma rua para outra. Em determinadas situações, diz, era mais comum ouvir espanhol do que inglês.


Essa convivência atravessa “Pisadinha de Nova York”, cuja letra alterna os idiomas e combina referências culturais sem tentar uniformizar as diferenças. O Brasil surge como parte de uma experiência mais ampla de circulação entre territórios, enquanto a comunidade latina nova-iorquina aparece como espaço de identificação.


A composição também inclui certas pitadas políticas. Em um dos versos, Laura brinca com o a agência federal norte-americana responsável pela aplicação de leis de imigração: “ICE pra mim só rola se for com cream”.


Em outra passagem, aproxima Lula e um certo “camarão” por meio de uma brincadeira com as palavras em português e inglês. A leveza da construção não elimina as referências às tensões entre Norte e Sul globais nem às políticas migratórias.


Questionada sobre a letra, a artista explica que a música parte de sua própria posição entre diferentes lugares. “Eu acho que falo muito de um lugar meu”, afirma.


Embora tenha nascido na Europa, diz sentir-se acolhida no Brasil, onde sua relação com a língua e com a cultura ganhou outra dimensão.


A estreia e os próximos caminhos

A gravação também ganhou contribuições de músicos e produtores brasileiros. Depois de desenvolver a estrutura da faixa em casa, Laura contou com a mixagem e a masterização de Cido (um dos produtores responsável por “Rock Doido”, de Gaby Amarantos).


Na etapa final, o produtor Henrique Andrade acrescentou o baixo e articulou a participação de Levy Vitorino Santiago no baixo. A guitarra de Brizeiro também entrou como elemento adicional na versão definitiva.


Videoclipe

“Pisadinha de Nova York” também ganhou um videoclipe dirigido por Lívia Sá, que leva para as imagens o universo multicultural que inspira a composição. Filmado no Queens, o vídeo acompanha a artista pelas ruas e em contato com a vizinhança.


As gravações em MiniDV e Super-8 conferem ao registro uma estética analógica, de aparência caseira, que aproxima o espectador do cotidiano local e das diferentes culturas que convivem na região.



A estreia marca uma nova etapa para uma artista que já circulou por diferentes cenas da música independente. Em Nova York, participou de projetos como Taxi Vision e Orlas, tocou com o uruguaio Juan Wauters, gravou vocais para Ana Frango Elétrico e excursionou pelos Estados Unidos e pelo Canadá com Sessa.


Agora, “Pisadinha de Nova York” abre espaço para uma artista interessada em se desprender de fronteiras linguísticas ou geográficas, e a mistura entre piseiro e referências latinas funciona como ponto de partida para esse percurso.

Veja também



Fonte

Veja também

Inscrições abertas para 2ª edição do Plano Conjunto voltado para inclusão no audiovisual

Redação

Maria Bethânia é homenageada no programa Sem Censura, da TV Brasil, nesta sexta (16)

Redação

Em julgamento por estupro e agressão, Russell Brand é apontado como “predador e manipulador”

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.