Materializar um processo criativo é também uma forma de marcar que ele está concluído. É poder sentir com quase todos os sentidos aquilo que antes existia como um fiapo de pensamento e que, depois de pronto, pode passar para outras mãos, seja como presente ou como empréstimo.
É dessa experiência que nasce a Vida-Lixo Magazine Vol.0, uma revista trimensal de jornalismo cultural, desenvolvida pelo jornalista, ilustrador e músico pernambucano, Fernando Athayde, que descreve o projeto, lançado pelo selo independente Elefantes Na Sala, como um “certo grau de ousadia e um pouquinho de desespero”.
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Antes, vamos entender o cenário. Vagar pela rua e, por acaso, dar de cara com uma banca, folhear uma revista, levá-la para casa, sentir o cheiro das páginas novas já se tornou algo raro, mas não obsoleto. Com os dispositivos móveis na mão, a nova geração trocou a Revista Recreio pelos vídeos da Galinha Pintadinha. Seria esse o fim da materialidade?
Em números
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf Nacional), a publicação de materiais impressos (livros, revistas, manuais e guias) representa o segundo maior segmento da indústria gráfica do País (21% de participação). Uma das figuras incluídas nessa porcentagem é o próprio Fernando. No início de 2026, ele decidiu publicar sua própria revista cultural, compilando seus textos da newsletter e ilustrando cada página.
Vendo o trabalho de ilustração se tornar uma demanda para a Inteligência Artificial (IA), Athayde arregaçou as mangas e em duas semanas finalizou o projeto editorial. Para surpresa (e alívio) dele, as 40 impressões de “Vida-Lixo” foram todas compradas nos quatro dias de pré-venda, no início desse mês. Resultado? Mais pedidos de quem não conseguiu garantir a primeira edição da publicação e uma nova leva do “Vol.0” será imprimida.
Paixão
Esse crescente interesse por produtos analógicos parece, à primeira vista, um mistério. A revista de Athayde, por exemplo, tem o PDF disponibilizado gratuitamente. Mas, afinal, o que a impressão oferece que o digital não consegue entregar?
“Alma. Existe um objeto que possui uma aura inexplicável. É cativante, que te afeta mais do que você pode ver. As paixões são assim”, diz Fernando, que dormia abraçado aos gibis que ganhava do pai na infância.
Nesse aspecto, “Vida-Lixo” é uma série de investigações sobre o “Brasil superfície” – contrariando o termo “Brasil profundo”, buscando retratar narrativas dos grandes centros urbanos.
Para Athayde o mais grandioso é poder transformar uma ideia em algo que pode ser visto, tocado, guardado e compartilhado.
“Para eu namorar com uma publicação, só com uma relação material mesmo. No digital, eu vou ficar abraçado com o tablet?”, questiona.
SERVIÇO
Saba mais sobre a reimpressão da revista “Vida-Lixo” no site da editora Elefante na Sala: loja.elefantesnasala.com
