Onde outrora havia plantações de cana-de-açucar, há pelo uma década guarda ‘apenas’ as memórias dos idos anos de 1920, quando tudo começou na Mata Sul pernambucana, em Água Preta, precisamente na Usina Santa Therezinha – hoje um museu a céu aberto de muitos fazeres artísticos.
Trata-se da Usina de Arte, reconhecidamente um reduto dedicado à arte contemporânea, assim como à educação e à preservação da natureza.
E é em tom histórico e afetivo que o jornalista e antrópologo Bruno Albertim conta sobre essa transformação em seu “Usina de Arte: a construção de uma utopia”, com lançamento marcado para esta quinta (15) na 5ª ART PE – Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco, no Recife Expo Center.
Com coedição da Cepe junto à própria Usina de Arte, o livro abrange em suas pouco mais de 300 páginas e outras tantas registradas em fotos, como o espaço se tornou um vetor de mudança da realidade da Região, em uma comunidade marcada, até então, pela economia da cana. A usina foi fechada em 1998.
A Usina
Com 64 hectares, a Usina de Arte é tomada por um ambiente que atesta a reconversão do espaço em cultura absoluta.
Para além do eixo Rio-São Paulo, é lá que a arte contemporânea ganha relevância, reforçando o fazer artístico já relevante e conhecido que se tem em Pernambuco.
Por meio da cultura como forma de desenvolver o território com ações que passam pela arte, mas também pela educação, inovação e recuperação ambiental, além do empreendedorismo local, a Usina conta atualmente com mais de 50 obras e instalações de artistas do Brasil e do exterior.
Marina Abramovic diante de sua obra “Generator” | Crédito: Andréa Rego Barros/DivulgaçãoSão exemplos Marina Abramović, Juliana Notari, Paulo Bruscky, Regina Silveira, Carlos Garaicoa, entre outros.
Uma biblioteca, escola de música, laboratório de fabricação digital, parque botânico, atividades formativas, programa de bolsas universitárias e um festival anual que reúne artes visuais, música, cinema, teatro e literatura, também integram a estrutura do local.
A céu aberto
Com a primeira edição em 2015, o ‘start’ da trajetória da Usina de Arte teve um novo roteiro traçado com o Festival Arte na Usina, em caminhada que criou, por exemplo, a Associação Socioambiental e Cultural Jacuípe.
No ano seguinte as primeiras residências artísticas foram iniciadas e definido o conceito artístico da Usina, inspirado naland art: no lugar de galerias fechadas, obras espalhadas pelo espaço aberto, em diálogo com a natureza.
O projeto contou com a participação de artistas como o paraibano José Rufino, primeiro curador da Usina – função atualmente exercida pelo francês Marc Pottier.
A parceria com o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM) possibilitou o comissionamento das primeiras obras, feitas especialmente para o museu, de Paulo Bruscky, Paulo Meira, Márcio Almeida e Marcelo Silveira.
E a recuperação ambiental foi uma prioridade dos empresários Ricardo Pêssoa de Queiroz e Bruna Simões, com convite do mineiro Eduardo Gonçalves, paisagista e então curador botânico do Instituto Inhotim (MG).
Coube a ele transformar a terra arrasada pela exploração da cana em espaço vivo com mais de mil espécies vegetais, nativas ou exóticas.
“A antiga usina que deixou de moer cana e produzir açúcar hoje produz criatividade, conhecimento, encontros, beleza e esperança”, destacam Bruna Simões e Ricardo Pêssoa de Queiroz na apresentação do livro.
Arte moderna e figurativa
Para o autor, Bruno Albertim, “O Brasil não tinha conhecimento da arte contemporânea, que questiona as formas tradicionais de estética e tensiona questões da atualidade”.
Albertim ressalta que Pernambuco, por um bom tempo, foi celeiro apenas de uma arte moderna e figurativa.
“Temos na Usina de Arte um local importante para a consolidação, o desenvolvimento da poética artística contemporânea em Pernambuco. Com nomes fundamentais na escritura de uma arte local, nacional e mundial, como Marina Abramović e Juliana Notari, que com a obraDiva, uma vulva encravada na montanha, colocou a Usinano debate mundial, numa época de polarização política e, sobretudo, moral”, destaca o escritor.
A propósito, além de “Usina de Arte: a construção de uma utopia”,Bruno Albertim assinou, também, os livros “Tereza Costa Rêgo – Uma mulher em três tempos” (Cepe, 2018) e “Pernambuco Modernista” (Cepe, 2022).
Em 2013, ele foi vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo com o especial “Nordeste – Identidade Comestível, na categoria Norte-Nordeste”.
SERVIÇO
“Usina de Arte: a construção de uma utopia”, de Bruno Albertim
Lançamento nesta quinta-feira (15), às 17h30
Onde: 5ª ART.PE – Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco, no Recife Expo Center – Cais de Santa Rita, 446, São José
Informações: @art_pe
Preço do livro (impresso) R$ 300
