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Memorial Tiago West nasce para manter vivo o legado do artista

Memorial Tiago West nasce para manter vivo o legado do artista


Poucos meses depois da partida precoce do poeta Tiago West, sua obra começa a ganhar novos horizontes. O anúncio da criação do Memorial Tiago West, feito neste domingo (2), durante um debate sobre a obra do artista no Festival A Letra e a Voz, no Salão Nobre do Teatro de Santa Isabel, transforma o luto em permanência: além de preservar a memória, o projeto pretende garantir que a poesia visual criada por West continue circulando, encontrando novos leitores e atravessando o tempo.


Um dos homenageados desta edição do festival, Tiago foi lembrado não apenas como poeta, artista visual e cronista afetivo do Recife, mas como alguém cuja criação permanece em movimento. O memorial nasce justamente com esse propósito.




Uma casa para a poesia

O projeto já conta com um endereço físico: uma sala instalada na Casa Lontra, onde seus quadros voltarão a ser reproduzidos. A comercialização oficial das obras retorna neste mês de agosto, por meio do perfil de Instagram do artista, agora administrado pela família.


A Casa Lontra (Rua Bispo Cardoso Ayres, 72, Boa Vista) também abriga uma exposição permanente com cerca de 30 quadros-poemas, além de objetos pessoais – entre eles, sofá, mesa e quadros – organizados para recriar o ambiente onde Tiago vivia e produzia.


O memorial é apenas o começo de um trabalho de longo prazo. O inventário realizado após sua morte identificou 274 obras entre poemas visuais e quadros, muitas delas já comercializadas e que voltarão a ser disponibilizadas, agora com selo de autenticidade.


Além desse conjunto, permanecem inéditos poemas, músicas, traduções e um livro-objeto praticamente concluído, projetos que deverão ser lançados gradualmente e ajudarão a manter viva a programação do memorial.


“A gente recebe uma responsabilidade grande, porque sabe que o trabalho é muito grande. A primeira etapa só ele podia fazer, que era a construção da obra. Mas ele nos deixou a outra parte. Isso é uma responsabilidade muito grande que a gente pretende cumprir”, afirma Kátia Vasconcelos, mãe do artista.


“Estamos fazendo tudo que a gente consegue para fazer jus ao amor que ele tinha pela obra dele, que foi uma dedicação de uma vida curta, mas muito intensa.”


Recife como destino

O espaço na Casa Lontra também simboliza uma continuidade afetiva. Se a Rua da Aurora foi o endereço onde Tiago escreveu boa parte de sua produção, agora é ali que sua presença será evocada diariamente por meio das obras, dos objetos e da convivência entre arte e público.


Segundo Kátia, a necessidade de criar uma sede física surgiu justamente para que esse legado pudesse ser cuidado de forma permanente.


O anúncio do memorial aconteceu durante uma homenagem especialmente simbólica. Para Kátia, ver o filho celebrado por um festival dedicado à literatura recifense representa também um reconhecimento da cidade que ele escolheu amar.


“Foi uma emoção muito grande. Não poderia haver uma homenagem que configurasse mais Tiago. Ele foi apaixonado pelo Recife e tenho certeza de que deve estar muito feliz”, disse.


Embora nascido em Salvador (BA), Tiago West fez do Recife seu território afetivo e criativo, seu lugar no mundo. A cidade tornou-se personagem recorrente de seus poemas, desenhos e quadros, numa relação construída desde a infância e aprofundada ao longo de toda a vida.


Para a mãe, essa ligação transcendia qualquer explicação racional: “Os poetas escolhem diferente os seus amores. Tiago amava essa cidade desde muito cedo.”


Um legado em movimento

A dimensão desse legado, segundo ela, ainda continua surpreendendo a própria família. “Eu me sinto privilegiada por ter convivido quarenta anos com meu filho. Mas me surpreendi com o tamanho que a arte dele já tinha alcançado”, afirma.


O Memorial Tiago West nasce para impedir que elas se tornem silêncio. A intenção é que o espaço funcione como um organismo vivo, capaz de manter em circulação uma produção artística que nunca aceitou ficar imóvel, porque, como o próprio Tiago parecia entender, a poesia só permanece inteira quando continua encontrando novas formas de existir.

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