Em meio às disputas pela fortuna e pelo controle da Joalheria Brandão, Ulisses acumula uma dívida bem mais difícil de quitar em ”Quem Ama Cuida”. Viciado em jogos, ou ludólatra, o personagem de Alexandre Borges mergulha em uma espiral de fragilidade emocional, dependência financeira e decisões cada vez mais arriscadas na novela das 21h da Globo, criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto.
Para o ator, o drama ultrapassa a ficção e dialoga diretamente com um tempo marcado por excessos, pressões e comportamentos compulsivos. ”Hoje em dia, a nossa sociedade é compulsiva: ficamos muito em celular, são muitas coisas, muitas informações. Há uma exigência grande de você ser sempre bem-sucedido, ter sucesso, ser o macho, a pessoa que vai brilhar, que vai ser tudo”, observa Alexandre.
Aos 60 anos, ele admite que a experiência também provocou um movimento pessoal. ”O Ulisses está sendo uma oportunidade muito grande para uma autorreflexão”, revela.
As perdas provocadas atingem também os vínculos de Ulisses com a irmã Pilar, vivida por Isabel Teixeira; a cunhada Silvana, de Belize Pombal; e sua relação com o falecido Arthur, personagem de Antonio Fagundes. Dependente financeiramente da família e pressionado pelas próprias dívidas, ele tenta preservar relações que já vêm sendo corroídas por ressentimentos, interesses e pela disputa em torno da herança.
”Ulisses é aquele irmão do meio que tentou salvar o que resta de uma relação entre os irmãos, mas ficou dividido porque foi acostumado a ter ajuda financeira e foi se acomodando”, analisa Alexandre. Para ele, o dinheiro apenas potencializa fraturas que já existiam. ”A gente sabe que tudo que envolve dinheiro e herança muda muito as pessoas, são vários os exemplos do quanto isso desestrutura uma família”, lamenta.
P – O que mais despertou seu interesse em “Quem Ama Cuida” e no personagem que você interpreta? O que você viu nele que ainda não havia explorado?
R – O meu primeiro interesse na novela “Quem Ama Cuida” realmente foi a minha grande vontade de trabalhar com o Walcyr Carrasco. É a minha primeira novela com ele e eu fico muito feliz que isso tenha acontecido. Tenho orgulho de ter trabalhado com grandes autores da teledramaturgia: Manoel Carlos, Gilberto Braga, Silvio de Abreu, Gloria Perez… ter, agora, a oportunidade, nessa altura da minha carreira, com tanto tempo de tevê, também trabalhar com um autor consagrado e com quem eu nunca trabalhei, tão querido pelo público, tão eclético, que escreve coisas tão diversas. E que me ofereceu esse personagem, Ulisses, junto com Claudia Souto e Amora (Mautner, diretora).
P – Fale um pouco sobre o Ulisses.
R – É um personagem tão complexo, tão moderno, tão atual, tão contemporâneo… E de uma problemática tão grande, tão atual nesse sentido do jogo! É um homem perdido, frágil, cujo vício acaba reverberando na vida dele toda. No comportamento dele, no jeito de ser. Essas pessoas vão ficando mais deprimidas, mais inseguras, manipuláveis. E, ao mesmo tempo, Ulisses tem esse sentimento de, ainda, tentar preservar a humanidade, o amor pela família, pela mulher, pelos filhos. Acho que o Ulisses tem um caráter, assim, ali, escondido, no fundo, de uma pessoa amorosa, que quer o bem das outras pessoas. Mas acaba desestruturando totalmente a própria vida, espiritualmente, energeticamente e emocionalmente. As pessoas ficam assim mesmo: vulneráveis, perdidas, desesperadas. E acabam tomando atitudes impensáveis, que refletem esse vazio que sentem e que, de alguma maneira, tentam tapar, cobrir, preencher. Mas de uma forma artificial e, aí, o tombo é cada vez maior. A ilusão se desfaz e a realidade fica mais dura e cruel. Então, é um personagem muito importante para mim e ao qual estou me dedicando muito.
P – A novela aborda temas muito atuais e relações familiares complexas. Como você enxerga a importância de contar histórias que dialogam tão diretamente com a realidade do público?
R – É um pouco essa responsabilidade de contar uma história que está muito presente na vida real, independentemente de classes sociais. É lógico que, em um país com tantas dificuldades, com pessoas em difícil sobrevivência, o jogo, inclusive o online, traz uma (ideia de) facilidade, de coisa muito prática. Às vezes, pessoas desesperadas para tentar alguma coisa a mais acabam perdendo tudo. Então, é um drama muito triste, muito profundo, mas que a gente precisa debater, combater, alertar e informar. Devemos sempre informar muito as pessoas, principalmente a juventude.
P – Seu personagem passa por uma série de conflitos ao longo da trama. Como foi encontrar o equilíbrio entre suas qualidades e contradições?
R – Eu tento fazer com muito amor, porque o Ulisses pode ser taxado em um sentido mais estereotipado. Às vezes, a gente leva para o lado da fraqueza, da pessoa sem caráter. Mas sabemos que há toda uma história por trás, feita de traumas, de complexos de inferioridade, de ilusões, de desesperos humanos. E até uma falta espiritual mesmo, religiosa, de uma compreensão mais elevada da vida.
P – Você tem uma trajetória marcante nas novelas brasileiras. O que mudou na forma como você prepara um personagem hoje, em comparação com o início da carreira?
R – Obrigado pela trajetória marcante! O processo não muda muito. O que muda, realmente, é o nosso interior. Para o ator, a passagem do tempo é bem importante. Em cada década, em cada momento que você vive, virão personagens que estão retratando esse momento. É meio óbvio, mas é isso. Eu sou de 1966, vi toda essa mudança do analógico para o digital acontecer. E é muito bonito. É uma evolução ver como a gente olhava no começo do século passado, não é? E tudo se transformando: veio o rádio, o cinema, a televisão, o telefone, enfim, há uma acessibilidade muito maior, conectando todos. Ao mesmo tempo, nossos sentimentos mais básicos não mudam: o amor, o ódio, a raiva, a alegria, o vazio, a busca. Você descobre uma coisa, mas daqui a pouco vem outra, novos mistérios surgem e você tem de entender as coisas acontecendo, as mudanças.
P – Que tipo de mudanças marcantes você lembra?
R – Eu, quando fui pai, por exemplo, lógico que isso interferiu na minha vida e no meu trabalho. Mesmo que seja sutilmente, mesmo que seja uma coisa que não pareça perceptível para as pessoas. O envelhecimento, a perda dos pais, são situações completamente diferentes, novas, que você nunca viveu e está tentando entender. A vida é isso, são acontecimentos, reflexões dos acontecimentos, é o que vai ficar na gente daquilo e o que vai desaparecer, porque o tempo cura… mas tem coisas que você também quer manter vivas na sua memória. O ator é um personagem, é uma pessoa que tem a alma sedenta por novas histórias, por coisas diferentes, por personas diferentes, que tem essa vontade de se transmutar. A gente esquece até um pouco da gente mesmo nesse processo criativo, em uma novela. Você vive 24 horas aquilo. Então, mesmo que eu esteja fazendo coisas pessoais, o Ulisses está comigo. Minha alma o adotou e ele vai comigo para todos os lados.
P – Ao longo dos anos, você transitou entre diversos formatos e gêneros. O que cada uma dessas linguagens ainda desperta em você como ator?
R – É muito interessante essa diversidade de maneiras, de plataformas para você consumir um produto que você gosta. É um momento em que você pode assistir a tudo de uma vez, ou aos poucos. Ou da maneira tradicional também. Isso é muito interessante. Mas que tem uma coisa na televisão que eu aprendi com o diretor Jorge Fernando e ele tem razão: ver a novela ao vivo, na hora em que ela está passando. É algo único. Essa energia de que a coisa está acontecendo naquela hora, de que todo mundo está ligado na mesma coisa, na mesma hora marcada para ver. Isso é muito estimulante. Mesmo que você esteja sozinho, é diferente. Mas, claro, o conforto de poder escolher o melhor momento, o que você quer ver e como você quer ver, é maravilhoso. Traz praticidade, tem repercussão em redes sociais com cortes, com as pessoas interagindo e comentando na hora em que a novela está acontecendo. O futuro é agora! E estamos participando disso.
P – A televisão vive um momento de transformação, com o público consumindo histórias em diferentes plataformas. Como você enxerga essa nova fase da dramaturgia e de que forma ela impacta o trabalho do ator?
R – Desde muito pequeno, ainda criança, aos dez, 11, 12 anos, eu já queria ser ator. E a televisão foi muito importante nessa minha fantasia, nessa minha vontade, nessa minha decisão. Eu via novela. Brinco que eu sou um pouco também filho da televisão, ela foi um pouco a minha babá eletrônica. Fui filho de pais separados muito novo. Minha mãe trabalhava e eu ia para a escola, lutava, fazia dever, jogava uma bolinha e via novela. Começava com a das seis, das sete, a minha mãe chegava e a gente via a das nove, jantava… via os artistas e tudo era muito bem feito, com histórias brasileiras e dinâmicas, atores maravilhosos. Eu já tinha um contato com teatro, meu pai era diretor. Eu fiz muita peça infantil também. Então, eu sempre tive um pouco essa vontade de fazer novela e esse gostar de fazer novela, de trabalhar com pessoas que sempre admirei, que sempre vi.
P – Depois de tantos personagens memoráveis, o que faz um papel chamar sua atenção hoje? É a história, o desafio do personagem, a equipe ou outro fator que pesa na decisão de aceitar um projeto?
R – Poucas vezes eu disse “não” para algum trabalho, sabe? Então, quando vem uma oportunidade com Walcyr Carrasco, Claudia Souto, dirigido pela Amora Mautner, com um papel fantástico e que vai dialogar com uma problemática tão atual, contracenando com colegas e amigos queridos, talentosos, é um presente mesmo, uma dádiva. Acho que a gente só tem de agradecer. Eu agradeço ao público pelo carinho não só nesta novela, mas em todas as minhas novelas, na minha carreira. Estão sempre me estimulando, mostrando um carinho nas ruas que é muito emocionante. ”Quem Ama Cuida” ainda tem muita história pela frente, a gente está bem feliz e querendo entregar uma novela realmente inesquecível.
“Quem Ama Cuida” – Globo – Segunda a sábado, na faixa das 21h.
Sinal aberto
Em tempos de streaming, consumo sob demanda e produções pensadas para públicos cada vez mais segmentados, Alexandre Borges continua enxergando na televisão aberta uma força difícil de substituir. ”Novela é um produto de cultura muito importante, especialmente para as classes menos privilegiadas, porque é algo que faz o brasileiro sonhar”, defende.
Para ele, a capacidade de uma história chegar simultaneamente a milhões de pessoas ainda carrega um valor especial. ”É fantástico ter a oportunidade de falar para tanta gente, de exercer minha profissão e mostrar meu trabalho para milhões de brasileiros e pessoas de fora do país”, comemora.
Essa abrangência também aumenta, em sua visão, a responsabilidade de quem trabalha no gênero. ”Cada cantinho do país tem uma tevê e o povo brasileiro é muito apaixonado por novela. Então, é realmente um trabalho de muita responsabilidade”, afirma. Alexandre se orgulha especialmente de alcançar quem nem sempre tem outras formas de acesso à produção cultural.
”Tenho muito orgulho de poder entreter pessoas que, às vezes, não têm condições de ter acesso a outro tipo de cultura”, ressalta. E segue reconhecendo na estrutura que sustenta os folhetins em que atua como um privilégio profissional. ”A Globo é uma emissora realmente fantástica, que investe em dramaturgia, na produção, no seu casting, nos diretores, para dar o melhor para o público”, valoriza.
Tempo a favor
A chegada aos 60 anos, completados em fevereiro, encontra Alexandre Borges diante de uma trajetória que ele próprio dificilmente acreditaria conquistar quando começou na televisão. Em novembro, serão 33 anos desde sua estreia em novelas como protagonista de ”Guerra Sem Fim”, exibida pela Manchete entre 1993 e 1994, produção em que contracenou com Júlia Lemmertz, com quem viria a se casar.
Desde então, acumulou encontros com alguns dos nomes que ajudaram a construir a história da dramaturgia brasileira. ”Nunca imaginei que ia fazer, sei lá, 15, 16 novelas, minisséries, ou trabalhar com Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Antonio Fagundes, José Wilker, Tarcísio Meira ou Francisco Cuoco”, enumera.
A lista se estende também aos profissionais responsáveis pelas histórias que interpretou. Manoel Carlos, Silvio de Abreu, Gilberto Braga, Gloria Perez e Maria Adelaide Amaral estão entre os autores de sua trajetória, que agora ganha a primeira parceria com Walcyr Carrasco. ”Quando eu me vi frente a frente com essas pessoas foi muito emocionante”, admite Alexandre.
Mais do que contabilizar trabalhos, porém, ele percebe a passagem do tempo como matéria-prima para a atuação. ”Para o ator, a passagem do tempo é bem importante. Em cada década, em cada momento que você vive, virão personagens que estão retratando esse momento”, avalia.
