Nordeste Magazine
Cultura

Livro de Márcio Bastos sobre o teatro e desbunde do Vivencial será apresentado no MAC, em Olinda

Livro de Márcio Bastos sobre o teatro e desbunde do Vivencial será apresentado no MAC, em Olinda


Bem que poderia ser nos tempos atuais, em pleno século XXI, nestes anos dois mil e qualquer coisa, e precisamente em 2026, quando o País está em um processo de transição e, como tal, tomado por incertezas, inclusive para a arte.

Mas ela, a arte, em seu papel (sempre) revolucionário, segue/seguirá existindo e resistindo, tal qual o coletivo de teatro Vivencial nos idos 1970/1980 quando, em plena ditadura militar, e formado por homossexuais, mulheres, estudantes, analfabetos, pobres, filhos da classe média, intelectuais, pessoas trans, negros, heterossexuais, bissexuais e quem mais se considerasse dissidente, transformou a cena cultural do estado.


E é exatamente sobre esse coletivo que o jornalista e escritor Márcio Bastos tomou as páginas do livro “Lantejoulas no Mangue: teatro e desbunde do Vivencial”, com lançamento neste sábado (10), em Olinda, às 14h, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE).

Desde sempre

A narrativa traz à tona a história do grupo teatral que venceu a ditadura em Pernambuco, protagonizando um fazer artístico tido como excessivo e radical às imposições da época.


“De muitas maneiras, o Vivencial está presente na minha vida há pelo menos 15 anos. Em 2011, quando estagiário na Folha de Pernambuco, foi lançado ‘Transgressão em 3 Atos: nos Abismos do Vivencial’, de Alexandre Figueirôa, Claudio Bezerra e Stella Maris Saldanha.

Naquele ano, o grupo foi homenageado pelo Festival Recife do Teatro Nacional. Era um justo reconhecimento após algumas décadas de apagamento. Em 2013, com o excelente ‘Tatuagem’, de Hilton Lacerda, a história do grupo voltou a me fascinar”, conta Márcio, em conversa com a Folha de Pernambuco sobre a produção do livro.


Um convite

Integrante da coleção “Nossas Histórias”, que tem Renan Quinalha à frente, a obra ganha publicação pela Autêntica. E na contramão de nomes reconhecidos do cenário cultural da época, a exemplo de Ave Sangria e Alceu Valença, o Vivencial não teve sua história exposta ao grande público, embora tenha sido inspiração até para o longa de Hilton Lacerda.




“Em 2023, lancei ‘Pernalonga: uma sinfonia inacabada’’ pela Cepe. Nele, o perfil biográfico do ator Roberto de França, uma das célebres vivecas, como eram chamados os membros do grupo, ocuparam as páginas do livro e foi nesse processo que, além de conhecer o grupo mais profundamente, tive a oportunidade de me aproximar dos integrantes”, conta Márcio, complementando que a convite de Schneider Carpeggiani e Renan Quinalha empreendu na escrita sobre o coletivo para a coleção “Nossas Histórias”.


Livro de Márcio Bastos será lançado neste sábado (10) no MAC em Olinda | Crédito: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco


Com levantamento de documentos e de pesquisas em livros e jornais, Márcio foi atrás das miudezas do grupo com o intuito de resgatar memórias e impressões, assim como (re)construir cenas que foram importantes para as ‘vivecas’.


“Acho que isso trouxe uma camada interessante para o livro, o da humanização dessa narrativa. Procurei contextualizar o Vivencial com a sua época, trazendo também outros fatos ligados à comunidade LGBTQIAPN+, à cultura, à política. Meu desejo é que, ao final, o leitor possa sentir a força e a beleza da experiência que foi o grupo”, deseja o autor.


Do zero

Entre os anos de 1974 e 1983, as vivecas ergueram um teatro do zero e montaram pelo menos trinta espetáculos, reunindo em cena artistas desconhecidos e chamando a atenção de nomes fundamentais da música brasileira. Caetano Veloso foi um deles.


A história começa de forma inesperada. Quando o hippie Guilherme Pontes Coelho, então com 23 anos, chegou ao Mosteiro de São Bento, em Olinda, disposto a se tornar monge beneditino, adotando o nome de João Batista.

Menos de um ano depois, já como noviço, dirigiu a peça que batizaria o grupo: Vivencial I – cuja estreia se deu em 24 de maio de 1974 em um galpão do Colégio de São Bento, em celebração aos dez anos da Associação de Rapazes e Moças do Amparo (Arma), pastoral católica de Olinda da qual vários futuros integrantes participavam.

O espetáculo foi montado com colagens de notícias de jornal, textos de Bertolt Brecht e Jean Genet e poemas de Fernando Pessoa, em tom de crítica à Igreja, ao machismo e ao racismo, e uma defesa da diversidade sexual.

O público jovem se empolgou, mas a direção do mosteiro não permitiu novas apresentações. Guilherme deixaria o hábito monástico nos anos seguintes.


Para se comunicar

Concebido em plena ditadura, no ano de 1974, o Vivencial se manteve em atividade até 1983. Mas, na cena LGBTQIAPN+ de Pernambuco, o grupo segue inspirando.

Em quase uma década de atividades foram cerca de 30 espetáculos. “Era um ritmo frenético, que se interessava menos em lapidar os trabalhos e mais em se comunicar”, enaltece Márcio Bastos.


Após o fim do grupo, os artistas continuaram movimentando a cena em teatros, boates, no Carnaval e nos períodos juninos. “Cinderela, um dos maiores fenômenos do teatro pernambucano, ou melhor, da cultura pop pernambucana, é uma cria direta do Vivencial”, lembra o autor, reforçando que


“O grupo acreditava na felicidade como uma arma de transformação”


No sábado, no MAC, haverá um quê a mais na porgramação, além do lançamento de “Lantejoulas no Mangue: teatro e desbunde do Vivencial”.

“Há 50 anos, foi lá onde o Vivencial se apresentou em 1976, com o espetáculo ‘7 Fôlegos’. E desde a reabertura, o museu homenageia o grupo, reforçando a ligação do espaço com as artes cênicas”, conta Márcio, que estará, na ocasião, ao lado de algumas vivecas para mais um momento revolucionário da arte em Pernambuco.


SERVIÇO

Lançamento de “Lantejoulas no Mangue: teatro e desbunde do Vivencial”, de Márcio Bastos


Quando: sábado, 10, às 14h

Onde: Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE) – Rua Treze de Maio, 149, Carmo, Olinda

Acesso gratuito

Preço do livro R$ 69, 90 (físico) e R$ 48,90 (3-book)

Informações: @marciobsts

Veja também





Fonte

Veja também

Modelo Dandara Couto é encontrada em SP, dizem assessor e amigos

Redação

Anne Carson, a poetisa canadense que moderniza a Antiguidade

Redação

Réveillon dos Milagres chega à 15ª edição em Alagoas com festas, gastronomia e bem-estar

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.