Em 1995, Fernanda Abreu queria uma música de pista que, mesmo eletrônica e dançante, tivesse uma identidade impossível de confundir com a de outro país. Trinta anos depois, essa experiência volta a reverberar.
“Da Lata 30 Anos” transformou a revisão daquele álbum em um projeto que reúne show, documentário, livro e vinil. A celebração chega ao Recife em 28 de novembro, no festival No Ar Coquetel Molotov, no Campus da UFPE.
A faísca veio de um arquivo guardado. O videomaker Paulo Severo encontrou 40 horas de fitas Super VHS gravadas durante a produção do disco. Fernanda passou dois meses revendo registros de estúdio, videoclipes, sessão de fotos e a estreia da turnê.
“Quando eu ouvi o disco, que era para mim um ponto-chave, eu percebi que para mim não soou um disco datado”, conta. Ao rever o material, ela percebeu um álbum que ainda fala de um Brasil e de um Rio de Janeiro existentes hoje.
A lata volta à cena
Desse mergulho nasceu um projeto que recupera diferentes camadas do álbum. O documentário, dirigido por Severo, costura imagens de 1995 a depoimentos atuais. O livro reúne fotografias, recortes e memórias da criação. O vinil recupera uma edição que não existiu na época: “Da Lata” havia saído originalmente apenas em CD.
O show surgiu quase por acidente. Fernanda não pretendia montá-lo quando começou a organizar o material, mas a receptividade do documentário e os pedidos de apresentações mudaram os planos. A estreia aconteceu em abril deste ano, no Queremos! Festival, no Rio, e o show ganhou estrada.
No palco, nove faixas de “Da Lata” convivem com “Rio 40 Graus”, “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá”, canções que dialogam com o universo estético do álbum, e outras referências. Há um bloco de funk carioca e outro de música black brasileira.
A ideia é mostrar não apenas as canções, mas o “HD musical” que alimentou o disco. O visual mistura imagens de 1995 e criações atuais de Luiz Stein. Jovi Joviniano e Che Leal, da formação original, estão no palco.
O funk ganha o centro
Se “Da Lata” ajudou a aproximar o funk carioca de uma linguagem pop brasileira, o tempo também permitiu enxergar melhor o tamanho dessa operação.
Fernanda acompanhou a transformação de um gênero produzido nas periferias em fenômeno central da música brasileira – embora a disputa por legitimidade não tenha acabado.
Para ela, o preconceito contra o funk tem uma raiz mais profunda do que discussões sobre letras ou estética. “O pano de fundo desse preconceito é o racismo estrutural”, afirma.
A democratização dos meios de produção ampliou essa presença: home studios, internet e celulares reduziram a dependência das grandes gravadoras.
Fernanda já trabalhava com computadores, samples e sequenciadores quando decidiu aprofundar a mistura de samba, funk carioca e música eletrônica. Queria que a base fosse imediatamente reconhecida como brasileira.
“Eu queria fazer uma música de pista, dançante, eletrônica, uma mistura, mas eu queria que essa música, a base dela, fosse imediatamente identificada como uma música dançante e eletrônica brasileira.”
Trinta anos depois, Fernanda Abreu segue atendendo pela alcunha “Garota carioca suingue sangue bom” e a sua mistura – mais brazuca, impossível – continua conversando com os tempos de hoje, honrando a linhagem da música “antropofágica” brasileira.
SERVIÇO
Festival No Ar Coquetel Molotov
Quando: 28 de novembro de 2026
Onde: Campus da UFPE – Cidade Universitária – Recife-PE
Ingressos: a partir de R$ 95, à venda no ShotGun
Instagram:@noarcm/@fernandaabreureal
