Artista permanente, mesmo após sua partida, Moraes Moreira volta a ocupar os palcos brasileiros em uma celebração que une música, teatro e dança.
O espetáculo “Moraes Musical Moreira” chega ao Recife nesta sexta-feira (4), para quatro sessões até domingo (6), no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem. Essa será a segunda parada da turnê nacional que abre as celebrações pelos 80 anos do cantor e compositor baiano, a serem completados em 2027.
Nascido em Ituaçu, no interior da Bahia, Moraes Moreira (1947-2020) construiu uma trajetória marcada pela mistura de ritmos e pela aproximação com a cultura popular.
No espetáculo, essa história é revisitada desde a infância no sertão baiano, passando pela juventude em Salvador, pelos Novos Baianos e pelo Rio de Janeiro, até a relação construída com Pernambuco e o frevo.
Moraes é frevo
A passagem pelo Recife tem um significado especial para a montagem. Ainda criança, Moraes ouvia frevo pelas rádios e alto-falantes no interior da Bahia, referência que permaneceu ligada à sua trajetória mesmo diante da pluralidade de ritmos explorados pelo artista.
Em 1998, ele recebeu o título de Cidadão do Recife e consolidou a ligação com a cultura pernambucana, relação que também aparece na obra.
Três anos antes, Moraes regravou “Vassourinhas”, clássico do frevo pernambucano, e, no ano de 2024, a conexão ganhou novo capítulo com o álbum “Moraes é Frevo”, produzido pela Orquestra Frevo do Mundo.
Agora, a música e a memória do artista chegam ao palco do Teatro Luiz Mendonça, em uma montagem que busca apresentar ao público diferentes faces de sua criação.
Dirigido pela atriz e coreógrafa Ana Paula Bouzas, “Moraes Musical Moreira” não pretende reproduzir uma biografia documental. Para a diretora, levar a complexidade da obra de Moraes ao palco exigia também trazer a presença do povo que inspirou sua criação.
“A gente está muito feliz de estar aqui no Recife. É um lugar que ocupa um espaço imenso dentro de Moraes. A gente tem na nossa encenação essa mistura, esse amálgama do elenco, dos atores e atrizes, com a banda”, ressaltou.
“Então, eram muitas parcerias, muitas referências, daí a gente precisou também eleger e sofremos muito porque muitas coisas estavam de fora, muitos sucessos, o Moraes fez muitos sucessos. Sucessos para criar duas grandes peças populares”, finalizou a regente.
À frente do espetáculo, Ana Paula Bouzas aposta em uma narrativa que mistura teatro, dança e música para percorrer a diversidade da obra de Moraes Moreira. | Foto: Bianca Amorim/Folha de PernambucoA dramaturgia de Fábio Espírito Santo constrói uma narrativa fabular em que duas versões de Moraes percorrem uma jornada em busca da Musa Música, acompanhadas pelo chamado Bloco do Prazer.
Em cena, Cris Meirelles interpreta o Moraes que atravessa diferentes fases da vida, da infância à maturidade, enquanto Rodrigo Sestrem assume a figura do Poeta-Cantador, uma versão mais experiente do artista que conduz a história como um narrador e estabelece uma relação de cumplicidade com o público.
Ao lado deles, um elenco de artistas brincantes e uma banda com seis músicos executam ao vivo a diversidade sonora da montagem.
A diretora destaca que o espetáculo percorre diferentes universos musicais do compositor, do rock ao baião, do frevo ao chorinho, passando ainda por canções ligadas ao Carnaval e ao São João.
Uma obra plural
A construção do musical partiu justamente do desafio de dar conta de uma produção extensa e diversa.
De acordo com Cris Meirelles, a intenção foi fazer com que o público percebesse a dimensão da obra de Moraes e descobrisse canções que talvez não associasse imediatamente ao compositor.
“Vocês podem imaginar que foi um desafio grande. Ele é um artista muito emblemático pro Brasil, muito, muito, muito emblemático na cultura baiana, com uma diversidade musical muito grande. A gente queria que o público dissesse: ‘Caraca, velho! Como esse cara fez isso tudo? Como foi isso tudo?’. Esse esse era o nosso desejo inicial”, relatou.
Para o ator, interpretar o artista também representa um mergulho no violão popular e em uma produção que reúne diferentes influências da música brasileira.
“A gente faz um arco estético, de alguma maneira de linguagens musicais muito amplos dentro da obra. Então, acho que o desafio desde o começo era dar conta dessa complexidade musical. A gente queria falar de Morais e a sua obra e a sua criação”, afirmou o mineiro.
O ator Cris Meirelles interpreta uma das versões de Moraes Moreira no musical, acompanhando o artista desde a infância no sertão baiano até a maturidade. Além disso, o músico atravessa diferentes momentos da trajetória do compositor, em uma montagem que revisita suas referências e sua pluralidade musical. | Foto: Bianca Amorim/Folha de PernambucoRodrigo Sestrem, por sua vez, define sua presença em cena como a de um poeta cantador que “pinta” a trajetória de Moraes enquanto o Vaqueiro do Som a vivencia.
“Eu sou esse ‘quase um maestro’, quase um ser onisciente da história que vai contando isso, vivendo e compartilhando, como um cúmplice do público, as histórias. Está sendo muito bom viver essa essa vida do Moraes de uma forma tão lúdica e tão magistralmente dirigida e escrita por Ana Paula e Fábio”, destacou.
O artista destaca ainda que o grande trunfo da montagem está no coletivo. Em vez de tentar imitar o artista, o elenco brinca com suas referências, encontros e inspirações para construir uma representação poética de sua trajetória.
“Não é uma ideia de mimetizar, de imitar, de tentar. A gente não tenta, a gente brinca, e eu acho que o grande trunfo é o coletivo. Eu acho que é esse coletivo o que dá força para esse projeto”, finalizou o compositor baiano.
Poeta e músico baiano, Rodrigo Sestrem interpreta o Poeta-Cantador, personagem que conduz parte da narrativa e compartilha com o público as histórias de Moraes Moreira. No papel do Poeta-Cantador, o ator transforma versos e memórias em fio condutor da trajetória do artista apresentada no palco. | Foto: Bianca Amorim/Folha de PernambucoRecife e futuro
No Recife, o público poderá conferir o espetáculo nesta sexta-feira (4), às 20h; no sábado (5), também às 20h; e no próximo domingo (6), às 16h e às 20h.
Os ingressos podem ser comprados por meio do site oficial do Teatro Luiz Mendonça e custam a partir de R$ 25, com classificação livre e duração de 120 minutos.
A montagem é apresentada pelo Ministério da Cultura e pela BB Seguros, com produção da Maré Produções Culturais e realização por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet.
Depois da estreia em Salvador, a produção segue para Brasília, de 24 a 26 de setembro, e encerra a primeira etapa da turnê no Rio de Janeiro, onde Moraes viveu por quase cinco décadas, entre 5 e 29 de novembro.









