VALETA, MALTA – O enviado especial do presidente Donald Trump para o Turismo dos Estados Unidos, Nick Adams, que possui uma função semelhante a de um ministro do Turismo, defendeu que o turismo não seja usado como instrumento de pressão política, mas enfrentou questionamentos sobre a coerência desse posicionamento durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira (09), último dia do WTTC Global Summit 2026, em Malta.
Entre os temas levantados estiveram a queda nas viagens de canadenses aos EUA, as restrições a Cuba e a suspensão temporária de serviços consulares americanos no Brasil, às vésperas das eleições presidenciais.
A discussão sobre o Canadá permeou boa parte da coletiva, com jornalistas canadenses questionando a estratégia americana para recuperar a confiança dos viajantes e os efeitos das tensões políticas sobre o turismo. Adams, porém, sustentou que decisões comerciais e diplomáticas não deveriam determinar a escolha dos consumidores sobre onde viajar.
“Uma negociação comercial é inteiramente diferente do setor de turismo. Estamos no negócio da felicidade, e um boicote turístico é miséria”, afirmou.
A declaração retoma o discurso feito pelo enviado na quinta-feira (08), também durante o encontro do Conselho Mundial de Viagens e Turismo. Na ocasião, Adams criticou governos e lideranças que incentivam boicotes a destinos por divergências políticas e comerciais. “Cortem essa bobagem e comecem a fazer negócios”, disse, em uma fala que marcou sua apresentação.
Adams cita Trudeau e rebate críticas sobre a imagem dos EUA
Ao defender sua posição, Adams mencionou o ex-primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, afirmando que ele teria incentivado publicamente os canadenses a não viajarem aos Estados Unidos no ano anterior. Vale lembrar que Trudeau também se apresentou na manhã desta sexta-feira, no palco do WTTC, e falou sobre como tensões políticas influenciam escolhas de destinos turísticos, se referindo especificamente aos atritos com os Estados Unidos.
“Isso é absolutamente deplorável”, declarou Adams sobre o incentivo a boicotes. Para ele, esse tipo de posicionamento prejudica principalmente pequenos empresários, trabalhadores de restaurantes, motoristas de táxi, bares e estabelecimentos turísticos, e não necessariamente os líderes envolvidos nas disputas políticas.
O enviado também afirmou que Trump nunca teria pedido aos americanos que deixassem de viajar a outro país como resposta a divergências comerciais ou geopolíticas.
A defesa foi questionada por um participante que relatou sua experiência no mercado turístico americano e afirmou que a imagem dos EUA no exterior havia se deteriorado. Ele citou o ambiente de polarização política no país e a publicação de Adams no LinkedIn em apoio à tarifa de 50% imposta ao Canadá.
Adams respondeu que discordava “veementemente” da maior parte das colocações e classificou como falsas as críticas à receptividade americana.
“Os Estados Unidos continuam sendo o país mais acolhedor, mais amigável e mais hospitaleiro do mundo”, afirmou.
A discussão também chegou à imprensa canadense. Uma jornalista da Canadian Geographic questionou como o governo americano pretende reconstruir a confiança dos visitantes do Canadá, historicamente um dos principais mercados emissores para os EUA, diante das tensões comerciais e políticas.
Adams respondeu que está comprometido com essa recuperação e anunciou que pretende viajar ao Canadá em 10 de novembro. Ele também reconheceu que destinos como Havaí e Las Vegas sentem de forma significativa a redução da visitação canadense.
Cuba expõe limite da defesa de separar turismo e política
Um dos momentos mais delicados da coletiva ocorreu quando um jornalista questionou a posição americana em relação a Cuba. O profissional lembrou que, embora Adams defenda que o turismo não seja usado como instrumento político, cidadãos dos Estados Unidos enfrentam restrições para viajar à ilha como turistas.
“Então, quando sim e quando não? Não me convence muito, não é?”, questionou o jornalista.
Adams respondeu que os dois casos eram diferentes. “Acho que os EUA e Cuba são um caso muito diferente do que estamos falando. Os Estados Unidos e o Canadá têm uma relação totalmente diferente”, afirmou, sem detalhar quais critérios justificariam a distinção.
A resposta deixou sem esclarecimento o ponto central da pergunta: se o turismo deve permanecer separado das disputas políticas, quais princípios determinam quando essa separação se aplica e quando as restrições de viagem são consideradas justificáveis?
A comparação é relevante porque a defesa de Adams se baseia justamente na ideia de que divergências entre governos não deveriam ser transferidas para o setor turístico. Ao tratar Cuba como uma situação distinta, sem explicar os critérios dessa diferença, o enviado não esclareceu como essa premissa se aplica à política americana para a ilha.
Pergunta do M&E sobre o Brasil fica sem resposta
O Mercado & Eventos, um dos poucos representantes do Brasil no evento – e o único a perguntar durante a coletiva, também questionou Adams sobre o mercado brasileiro e a suspensão temporária dos serviços consulares americanos no Brasil, ocorrida na semana passada, dois dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais.
A pergunta abordou o impacto da decisão sobre os agendamentos de vistos e a possibilidade de que a interrupção, em um momento politicamente sensível, afetasse a confiança dos brasileiros que pretendem viajar aos Estados Unidos.
“Como você responde às preocupações de que uma decisão como essa possa prejudicar a confiança dos viajantes brasileiros nos EUA?”, foi a pergunta do M&E.
Adams não apresentou uma resposta substantiva à pergunta durante a coletiva e afirmou que precisaria ‘investigar mais a fundo o tema’, já que esteve fora do EUA na última semana e não estava preparado para responder sobre este assunto. Mas se colocou à disposição para buscar esta resposta posteriormente.

O tema é especialmente relevante para o turismo emissivo brasileiro, já que a emissão de vistos e a previsibilidade do atendimento consular fazem parte do planejamento de viagens internacionais.
Após a coletiva, o M&E e o enviado trocaram contatos. A reportagem encaminhará novamente a pergunta por e-mail e espera receber um posicionamento oficial sobre a suspensão dos serviços consulares, seus impactos sobre os viajantes brasileiros e eventuais medidas para evitar novas interrupções.
Estados Unidos mantêm meta de crescimento do turismo internacional
Apesar dos questionamentos sobre a imagem do país e as tensões com mercados emissores, Adams reafirmou o objetivo americano de alcançar uma média de 100 milhões de visitantes internacionais por ano até 2030. Segundo ele, a estratégia de crescimento inclui uma década de grandes eventos esportivos e internacionais, além de investimentos para melhorar a recepção de visitantes nos aeroportos e nas áreas de controle de fronteira.
O enviado afirmou que o governo também pretende ampliar o uso das redes sociais e de criadores de conteúdo para apresentar experiências reais de turistas no país. Como exemplo, citou vídeos de visitantes que conheceram supermercados, restaurantes e atrações cotidianas durante a Copa do Mundo, realizada neste ano.
Para Adams, essas experiências ajudaram a combater a percepção de que os Estados Unidos seriam um destino pouco acolhedor. Ele afirmou que o país quer aprimorar a recepção desde o primeiro contato do viajante com a imigração até a chegada ao hotel.
O desafio, contudo, vai além da promoção turística. A meta de crescimento depende também da capacidade de manter a confiança dos mercados internacionais, oferecer previsibilidade aos viajantes e conciliar as políticas migratórias e diplomáticas com o objetivo de atrair mais visitantes.
A coletiva em Malta mostrou que, embora a defesa de separar turismo e política seja central no discurso do enviado de Trump, sua aplicação prática continua sendo objeto de questionamentos, inclusive sobre a forma como os EUA tratam mercados extremamente estratégicos como o Canadá e o Brasil.
O M&E viaja com proteção GTA
