O Instituto Ricardo Brennand (IRB) recebe, a partir desta sexta-feira (25), a exposição Degas/Borges, que apresenta pela primeira vez ao público pernambucano um conjunto de obras originais do artista francês Edgar Degas (1834-1917).
A mostra, realizada em parceria inédita com o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), reúne 40 esculturas do gravurista e fotografias produzidas especialmente pela artista visual e curadora Sofia Borges.
Apresentada anteriormente no Masp, em São Paulo, a exposição chegou ao Recife na manhã desta quinta-feira (24) e foi inaugurada na Pinacoteca do IRB, no bairro da Várzea, na Zona Oeste da capital pernambucana. A abertura contou com a presença de jornalistas, colunistas, fotógrafos, artistas, críticos de arte e outros convidados.
Promovida pelo Instituto Ricardo Brennand e pelo Masp, a mostra estabelece um diálogo entre as esculturas de Degas e as fotografias de Sofia Borges, que revisita as obras do pintor francês a partir de uma perspectiva contemporânea.
A curadoria é assinada por Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, do Museu de Arte de São Paulo, enquanto a apresentação local fica a cargo de Beth da Matta, artista visual, curadora e gestora cultural.
Responsável pelas fotografias produzidas especialmente para a mostra, Sofia Borges propõe novas formas de observar as esculturas de Edgar Degas.
“Estou muito feliz em estar na abertura da exposição Degas/Borges. É uma mostra que une peças do século XIX, do artista Degas, e trabalhos que eu fiz a partir dessa coleção. Ela foi exposta primeiro no Masp, em São Paulo, e agora ela veio pra cá. Quando vierem a conhecer mais a história da Bailarina de catorze anos, porque ela é muito emblemática na história da arte moderna, mas ela também tem uma história específica muito interessante, que vocês podem encontrar no texto curatorial presente nas paredes dessa exposição”, destacou.
Na abertura, a artista ressaltou a importância de conhecer a trajetória de Marie van Goethem, retratada na célebre “Bailarina de catorze anos”. | Foto: Matheus Ribeiro/Folha de PernambucoPara a fotógrafa paulista, a história da jovem adolescente amplia as possibilidades de interpretação da peça.
Por trás da Bailarina
A história da Bailarina de catorze anos também ganha novas camadas a partir do contexto em que a escultura foi criada. Marie van Goethem, retratada por Degas, era filha de uma lavadeira e viveu em um período marcado pela pobreza e pelas desigualdades sociais na França do século XIX.
Filhas de famílias pobres, muitas meninas ingressavam no balé da Opéra de Paris como possibilidade de trabalho e sustento. Nesse ambiente, porém, também ficavam expostas a explorações, físicas e sexuais, por homens que frequentavam espaços próximos aos palcos e financiavam as apresentações.
Marie van Goethem, retratada na escultura, era uma jovem francesa de origem pobre que estudava balé na Opéra de Paris e teve sua trajetória marcada pelas condições sociais e pela exploração enfrentada por meninas de sua época. | Foto: Matheus Ribeiro/Folha de PernambucoA representação de Marie provocou críticas quando foi apresentada por Degas. A escultura original, feita em cera, foi considerada controversa por parte da crítica da época, que rejeitou a aparência da adolescente, com características físicas em desacordo com os padrões europeus, e chegou a associá-la a características “animalescas”. Após a exposição, o artista retirou a obra e voltou a trabalhar em seu ateliê.
As esculturas em cera permaneceram sob seus cuidados até sua morte e, posteriormente, foram utilizadas para a produção das versões em bronze que hoje fazem parte de diferentes coleções, entre elas a do Museu de Arte de São Paulo. Para Beth da Matta, responsável pela apresentação local da exposição, a obra preserva marcas das condições vividas por Marie.
“A Bailarina de catorze anos fala de um tempo histórico e da própria arte, mas também traz vestígios de um corpo explorado, violentado e marginalizado. Hoje, Sofia faz esse contraponto, complementando essa leitura e trazendo essa realidade para as mulheres e meninas de hoje”, ressaltou.
A artista visual e curadora Beth da Matta é responsável pela apresentação local da exposição Degas/Borges no Instituto Ricardo Brennand. De acordo com a gestora cultural, a montagem busca aproximar o olhar de Degas sobre o corpo das fotografias produzidas por Sofia Borges. | Foto: Matheus Ribeiro/Folha de PernambucoMais de um século depois, a pesquisa de Sofia Borges estabelece uma nova relação com a figura de Marie. Ao fotografar a escultura, a artista amplia detalhes e características da obra e propõe uma aproximação entre a adolescente retratada por Degas e questões relacionadas ao corpo e à condição das mulheres no presente.
Convidada por Adriano Pedrosa para pesquisar o acervo de Degas, Sofia encontrou na bailarina uma relação particular. As imagens produzidas para a exposição não apenas registram a escultura, mas exploram novas perspectivas sobre a figura de Marie e aproximam a personagem histórica do público contemporâneo.
“Ao fotografar a bailarina especificamente, Sofia se deparou com outras camadas da obra e provocou nela também outros sentimentos. É como se, hoje, ao olhar as fotografias, a gente quisesse pegar na mão da bailarina, é como se ela tivesse feito isso. É muito comovente também e a arte tem disso”, finalizou Beth da Matta.
A partir desse encontro entre a obra de Degas e o olhar de Sofia, a exposição aproxima diferentes períodos históricos. A figura de Marie deixa de ser observada apenas como uma representação da dança e passa a provocar reflexões sobre corpo, gênero, trabalho e desigualdade
Corpo e movimento
Considerado um dos grandes nomes da arte francesa do século XIX e uma figura central do Impressionismo, Degas dedicou parte significativa de sua produção à representação do corpo e do movimento.
O artista ficou conhecido especialmente pelas bailarinas, explorando diferentes posições, gestos e perspectivas em pinturas, desenhos e esculturas.
A diretora do Instituto Ricardo Brennand, Nara Galvão, destaca a parceria com o Masp para a realização da exposição Degas/Borges.
“É um privilégio enorme poder receber essa exposição, a Degas/Borges. Ela nasce de uma parceria inédita entre o Instituto Ricardo Brennand e o Masp, que é um dos museus mais visitados do nosso país. A missão maior do Instituto é fazer com que os acervos de arte de outros museus possam itinerar no Brasil de uma maneira geral e vir também para o Nordeste”, esclareceu.
De acordo com a diretora do Instituto RB, a iniciativa integra a missão de ampliar a circulação de acervos de importantes museus pelo Brasil. | Foto: Matheus Ribeiro/Folha de PernambucoO conjunto apresentado no Recife pertence ao acervo do Museu de Arte de São Paulo e foi adquirido na década de 1950 por Pietro Maria Bardi, diretor fundador do museu.
De acordo com o diretor artístico da instituição, Adriano Pedrosa, apenas três museus no mundo possuem coleções de esculturas de Degas com dimensão semelhante: o Glyptotek, em Copenhague; o Metropolitan Museum of Art, em Nova York; e o Musée d’Orsay, em Paris.
Entre as obras expostas estão Bailarina fazendo a reverência, Bailarina que calça a sapatilha direita, Bailarina ajeitando a cordinha da malha e A tina.
Um dos destaques é Bailarina de catorze anos, criada em 1880 e considerada um marco da história da escultura. A obra representa Marie van Goethem, adolescente que estudava balé na Ópera de Paris.
A trajetória de Marie também integra a leitura proposta pela exposição. Filha de uma lavadeira e de um alfaiate em dificuldades financeiras, ela ingressou no balé da Ópera aos 13 anos, mas acabou afastada da instituição.
O contexto social da jovem amplia a compreensão sobre a escultura, tradicionalmente associada à delicadeza e à beleza da figura representada.
Novo olhar sobre Degas
É a partir dessa possibilidade de ampliar a percepção sobre as esculturas que a obra de Sofia Borges se aproxima da produção de Degas. Formada em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo (USP), a artista desenvolve uma pesquisa dedicada à natureza da imagem e às diferentes formas de representação.
Para a exposição, Borges fotografou durante um ano as esculturas de Degas pertencentes ao Museu de Arte de São Paulo. O trabalho explora detalhes, volumes, músculos, olhos, gestos e fragmentos que podem passar despercebidos diante das obras originais.
As fotografias não funcionam apenas como registros das esculturas. Produzidas especialmente para a mostra, elas reinterpretam e transformam os trabalhos de Degas ao aproximar e fragmentar suas formas. A proposta é revelar novas possibilidades de percepção a partir de obras já conhecidas.
O diálogo atravessa mais de um século de produção artística. Enquanto Degas investigava o corpo e o movimento a partir da escultura, Borges retorna às mesmas obras com uma abordagem contemporânea, buscando novas imagens e sentidos em suas formas.
Na foto, da esquerda para a direita, Nara Galvão, diretora do Instituto RB; Sofia Borges, artista visual e fotógrafa; e Beth da Matta, responsável pela apresentação local da exposição Degas/Borges. | Foto: Matheus Ribeiro/Folha de PernambucoA experiência também se estende à organização do espaço expositivo, levando em consideração que as fotografias de Sofia Borges são apresentadas em grandes dimensões sobre os cavaletes de cristal concebidos por Lina Bo Bardi, arquiteta ítalo-brasileira responsável pelo projeto da sede do Museu de Arte de São Paulo na Avenida Paulista.
Os cavaletes foram criados para a sede da instituição, inaugurada em 1968, e se tornaram um dos principais símbolos do Masp e uma referência internacional em expografia.
Formados por placas transparentes de vidro apoiadas em bases de concreto, os suportes retiram as obras das paredes e permitem que sejam observadas de diferentes ângulos.
No Instituto Ricardo Brennand, os cavaletes ganham uma nova configuração ao lado das esculturas de Degas e das fotografias de Borges.
A montagem estabelece uma conexão entre São Paulo e Pernambuco e aproxima diferentes momentos da história da arte em um mesmo espaço.
“A gente sabe que existem muitas exposições que ficam concentradas no eixo Sul-Sudeste, então a nossa missão institucional é fazer realmente com que esses acervos possam vir para cá. A exposição vai estar em cartaz até o dia 10 de janeiro e a gente espera que as pessoas possam e venham visitar e que gostem. Então, não percam!”, reforçou Nara Galvão.
A exposição Degas/Borges fica em cartaz na Pinacoteca do Instituto Ricardo Brennand até 10 de janeiro de 2027. A visitação ocorre às terças e quartas-feiras, das 13h às 17h, e de quinta-feira a domingo, das 10h às 17h. Os ingressos têm valores a partir de R$ 30 (meia-entrada) e podem ser adquiridos na bilheteria do instituto.
Serviço:
Mostra Degas/Borges
- Local: Instituto Ricardo Brennand
- Período: 25 de setembro de 2026 até 10 de janeiro de 2027
- Visitação: Terças e quartas-feiras, das 13h às 17h
Quintas aos domingos, das 10h às 17h - Ingressos: R$ 30 (meia-entrada)| R$ 60 (inteira)
- Realização: Instituto Ricardo Brennand e Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp)
- Apresentação: Bradesco, por meio da Lei Rouanet
- Patrocínio: Bradesco e Cimento Nacional
- Endereço: Rua Mário Campelo, 700 – Várzea, Recife










