A cantora e compositora Juliane Gamboa lançou, nesta quinta-feira (20), uma nova leitura de “Coragem Mulher”, música de Ivan Lins e Vitor Martins, que chega às plataformas digitais em formato de single.
Quatro décadas depois de sua criação, a faixa ganha uma nova perspectiva ao ser interpretada por Juliane em parceria com Ivan Lins, autor da composição.
A gravação dá continuidade ao movimento de expansão da trajetória artística de Juliane, que lançou o primeiro álbum, “Jazzwoman”, em 2024.
O trabalho revelou uma artista interessada em atravessar diferentes referências musicais e lhe rendeu uma indicação ao Latin Grammy de Artista Revelação em 2025, em uma disputa que reuniu nomes de países de língua espanhola.
A escolha de “Coragem Mulher” também carrega um forte componente pessoal. A sugestão para que Juliane revisitasse a obra partiu de João Lins, filho de Ivan.
A música foi concebida em 1980 como homenagem a Marli Pereira dos Santos, conhecida como Marli “Coragem”, que enfrentou a Polícia Militar após denunciar 12 agentes pelo assassinato de seu irmão, Paulo Pereira Soares. Anos mais tarde, em 1993, o filho de Marli também foi morto pela polícia.
“Estava procurando uma música inédita para o meu próximo disco e fiquei muito tocada, muito mexida com toda a história, além de impressionada por nunca ter ouvido falar no nome de Marli Pereira Soares, mesmo estando há alguns anos dentro do movimento negro. Tudo o que essa música simboliza tem muito a ver com quem eu sou, com a história das mulheres da minha família”, afirma Juliane.
Ivan Lins recorda que a composição nasceu depois que ele e Vitor Martins tomaram conhecimento do episódio pela imprensa.
“Nunca tínhamos visto uma mulher peitar a Polícia Militar do Rio de Janeiro, que já tinha fama de muito violenta. Os policiais ameaçaram matar a ela e a todos da família, caso falassem alguma coisa, mas a Marli não se intimidou: foi ao comandante, no quartel, e os denunciou. Botaram as tropas em formação e ela foi apontando. A gente se comoveu muito com a história dela e achávamos que a música poderia também ajudar a protegê-la. Imagino que hoje ela tenha uns 70 anos, viva em outro lugar e com outro nome”, relata o compositor.
A nova gravação também concretiza um desejo antigo de Ivan Lins, que, segundo Juliane, manifestava interesse em ouvir a canção na voz de uma mulher.
Para a cantora, a reunião entre os dois artistas ganha significado justamente por atualizar uma história que permanece ligada a questões ainda presentes na sociedade brasileira.
“Esse lindo encontro com o Ivan, 46 anos depois, vai contar essa história de outra maneira, mas, ao mesmo tempo, nossa realidade ainda é muito parecida. Eu espero que essa música toque o coração de todos e traga a reflexão de que muito ainda precisa ser feito. De que a gente precisa ter muita coragem”, diz.
O compositor também atribui à nova versão um papel que ultrapassa a dimensão musical.
“Tenho muita esperança de que a Juliane consiga, através dessa canção, mexer com as pessoas. Politicamente é necessário, também. Tudo é política em arte, e é importante que as novas gerações se comprometam a melhorar o Brasil no sentido humanístico. A intolerância racial, social, religiosa, cresce no mundo todo. Canções como essa são cada vez mais necessárias”.
Para Juliane, a sessão de gravação representou ainda uma aproximação com um compositor que faz parte de sua formação musical. Antes de conhecer pessoalmente Ivan, ela teve contato com sua produção por meio de intérpretes que registraram suas canções, entre eles Elis Regina.
“Foi muito generoso, da parte do Ivan, vir gravar, trocar ideias. Gosto de fazer música com sinceridade, então, me senti em casa, muito abraçada”, conclui a cantora.
