A lista dos novos Patrimônios Vivos de Pernambuco foi definida nesta quinta-feira (6), após deliberação do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC).
Foram contemplados: Teco Agamenon, de Triunfo; o Terreiro de Mãe Amara, do Recife; Mestre João Paulo, de Nazaré da Mata; o Barracão Mãe Nadja, também da capital; o Gres Preto Velho, de Olinda; o Maracatu Cruzeiro do Forte, do Recife; Mestra Di, de Olinda; a Família Vitalino, de Caruaru; Mestre Zé Negão, de Camaragibe; e Juliana Pankararu, de Jatobá.
Com as novas escolhas, o Estado passa a contar com 125 Patrimônios Vivos reconhecidos oficialmente. A iniciativa contempla representantes de expressões como maracatu, coco, samba, religiosidades de matriz africana, medicina tradicional indígena e capoeira, entre outras manifestações que compõem o patrimônio imaterial pernambucano.
A entrega oficial dos títulos ocorrerá em 17 de agosto, durante a abertura da 19ª Semana Estadual do Patrimônio Cultural de Pernambuco, data em que também é celebrado o Dia do Patrimônio Cultural.
Segundo o presidente do CEPPC, Antiógenes Viana, a seleção foi precedida por uma análise criteriosa das candidaturas.
“Este processo envolveu a escuta dos candidatos e da comissão de pareceristas. Um exame detalhado de todas as candidaturas neste que é o concurso mais importante para a premiação da cultura popular de Pernambuco”, afirma.
Os contemplados passam a receber uma bolsa mensal vitalícia – atualmente fixada em R$ 2.479,41 para pessoas físicas e R$ 4.958,85 para grupos culturais – e assumem o compromisso de participar de atividades voltadas ao ensino e à difusão de seus conhecimentos, promovidas pelo Governo de Pernambuco por meio da Fundarpe e das secretarias estaduais de Cultura e Educação.
Para a presidente da Fundarpe, Renata Borba, o reconhecimento fortalece o papel dos detentores desses conhecimentos tradicionais na preservação da identidade cultural do Estado.
“Hoje é o dia que o Governo de Pernambuco reconhece, através do Conselho de Preservação do Patrimônio, os novos patrimônios vivos que passam, a partir de hoje, a ter esse papel de transmitir seus saberes e tradições. São mestras e mestres, grupos, que são notório saber nesses fazeres que falam da nossa identidade enquanto pernambucanos”, destaca.
A edição de 2026 registrou 205 inscrições, o maior número desde a criação do concurso, em 2002. A secretária interina de Cultura, Ana Paula Jardim, ressaltou a representatividade dos selecionados.
“Tivemos a honra hoje de estar na Casa dos Conselhos para esta votação, reconhecendo fazedores de cultura que representam manifestações da nossa cultura popular, valorizando saberes tradicionais de Pernambuco”, disse.
O vice-presidente do conselho, Elinildo Marinho, chamou atenção para a diversidade do grupo escolhido.
“Neste dia histórico em que deliberamos sobre os 10 novos Patrimônios Vivos, dentre eles duas mulheres de representações potentes nas tradições indígena e da capoeira. Temos terreiros, tanto religiosos quanto em suas representações, um de maracatu e outro da escola de samba. Este ano trouxemos um aquilombamento, uma pretitude para dentro desse contexto de todo o Estado de Pernambuco”, ressaltou.
O edital deste ano também incorporou medidas para ampliar a participação dos candidatos. Pela primeira vez, foi possível apresentar a inscrição em formato semi-oral, por meio de vídeo, dispensando a elaboração obrigatória de um texto escrito.
Além disso, a etapa de defesa das candidaturas pôde ser realizada presencialmente ou pela internet, conforme a preferência dos concorrentes.
Instituído há 24 anos, o título de Patrimônio Vivo é uma das principais políticas públicas de salvaguarda da cultura popular em Pernambuco.
Além do apoio financeiro, o programa busca assegurar que os conhecimentos acumulados por mestres, mestras e coletivos culturais sejam compartilhados com novas gerações, contribuindo para a continuidade das tradições que marcam a identidade do Estado.
Conheça os 10 novos Patrimônios Vivos de Pernambuco:
TECO DE AGAMENON – Início e Tradição: Agamenon Gonçalves Lima Filho, o Teco de Agamenon, é brincante e artesão da tradição do Careta em Triunfo-PE desde 1965 (quando tinha 8 anos). Aprendeu na prática a confeccionar máscaras, chapéus, relhos e vestimentas com os mais velhos.
Ensino e Oficinas: Dedica sua vida a repassar esse saber cultural para crianças e jovens em seu quintal, escolas e projetos. Expandiu sua atuação para outros municípios e estados (como no Ceará, em parceria com o SESC), além de expor e comercializar suas peças em feiras de artesanato local.
FAMÍLIA VITALINO – Linhagem e Tradição: O grupo é formado por descendentes diretos de Mestre Vitalino, com foco na linhagem de seu filho, Severino Vitalino. Há mais de 60 anos, atuam no Alto do Moura (Caruaru-PE) e mantêm há 54 anos suas atividades na mesma residência e oficina histórica.
Domínio do Saber-Fazer (“Escola Vitalina”): Atualmente na quarta e quinta gerações, a família preserva todo o ciclo produtivo da arte figurativa em argila (extração, preparo do barro, modelagem, paleta de cores tradicional e queima), retratando o cotidiano e a cultura do povo agrestino.
MESTRE ZÉ NEGÃO – Origem e Formação: Nascido José Manoel dos Santos em 1950, de ascendência negra e indígena, trabalhou desde a infância no corte de cana. Iniciou sua vivência na cultura popular aos 13 anos, passando por folguedos, escolas de samba, Cavalo Marinho, ciranda e coco de roda.Guardião do Coco de Senzala: Como Mestre, preserva o Coco de Senzala, manifestação afro-indígena com ritmo e cadência ancestral dos engenhos. Cria composições autorais inspiradas em sonhos e registradas por sua companheira, Mestra Fátima, abordando a luta contra o racismo e o trabalho na terra.
Ações Comunitárias e o Projeto LAIA: Radicado em Camaragibe-PE desde 1978, fundou o Projeto Negão (1994) e o Laboratório de Intervenções Artísticas – Laia (2003). Atuou ativamente no desenvolvimento do Loteamento João Paulo II, articulando desde mutirões para moradia e saúde até a criação do espaço cultural Canto das Memórias.
JULIANA PANKARARU – Identidade e Origem: Indicada pelo Grupo Curumim Gestação e Parto, Juliana Maria da Silva (Juliana Pankararu) é uma mulher indígena de 52 anos, residente no Território Indígena Aldeia Saco dos Barros, em Jatobá (Sertão de Pernambuco).
Saberes Ancestrais e Medicina Tradicional Indígena: Atua como mendeira (benzedeira), raizeira e parteira tradicional. Aprendeu por meio da oralidade com sua mãe, avó e tias, utilizando plantas do território indígena para chás, banhos e garrafadas.
MESTRA DI – Origem e Identidade: Nascida em Olinda (PE) em 1973, Adriana Luz do Nascimento (Mestra Di) é uma mulher afroindígena e periférica, mãe de duas filhas e com uma trajetória marcada pelo frevo (onde foi aluna do Mestre Nascimento do Passo) e pela capoeira.
Carreira na Capoeira: Iniciou suas práticas aos 13 anos (1985) no Centro de Capoeira Angola Mãe sob o ensino de Mestre Sapo. Formou-se Contramestra em2011 e foi diplomada e reconhecida internacionalmente como Mestra de Capoeira Angola em 2016 e 2019.
Pionorismo Internacional e Atuação: Em 1997, tornou-se a primeira mulher brasileira a lecionar Capoeira Angola na Europa, lecionando por anos na Alemanha e na Itália antes de retornar ao Brasil em 2004 para atuar em eventos e projetos voltados a mulheres capoeiristas.
MARACATU CRUZEIRO DO FORTE – Origem e Fundação: Fundado em 1929 no bairro dos Torrões (zona oeste do Recife), o grupo surgiu espontaneamente do convívio de trabalhadores rurais da Zona da Mata Norte. Com quase um século de atuação, é uma referência histórica do Maracatu de Baque Solto no ambiente urbano.
Sede e Ação Sociocultural: Atualmente localizado no bairro do Cordeiro, o grupo desenvolve um trabalho sociocultural focado na formação de artesãos. Ensina jovens e adultos a bordar e confeccionar os figurinos, adereços e golas tradicionais, capacitando membros da comunidade para o mercado de trabalho.
GRES PRETO VELHO – Origem e Identidade: Fundado em 24 de dezembro de 1974 pela tradicional Família Lobo e por lideranças como Mestre Zuza, o Preto Velho fica no Sítio Histórico de Olinda (Alto da Sé). É a única escola de samba em atividade contínua no município, representando mais de 50 anos de afirmação do samba e das tradições afro-brasileiras na cidade.
Formação e Transmissão de Saberes: Funciona como um espaço comunitário de ensino contínuo de percussão, dança, confecção artesanal de indumentárias e gestão cultural. A famosa “Bateria Nota 10” é o principal símbolo desse processo educativo que envolve crianças, jovens e adultos, principalmente em ensaios e oficinas aos domingos.
BARRACÃO DE MÃE NADJA – Origem e Identidade: Fundado em 1996 no bairro do Ibura (Recife) por Mametu Baléginam Nadja de Angola Goméia, o Terreiro Kaiangu Kia Itembu (Abassá Axé Oyá Balé Omim) é um centro sagrado do Candomblé de Nação Angola (matriz Bantu). Atua como um espaço de resistência, fé, apoio social e memória ancestral para a comunidade periférica local.
Metodologia de “Escola Viva”: O terreiro funciona como uma escola viva de formação comunitária. A transmissão do conhecimento ocorre na prática diária e no convívio intergeracional por meio da oralidade, observação, repetição ritual e mutirões.
MESTRE JOÃO PAULO – Trajetória e Título: Nascido em Vicência e radicado em Nazaré da Mata (Mata Norte de PE), Mestre João Paulo tem mais de 40 anos dedicados ao Maracatu de Baque Solto (Maracatu Rural). Ficou popularmente conhecido como o “Papa do Maracatu” após o lançamento de seu primeiro CD em 2002, sendo reconhecido como um dos maiores poetas e mestres de sua geração.
Mestria e Transmissão de Saberes: É fundador, presidente e mestre do Maracatu Leão Misterioso (criado em 1990). Ensina de forma oral e prática a novos brincantes tanto a poética (versos, rimas e improvisos) quanto o artesanato e adereços (confecção de golas, chapéus, surrões e guiadas). Serviu de inspiração e formação para diversos outros mestres da cultura popular.
TERREIRO DE MÃE AMARA – Origem e Identidade: Fundado em 18 de junho de 1945 por Mãe Amara de Xangô Aganjú (Obá Meji) no bairro de Dois Unidos (Recife-PE), possui mais de 80 anos de atuação contínua na preservação, salvaguarda e difusão da tradição e cultura nagô em Pernambuco.
Liderança Matriarcal e Transmissão: Organizado sob uma estrutura organizacional e familiar matriarcal, a liderança e os saberes ancestrais são mantidos por suas descendentes diretas (como a Yalorixá Maria Helena Mendes Sampaio e suas sucessoras), que garantem a formação contínua por meio da oralidade e vivência ritual.
Projetos Culturais e Políticos: É berço e articulador de iniciativas culturais e sociais como o Afoxé Oyá Alaxé, o Balé Nagô Ajô, o Coral Amadê Korin Nagô e espetáculos formativos. Destaca-se também pelo pioneirismo ao criar a primeira Rede de Mulheres de Terreiro do Brasil, fortalecendo a liderança feminina e o combate ao racismo religioso.
