Em meio à pintura, escultura e instalação, o artista pernambucano Mozart Santos transita por bainhas de peixeiras, penas, chifres, peles, sementes e texturas, no contraponto força/fragilidade.
É este o mote que perfaz a mostra “Delicado é o Espinho” – individual e inédita, entra em cartaz na Arte Plural Galeria (APG) a partir da próxima quinta-feira (15).
Com curadoria de Fabiana Moraes, jornalista e pesquisadora, a mostra investiga construções de imagens no Brasil e as pessoas que as produzem, em uma coleção de peças que ressalta o contrassenso de paisagens ásperas, mas ternas.
Modo de existir
Como portadora de códigos culturais e modos de existência, em sua pesquisa Mozart desloca esses elementos dos contextos habituais para reorganizá-los em estruturas que desafiam hierarquias entre referências populares e eruditas, tradição e contemporaneidade.
De acordo com Fabiana Moraes, mais do que representar o Sertão, a mostra “recusa o olhar pronto, construído pela televisão e pela indústria cultural”.
A curadora complementa afirmando que a obra de Mozart “devolve a esse território, e a quem dele veio, o direito à complexidade, à delicadeza e ao volume. É uma paisagem que não é só sertaneja, é brasileira, periférica, contemporânea”, ressalta Moraes.
Pelo avesso
À parte do clichê sobre o ‘cabra macho, do sol a pino, da dureza’, Mozart Santos age, em sua obra, pelo avesso, com atenção ao delicado que habita esse território.
As bainhas de couro que ganham nomes como “Lambedeiras e Igbin”, são exemplos deste avesso em que o artista caminha.
“O Sertão náo é uma imagem parada no tempo, nem um território definido pela falta. Ele está na cidade, nos corpos, nos objetos e nas formas de imaginar o mundo. Meu trabalho parte dessas memórias, mas não para reproduzí-las como herança intocável”, conta Mozart.
Ele segue reafirmando que deseja deslocar essas memórias, “mas não para reproduzí-las como herança intocável”.
“Quero deslocá-las, criar outras relações entre materiais, símbolos e histórias que quase sempre foram vistas de maneira isolada ou reduzidas a estereótipos. Existe uma potência estética e política nessas referências, e me interessa justamente o que acontece quando elas deixam de ocupar um lugar preriférico no imaginário e passam a produzir outras leituras sobre o Brasil”, explica Mozart.
Religiosidades de matriz africana, indígena e da cultura popular também atravessam a mostra. Mozart, por exemplo, aproxima sua pesquisa de festejos como a coroação do Rei do Congo, sobrevivente no Sertão como herança negra e diaspórica.
Do Ibura para o Sertão
Do Ibura, Zona Sul da cidade, Mozart Santos reencontrou em suas cheganças por Floresta, no Sertão, objetos de sua infância: bucha vegetal, badoque, pipa e bodegas de balcão.
Na mostra “Delicado é o Espinho”, o Sertão que migrou com os êxodos rurais e criou raizes nas periferias das grandes cidades, é o que aparece.
Do Ibura para São Paulo, para onde ele se mudou, o “animal sertanejo” que dá nome a parte das obras é também o nordestino que desembarca no Sudeste e é visto como uma espécie estranha.
SERVIÇO
“Delicado é o Espinho”, mostra de Mozart Santos
Quando: a partir de 15 de outubro até 27 de novembro
Onde: Arte Plural Galeria (APG) – Rua da Moeda, 140, Bairro do Recife
Acesso gratuito
Inforações: @artepluralgaleria
Visitação: de segunda a sexta, das 9h às 18h; sábado, das 14h às 18h
