Para falar sobre Alceu Valença, é de bom tom ter “mais doidice” de ideias e ouvir “de novo e de novo” as centenas de músicas que compõem o seu cancioneiro.
Afinal, para quem afirma que “o tempo em si não tem fim, não tem começo”, obviedades e cronologias destoam do quão “livre, louco, erótico e profundo” é o desconstruído artista pernambucano.
E foi a partir de alinhamentos dessa natureza que “Anunciação – O Musical de Alceu Valença” foi concebido e é assim que será apresentado ao público pernambucano desta quarta-feira (2) até domingo (6) no Teatro do Parque.
Idealizado por Miguel Colker e celebrativo aos 80 anos de vida de Alceu, recém-completados no último 1º de julho, a montagem faz uma imersão no imaginário do cantor e compositor de São Bento do Una, com texto e dramaturgia afinados em (re)contar uma história que passa por “Papagaio do Futuro”, “La Belle de Jour”, “Como Dois Animais” e “Estação da Luz”, dentre outras narrativas musicadas, sinônimos de seus passeios por Recife e Olinda, e também pelo Rio de Janeiro e mundo afora. A direção musical fica por conta de Ricco Viana.
“Alceu e sua obra estão impregnados na minha vida, como na de todo brasileiro – todo mesmo. (…) Eu e a equipe criativa da peça ouvimos e ouvimos de novo e de novo mais de 300 canções dele. Foi como se eu tivesse descoberto que existia um tesouro embaixo da casa que eu moro desde criança”, entusiasma-se, em conversa com a Folha de Pernambuco, Duda Rios, ator pernambucano que assina com Luiza Loroza texto e dramaturgia do espetáculo.
Os dois, aliás, se juntam ao elenco da peça formado por Maria Pérola, Juzé, Jef Lyrio, Beto Lemos e Natascha Falcão.
Sem cronologia
O reforço na atemporalidade da obra de Alceu, assim como no fato de não ser um musical cronológico e biográfico, é reiterado na fala de Duda Rios que ressalta a necessidade do texto “ser maluco” e não-linear, em movimentos impulsionados por simbologias, afetividades e irreverências.
“Alceu é muita coisa, mas o que considero mais relevante de se trazer para um espetáculo sobre ele é a sua autenticidade, liberdade, irreverência, maluquice, e a sua paixão pela sua ancestralidade e cultura pernambucana. (…) Queremos transmitir pulsão de vida ao público, pois é o que sinto quando ouço e vejo Alceu”, complementa Rios.
No palco, o protagonista Alceu Valença ganha vida com todo o elenco, em manifestações individualizadas e ao mesmo tempo coletivas.
Musical conta com elenco de atores em que todos vivem Alceu | Crédito: Any Duarte/Divulgação
“Todos são Alceu na medida em que todos trazem sua singularidade e maluquice para a cena. Somos brincantes, emboladores (…). Duda Maia tem esse dom de fazer as pessoas se agregarem”, conta Rios, sobre a diretora artística da montagem”.
Ele, aliás, ao lado da também pernambucana Natascha Falcão vive as duas geografias maiorais da obra de Alceu, Recife e Olinda – também são interpretadas pelo paraibano Juzé e por outro nome da “Terra dos Altos Coqueiros”, Maria Pérola. “Somos quatro corpos contando e vivendo as duas cidades. É uma doideira massa”, celebra Duda Rios.
Sotaque
A propósito, após estreia no Rio, o musical chega ao Recife, fato que, para Rios, é “o ápice”, “a magia maior”. “Eu pensava em apresentar aqui a cada momento da escrita do texto. Quando li trechos para amigos, alguns me perguntaram: ‘mas isso não é muito específico de lá? (de Pernambuco)’? Eu pensava: ‘aprendi o que era Abbey Road ouvindo os Beatles. Pois que aprendam nossa língua e nosso território vendo ‘Anunciação’”.
Que assim seja. Na verdade, já é desde “Molhado Suor”, primeiro álbum solo lançado por Alceu na década de 1970. A partir de então, a embolada musical do tempo ganhou novos e inigualáveis rumos.
SERVIÇO
“Anunciação – O Musical de Alceu Valença”
Quando: de amanhã (2) a sexta (4), às 20h; sábado (5) e domingo (6), às 18h
Onde: Teatro do Parque – Rua do Hospício, 81, Boa Vista
A partir de R$ 80 via Sympla
Informações: @alceuomusical
